Era uma vez…Grimm, por Lívia Lins

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Lívia Lins é jornalista e se dedica ao teatro há quase 15 anos como atriz

Lívia Lins é jornalista e atriz.

Era uma vez…Grimm

por Lívia Lins

Começo dizendo que meu desejo maior no final daquela noite era voltar a ser criança, não porque como adulta não pude apreciar a obra, mas tenho certeza que como criança, teria mais sensibilidade para receber aquele presente. Mas enfim, já passei da infância há muito tempo, e cá estou para dar as minhas impressões do espetáculo. Ah sim, assisti a montagem para adultos.

Música erudita e contos de fadas, já temos uma novidade! Pelo menos para mim, esta foi a primeira coisa que me chamou atenção, e graças a Deus não me decepcionei, o casamento foi lindo. Uma mini orquestra recifense, impecável, fez a cama para as quatro vozes em cena, uma dádiva para meus ouvidos.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Mas a beleza não para por aí, os meus olhos também apreciaram a sombra de um lobo, o sangue projetado nas páginas de um livro gigante, um figurino que correspondia a minha imaginação, um cenário lindo, feito com muita delicadeza, que surgia e sumia, mas que infelizmente na apresentação que assisti, houveram algumas falhas consideráveis na execução. Vazava em cima, emperrava embaixo, mas não me foi tão penoso. A luz também não favoreceu algumas cenas, porque não pude ver o rosto dos personagens.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Destaco a narrativa feita pelos próprios autores dos contos. Uma aula de história entre as estórias, não é a toa que o nome do espetáculo leva o nome deles. Não conhecia o conto de Junípero, e acho que fui apresentada a ele de uma maneira encantadora, apesar da tragédia. Mas confesso que gostaria de ter assistido “Chapeuzinho Vermelho” na íntegra #ficaadica!

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Sobre as atuações, não gostei de todas, uma delas, por sinal, me incomodou de verdade. As “irmãs” de Cinderela. Tudo bem que eram homens imitando meninas, mas não precisava das caras e bocas próprias de personagens afeminados da dramaturgia. Humor forçado. Clichê.

A peça termina com os irmãos em cena, gratos porque ainda vivem atráves da suas obras. “Os contos ainda reúnem as pessoas em volta do fogo…e eles continuaram vivos enquanto ainda se acreditar na fantasia.”

FICHA TÉCNICA

Texto e Letras: José Mauro Brant (baseado na obra dos irmãos Grimm)/Música Original e Direção Musical: Tim Rescala/Direção: José Mauro Brant e Sueli Guerra/Supervisão: Miguel Vellinho/Elenco: José Mauro Brant, Wladimir Pinheiro, Janaina Azevedo, Chiara Santoro/Cenografia e figurino: Espetacular! Produções & Artes – Ney Madeira, Dani Vidal & Pati Faedo/Iluminação: Paulo César Medeiros/Desenho de som: Fernando Fortes/Animação gráfica: Renato e Ricardo Vilarouca/Ilustrações: Rui de Oliveira/Projeto Gráfico: Maurício Grecco e Úrsula de Mello

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’, por Luciana Lyra

Foto: Marcio RM

Foto: Marcio RM

 

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas, do Departamento de Artes Cênicas, Educação e Fundamentos da Comunicação em Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), é pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN)  É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN). É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’

por Luciana Lyra

Querida Ceronha,

No último verão europeu estive em Paris sentindo o calor a penetrar ideias tantas. Em caminhadas cheias de suor e deslumbramento, deparei-me com o casarão preservado, charmoso e imponente na Rua Varenne, o antigo Hôtel Biron, que hoje sedia o Museu Rodin, com um acervo imenso e publicamente reconhecido de 300 obras. No seu interior, esculturas, jardins,  restaurante e uma pequena sala dedicada à Camille Claudel, dita, ‘aprendiz’ e ‘amante’ do grande escultor.

Depois de vagar pelo museu e tomada por torções e expressões de corpos de pedra antes posados em carne para os artistas, saí novamente às ruas em pensamentos acerca da diferença: Por que um museu inteiro é construído em torno de um ‘falo’, e apenas uma recôndita sala traz à tona poucos trabalhos de uma artista ‘envaginada’? Por que continuamos a desvelar privilégios de uma sociedade patriarcal, calando vozes femininas por séculos?

E os questionamentos insistiam em mim: mulher, artista, pensadora… Assim, fazendo perguntas, desci escadas e como pílula para angústia, tomei o metrô, fui aos subterrâneos da cidade luz, que obscurece muitas de suas mulheres. Chegando num ponto em Montparnasse Bienvenüe, subi escadas outras e surpresa, deparei-me com uma pequena praça, quase sem vida, uma ‘praça-passagem’ de transeuntes e vendedores de cerejas. Seu nome: Camille Claudel. Poderia ser motivo de regozijo ver uma praça com seu nome numa rua de Paris, mas como não lembrar de todo um museu dedicado ao seu ‘mestre’? Parecia realmente um prêmio de consolação o nome estampado em pequena praça pública, consolação para aquela que morreu na loucura e no esquecimento. A mesma canonização que sofreu Joana d’Arc, hoje padroeira da França, após anos na fogueira armada por seus próprios conterrâneos.

É deste lugar, o da indignação com a diferença, que quero começar a falar a respeito do espetáculo Camille Claudel, de sua autoria, Mm. Ceronha Pontes…

Na última quarta-feira, cheguei ao Teatro Arraial, em Recife, às 20:50h, recebendo, de pronto, a responsabilidade inferida pela produção de seu espetáculo em interferir na sua cena quando solicitada a te oferecer cigarros. Não fumo, mas o jogo me pareceu um jeito de chegar junto de sua ação, de me friccionar ao seu mundo, um mundo também de Camille. Dentro do teatro intimista, fui invadida por uma música e uma gravação, que não condiziam com as sombras dos móveis claros, da escada branca e da forte silhueta ao fundo. A música e a gravação ‘historicizada’ não acolhiam como mãe, como barro, mas desde já dominavam como violentos falos. A música escolhida e a gravação não me pareceram bons recursos para iniciar um trabalho daquela natureza. No entanto, concentrei-me na silhueta em movimento e foi assim que comecei a ser instada no universo de sua Camille. Um movimento sinuoso e feminino quebrando-se na penumbra do ar.

Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

No espetáculo, com bons cenário e figurino, uma iluminação dialógica e conduzido pela engenhosa atriz que é, somos convidados a imaginar Villeneuve, onde Camille fez-se menina, somos apresentados a Paul Claudel, seu irmão mais novo e ao seu mestre e amor Auguste Rodin. Somos especialmente tocados com a pulsão desta mulher pelo ato e pela arte de esculpir, pela busca de sua autonomia, na tentativa de romper com as diferenças e os privilégios da sociedade francesa falocêntrica.

O espetáculo nos dá pistas da vida da artista, por meio da loucura, da paranóia, do estado de solidão, de abandono e ingratidão representados no palco. Lá, vemos uma Camille potente, mas em desespero, estranha e obsessiva, querendo a morte de Rodin. Uma Camille que passa a delirar sobre seu passado, sobre a sua mãe a impedindo de ser uma artista e sobre as lembranças ruins decorrentes da ausência de reconhecimento a sufocar.

Foto: Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

Não há dúvidas, que a cena de Camille Claudel é meritória. E o maior valor é justamente dar voz ao abandono e à diferença. Sua Camille Claudel, Mm. Pontes,  faz-nos ver, em praça pública, a mulher que de gênio, transformou-se em paranóica, esquizofrênica, louca, abatendo-se física e psicologicamente. Vemos a Camille que não mais se alimenta e desconfia de todas as pessoas, achando que todos a matarão, e a culminância de sua internação em manicômio a sublinhar a discriminação. A contundência e a grandiosidade do talento de Camille estavam sim, entre a figura legendária de Rodin e a de seu irmão, que se tornou um dos maiores expoentes da literatura de sua geração. À ela, o lugar menor, a loucura e o esquecimento, que a sua cena traz à representação.

Foto: Camila Sérgio

Foto: Camila Sérgio

No entanto, apesar do grande mérito de retrospecção da genial artista, pela competência de uma atriz e de seus pares, o espetáculo encontra sua fragilidade, a meu ver, exatamente na fundamental relação entre atriz e personagem. Percebo que Camille Claudel, o espetáculo, poderá encontrar mais potência, se desvelar não só as suas habilidades de representação da escultora, Mm. Pontes, mas as suas camadas pessoais e primevas que impulsionam a sua identificação com a dita personagem. Pode haver uma poderosa convulsão, quando a personagem Camille tornar-se persona de Ceronha, tornar-se uma máscara ritual de você mesma, o que ainda não acontece.

Em Camille Claudel, a personagem ainda se revela num estado e num tom de representação e não de experiência de estados, o que se faz sentir num registro didático e histórico que, por vezes, adentra à atuação e também à dramaturgia. Apesar de sua mãe ser motivo de dedicação de sua cena, fato que poderia vazar enquanto potência e impulso do seu eu artista, prevalece o teor representativo da cena. Penso que a dissolução do espaço à italiana, tão expositivo das formas, pode ser salutar numa revisão de seu espetáculo, Mm. Pontes, compartilhando mais de frente com o espectador, tomado como cúmplice presente do abandono. Talvez a música e o canto próprios possam também revelar o gênio criativo de uma atriz sob à máscara, mais do que uma gravação datando fatos ou uma música de época definida.

Foto: Marcio Resende

Foto: Marcio Resende

Sim, quando cheguei ao Teatro Arraial e fui convocada a te oferecer cigarros, quis ver uma relação umbilical de uma atriz com sua personagem, mas isso ainda não se estabeleceu. O que vejo ainda é o ‘disfarce’, a ‘cadela sem tetas’ da escultura, uma boa atriz sob uma máscara da ficção. Sim, como atriz que também sou, sinto que já freqüentei o ‘inferno’ e falo deste lugar para você. Se o Deus, macho que é, voou! Fumemos juntas à revolução das deusas. Revolução esta que pode começar na fri(c)ção entre atriz e personagem, não na representação ficcional desta, mas na construção de uma persona. Talvez seja a hora de abdicar da máscara de ‘atriz’, para assumir as tetas de uma ‘pessoa’, uma perfomer na leitura da alteridade, um jogo de espelhamento onde não se sabe em que lugar começa a atriz e a personagem termina. Que Camille encarne sua Fortaleza e sua Fortaleza seja a carne de Camille. Assim pode tecer uma renda mais firme, uma trança que liga a genial escultora francesa à talentosa atriz cearense, acolhida pelas terras pernambucanas. Penso que na força desta trama, reafirmamos que nós mulheres não somos habitantes dos museus, gritamos nuas nas grandes praças públicas, vagamos em florestas sujas do barro primeiro, somos cadelas selvagens com tetas expostas e orgulhosas de nossa arte. Por fim, assumimos todas as artes de ser mulher.

Com imenso carinho e

reconhecimento sincero de sua ousadia,

Mm. Luciana Lyra

Dzi Croquettes, por Duda Martins

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

corte

Jornalista por formação, blogueira por opção e atriz de corpo e alma. Idealizadora do blog Meros Espectadores. https://merosespectadores.wordpress.com/quemsomos/

 Dzi Croquettes

por Duda Martins

Cubro o Janeiro de Grandes Espetáculos há cinco anos, dos 20 que o festival está comemorando. Até agora, a melhor abertura por mim já presenciada foi nesta edição. A ousadia de trazer o Dzi Croquettes ao Santa Isabel foi uma decisão acertada dos coordenadores. Aquele templo semissacro do teatro pernambucano quase caiu abaixo na última quarta-feira.

Vamos tentar chegar ao final do texto sem usar a palavra “irreverência”, ok? Inspirado no conjunto norte-americano The Coquettes e no movimento gay atuante na off-Broadway surgia, há 40 anos, o Dzi Croquettes (década de 70). Um grupo que levantava algumas bandeiras – principalmente a favor da liberdade sexual e contra qualquer tipo de repressão – e fazia, sim, um teatro ideológico, que tinha algo a dizer a sociedade. Esta prática, de usar o teatro ideologicamente, hoje é abolida por muitos, não sei porque. Agora é arte pela arte: ficamos cheios de estética (?) e vazios de conteúdo.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Voltando. À sua época, o Dzi teve enorme importância. Guerreou com as armas cênicas contra uma cultura vigente opressora e, por que não, burra. Fez revolução nos palcos brasileiros e lá fora. Hoje, podemos dizer que venceu. Venceu e o Brasil não é mais o mesmo, e nem mesmo o teatro brasileiro. Taí o porque de o espetáculo “Dzi Croquettes – Em Bandália” ter um quê de datado. O discurso não é mais revolucionário, nem ousado. Travesti no palco, escracho, desbunde, já vimos bastante. Tanto o Dzi quanto o Oficina, o Vivencial e até, tomadas as devidas proporções, a Trupe do Barulho já trabalharam bem esse estilo.

Definitivamente não é texto o que impressiona nesse novo Dzi. Isso, na verdade, é bem cansativo. Mais do mesmo. O que não nos deixa piscar nas quase duas horas de peça é a forma. Não apenas as dos garotos em cena, que diga-se de passagem, é maravilhosa, mas do espetáculo que causam com a sua presença. Aliás, presença de palco não falta àqueles cariocas. O espetáculo é grandioso e luxuoso: figurino, luz, trilha muito bons. Os artistas em cena arrebentam no fôlego, coreografia e talento. Em particular o Ciro Barcelos, remanescente do grupo e agora diretor da nova formação, que nos deixa boquiabertos com a sua performance.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

O musical cumpre bem sua função. Atores afinados, excelentes em movimento de corpo, atrevidos. Imagina, ficaram de pé nas cadeiras do Santa Isabel, brincaram com o público, subverteram o sistema. O Ciro Barcelos faz bem em não comparar o Dzi de antes com o de hoje. Este último veio para prestar uma homenagem. Homenagem bonita, cheia de qualidade artística, feita com coração, nostalgia e, claro, muita purpurina.

Ficha Técnica
Concepção, texto e direção geral: Ciro Barcellos/Assistência de direção e roteiro: Radha Barcellos/Direção musical: Demétrio Gil/Coreografias: Ciro Barcellos e Lennie Dale/Direção técnica: Ronaldo Tasso/Iluminação: Aurélio de Simoni/Trilha sonora: Demétrio Gil e Flaviola/Figurinos e adereços: Cláudio Tovar/Cenário: Pedro Valério/Supervisão artística: Thina Ferreira/Direção de produção: Robson Agra/Produção executiva: Anna Ladeira/Elenco: Ciro Barcellos, Demétrio Gil, Udilê Procópio, Leandro Melo, Thadeu Torres, Franco Kuster, Pedro Valério, Ricardo Burgos, Sonny Duque e Robson Torinni, com participação especial de Bayard Tonelli.

Carnaval Dell’Arte, por Nathália Sena

Foto Divulgação

Foto Divulgação

Nathália Sena é formada em Design pela UFPE, bailarina amadora desde dos cinco anos de idade, filha de Isabel Melo Coreógrafa Profissional a mais de 30 anos. Atualmente trabalha com Produção, Construção e Montagens de grandes espetáculos de Teatro e Dança para escolas particulares em Recife, através da "Senario Produtivo".

Nathália Sena é formada em Design pela UFPE, foi bailarina durante 14 anos, e hoje trabalha na “Senario Produtivo”, com produção e montagens de grandes espetáculos de Teatro e Dança para escolas particulares em Recife, junto com sua mãe, Isabel Melo, coreógrafa profissional há mais de 30 anos.

Carnaval Dell’Arte

Por Nathália Sena

Na última quinta-feira (14),  tive a oportunidade de assistir o espetáculo “Carnaval Dell’Arte”, apresentado pela CIA Pernambucana de Ballet. Um espetáculo que  propõe  através da dança, contar a antiga e clássica história do carnaval de Veneza, desembarcando na irreverência do carnaval de Pernambuco.

A peça mostra um pouco da história de amor no carnaval  Veneziano, com os personagens da Comédia Dell’Art,  Arlequim, Pierrot e Colombina. O Arlequim conquista e coração da Colombina, eles se casam e viajam de lua de mel para o o carnaval de Pernambuco, onde são contagiados pelo frevo, maracaru e bonecos gigantes de Olinda.
A produção visual estava muito bem elaborada. O cenário com painéis pintados a mão, mostrava fachadas de construções antigas. Os figurinos muito ricos em detalhes e brilhos, estavam impecáveis.

Foto Divulgação

Foto Divulgação

Entre saltos e piruetas, o  ballet clássico é o grande astro da noite . Alguns números mostraram um pouco de ballet moderno e até contemporâneo, mas em sua maioria o estilo Clássico foi o mais utilizado, com toda sua técnica e elegância. Acredito que a intenção do espetáculo tenha sido exaltar esse estilo da dança, que sobrevive em meio a um cenário influenciado pela modernidade, e que vem trazendo novos olhares, novas formas e possibilidades de se expressar com o corpo.
Sem dúvida um dos pontos altos do espetáculo é a técnica e habilidade do elenco de bailarinos principais, que nos apresentaram movimentos de extrema dificuldade com toda elegância e beleza da dança. As coreografias muito bem ensaiadas e sincronizadas, em alguns momentos se tornaram um pouco longas em relação a outras, deixando pouco tempo para outros temas serem mais trabalhados.

Foto Divulgação

Foto Divulgação

Nas últimas coreografias do espetáculo, é apresentado um pouco da influência moderna, com a chegada dos personagens a Pernambuco, finalizando com uma grande troça carnavalesca . Acredito que a cultura pernambucana é muito rica e poderia ter sido melhor apresentada durante o espetáculo, até mesmo através do ballet clássico, tendo em vista que foi mostrado apenas em três coreografias em um total de dezesseis.
Contudo, o espetáculo valoriza a dança, apresentando um pouco de cultura e arte para o público de várias idades e classes do Recife. Espero que sirva de influencia para que novos espetáculos sujam, e para que a arte do Teatro e da Dança sejam mais valorizados em nosso Estado.

Foto Divulgaçã

Foto Divulgação

Desconstruir para reconstruir ou Duas Mulheres em Preto e Branco, por Breno Fittipaldi

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Duas Mulheres em Preto e Branco, pelas lentes de Breno Fittipaldi

Breno Fittipaldi por Duda Martins: Uma aula de teatro já foi o suficiente para olhar para Breno com respeito. Na época, ele substituia minha professora no Sesc Casa Amarela e foi logo avisando: “olha, não quero conversas paralelas e nem brincadeirinhas fora de hora”. Eu gostei. Gosto de professores com pulso firme. A aula foi uma das melhores que já tive e em pouco tempo me senti evoluindo como atriz. Depois conheci Breno como diretor, com O Fio Invisível da Minha Cabeça (2010), um monólogo forte do qual me lembro até hoje. Além de muitas virtudes como pessoa e profissional, Breno entende de interpretação. E talvez tenha sido a pessoa certa para falar de Mulheres em Preto e Branco, uma produção que desafia o trabalho de duas potentes atrizes. Aqui, ele foi Mero Espectador com texto e foto.

Breno Fittipaldi

Breno Fittipaldi é encenador, ator, dramaturgo, fotógrafo, arte-educador e Supervisor de Cultura do Sesc Casa Amarela. Foto: Túlio

Duas Mulheres em Preto e Branco – Desconstruir para reconstruir

Por Breno Fittipaldi

Vários motivos me levam ao teatro, primeiro porque gosto, é obvio, depois porque faço, mas principalmente pela magia e mistério que ele contém. Num espetáculo de teatro cabem inúmeros universos, mundos a serem desvendados, olhares que vão muito além do que se enxerga e um sem fim de sentidos, leituras e intenções. É sempre plural, de significados múltiplos, tocando de diferentes maneiras quem assiste independente de permitir envolver-se ou não. Há também vários motivos para ver Duas Mulheres em Preto e Branco, espetáculo bem cuidado em todos os detalhes que tem produção da Remo Produções Artísticas (Besame Mucho, Arlequim, Abelardo e Heloisa), direção de Moacir Chaves (Bugiaria, Utopia, Por Um Fio), autoria de Ronaldo Corrêa de Brito (Faca, Livro dos Homens, Galiléia), no elenco Sandra Possani (Aquelas Duas, O Acidente) e Paula de Renor (Salto Alto, Fernando e Isaura, Carícias) e vasta ficha técnica de renomados profissionais.

As mulheres em questão são Sandra e Letícia, personagens do conto que dá nome ao espetáculo, do livro Retratos Imorais. Encenado absolutamente na íntegra, narra a história de duas amigas que fizeram medicina durante o período da ditadura militar, aparentemente engajadas nas lutas da época e envolvidas no contexto em questão. Muitos anos se passaram, as duas casaram, a primeira com Paulo a segunda com Miguel, construíram uma vida estável, cercada por conforto e as ideologias foram se perdendo ao longo do tempo. A ação acontece como um ajuste de contas, num quarto/casa aparentemente destruído aonde lembranças, verdades, revelações vem à tona.

A principio dá-se a ideia de que a ira de Letícia, que já bateu muito em Sandra e que ainda a ameaça de morte tem como motivo a traição da amiga que é amante de seu marido há muitos anos, porém, ao final do desfecho descobre-se que as duas foram namoradas desde sempre. Letícia se sente triplamente traída, primeiro porque Sandra casou com um homem o que a obrigou a casar também, depois por ela arranjar um amante e por esse amante ser exatamente o seu marido. Desnorteada tenta por fim em situação tão constrangedora e humilhante, porém é vencida por um amor maior do que o ódio que sente, termina se rendendo ao poder de sedução de Sandra e sela essa trajetória de vida com um longo e apaixonante beijo, como se a história delas se resumisse em desejo e perdão.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

Lembrei- me do texto de August Strindberg, A Mais Forte, onde também há um confronto entre duas mulheres, só que a disputa ali é pelo amor de um homem, porém não fica claro quem vence, quem é a mais forte. No texto de Ronaldo, a impressão que tenho é que Sandra sempre vence, ela sim é a mais forte. Letícia termina sempre cedendo, se rendendo em nome do amor. Fica a questão, quem ama se submete a tudo? O amor oprime? Há ainda algo que me incomoda no texto, a excessiva citação de referências cinematográficas e a ironia que o autor trata outros autores, parecendo desdenhar, por exemplo, de Machado de Assis, transparecendo um intelectualismo desnecessário e uma pretensão sem fundamento.

Para dar vida a essas duas mulheres, outras duas grandes mulheres, as atrizes Paula de Renor e Sandra Possani. Se o espetáculo é o que é, muito se deve a elas. A nossa Paula vem em constante evolução como atriz, amadurecendo a cada trabalho, investindo e tendo coragem de mergulhar em personagens e projetos cada vez mais desafiadores, permitindo-se a sair da zona de conforto e lançando-se a voos cada vez mais altos. É inquieta, curiosa, deliciosamente linda em cena, busca um vigor que ainda precisa de ajustes, mas está inteira, acreditando no que faz, surpreendendo a cada gesto, a cada fala, a cada intenção. A composição que fez para Letícia é aparentemente forte, mas há no subtexto uma fragilidade que tenta sempre ocultar, isso é muito difícil, mas consegue tirar de letra. Bom demais vê-la em cena, seja falando de cinema, dançando, rindo, ironizando, desfrutando tudo que o personagem permite, sendo bela e sendo fera, ou melhor, sendo feroz.

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Foto: Breno Fittipaldi

A gaúcha (nem por isso menos nossa) Sandra Possani está no patamar das grandes atrizes, daquelas que podem fazer tudo que quiseram. É madura, intensa, vigorosa, domina as ações físicas, a partitura gestual, as variações psicológicas exigidas pelo personagem, o tempo rítmico e as pausas. Consegue aliar num limiar preciso técnica e emoção. Segura o personagem o tempo inteiro, tendo no olhar a arma fatal para que o jogo cênico se estabeleça. Nesse jogo/ duelo não precisa ter vencedores e sim troca e sintonia o que acontece com naturalidade, muito devido à generosidade de Sandra, que estabelece com Paula uma parceria, elas não se abandonam nunca, pelo contrario, estão sempre unidas em prol da cena.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

A direção do Moacir Chaves nos revela um grande desafio, transpor para a cena um texto não dramatúrgico, sem adaptações (ainda bem por se tratar de um conto), que exige um desdobramento visual onde a imagem passa a ser a linguagem dessa transposição. Homem de teatro experiente que é, consegue através da desconstrução solucionar as dificuldades que o texto impõe, reconstruindo a cada segundo uma identidade visual que resulta numa assepsia que poderia incomodar, porém, como maestro da cena, atinge essa limpeza concatenada com a trajetória das personagens, que se limpam/esvaziam durante o já citado, acerto de contas.

Confesso que em alguns momentos acho mecânico demais algumas ações das atrizes, como procurar em gavetas uma garrafa de uísque, porém, nada que possa comprometer o todo. Em contrapartida destaco a cena em que gravatas são jogadas para o alto, poesia visual que apenas um diretor sensível consegue construir em parceria com elenco que se entrega. Os elementos técnicos são primorosos na encenação, conseguindo unidade entre eles, se integrando em função da cena, proporcionando suporte para que o espetáculo aconteça como um todo, sem destaque específico para um ou outro. A iluminação de Aurélio de Simoni (Galileu Galilei, Sermão da Quarta-feira de Cinzas, Noite de Reis) é precisa, causando atmosfera necessária tanto para momentos mais intimistas como em passagens corriqueiras, cotidianas, um verdadeiro mestre.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

Também contribuem para que essa atmosfera seja atingida a trilha sonora de Tomás Brandão e Miguel Mendes, que navegam com firmeza nesse universo, produzindo momentos ora de risos e leves e outros de tensão e suspense. A cenografia é de outro mestre, Fernando Mello da Costa (Orlando, Cartas Portuguesas, Melodrama), conterrâneo de Possani, ele é fundamental para a construção conceitual do espetáculo, enchendo e esvaziando o palco, causando no espectador sensações variadas, seja de caos, desorientação, esvaziamento, leveza e sublimação. Os figurinos de Walther Holmes talvez seja o que destoa dessa unidade, pelo menos alguns deles, me parecendo em alguns momentos exagerados demais para duas mulheres de certa sofisticação, porém, é apenas um detalhe a ser questionado.

Vi o espetáculo duas vezes, uma no fim da temporada que fizeram no Teatro Apolo e a outra no Janeiro de Grandes Espetáculos. Houve muitas diferenças entre elas, somente o teatro tem esse poder transformador a cada apresentação, a cada noite. Na primeira tudo funcionou, havia intensidade, consistência, verdade. A segunda me pareceu mais frágil, arrastada, como se precisasse de mais ensaio. Porém, Duas Mulheres em Preto e Branco é um espetáculo que precisa ser visto, pelo simples motivo de ser verdadeiramente teatro.

Ficha técnica: Texto: Ronaldo Correia de Brito. Direção: Moacir Chaves. Assistente de direção: Miriã Possani. Trilha Sonora e operação de som: Tomás Brandão e Miguel Mendes. Figurino: Walther Holmes. Cenário: Fernando Mello da Costa. Iluminação: Aurélio de Simoni.Operação de luz: Beto Trindade. Preparação corporal e coreografias: Rogério Alves. Preparação vocal: Flávia Layme e Rosemary Oliveira. Assistente de produção: Elias Villar. Produção executiva: Keila Vieira. Produção geral e administração: Paula de Renor. Elenco: Paula de Renor e Sandra Possani. Fotografia de Sobrado 423/Rogério Alves/Camila Sérgio.

Vestígios ou Vestígios de um gozo proibido, por Igor de Almeida

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Vestígios, pela lente de Américo Nunes

Igor de Almeida por Duda Martins: O meu registro documental sobre a Companhia Teatro de Seraphim me rendeu boas amizades. Uma delas foi Igor. Rapaz novo, mas ousado. Admiro muito quem não apenas diz ser amante do teatro, mas se jogar com tudo para estudá-lo, digeri-lo e tentar entendê-lo (talvez nunca consigamos). Igor é um estudioso. Foi atrás da sua grande paixão e hoje é professor. Pode ensinar e falar com muita propriedade. Desta vez, ele se dispôs a ser um mero espectador e escrever sobre Vestígios, um texto de Aimar Labaki, sob a montagem de Antônio Cadengue,  a quem nossa cena deve muito. A peça, que trata entre outras coisas sobre opressão, (tema que nunca saiu de pauta), esteve em cartaz por duas vezes no Recife, e este ano viaja em turnê pelo Brasil. Veja Vestígios sob o olhar de Igor:

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Professor, pesquisador, ator e ensaísta. Atualmente, cursa o doutorado em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo, com orientação de Ingrid Dormien Koudela. Morando entre São Paulo e Recife, prepara-se para um estágio de doutoramento na Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3, sob orientação de Josette Féral, a partir de março de 2013. Tem como objeto de estudo a Companhia Teatro de Seraphim.

Vestígios de um gozo proibido

Por Igor de Almeida da Silva

Em reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo sobre a recente constituição da Comissão da Verdade no Brasil, designada a investigar casos de violação aos direitos humanos em nosso país entre 1946 e 1988 (compreendendo nesse período duas ditaduras), a psicanalista Maria Rita Kehl, uma das integrantes da comissão, questiona o porquê do incômodo de altas patentes militares, envolvidas em casos de tortura, com o esclarecimento e divulgação desses acontecimentos se a ação desta comissão não tem caráter punitivo. Ela apresenta duas hipóteses: “A otimista seria a de que têm vergonha do que fizeram. Mas a pessimista, ou realista, é: existe um gozo na teoria psicanalítica, que é o gozo proibido. Tão sem freios que no limite é mortífero” (Apud KACHANI, 2012). Segundo a psicanalista, “A pessoa que está diante do corpo inofensivo dispondo dele a seu bel-prazer, está gozando. Então me parece que o grande vexame, e não a culpa ou o medo, é o sentimento que pode predominar entre aqueles que terão seus nomes citados eventualmente. Como se fossem devassados no seu sentimento mais íntimo” (Apud KACHANI, 2012).

Este “gozo proibido”, da ordem do inconsciente, que impulsiona os atos de tortura e opressão no lugar de motivações exclusivamente ideológicas, parece ser o leitmotiv do espetáculo Vestígios, texto de Aimar Labaki e encenação de Antonio Cadengue, que cumpriu temporada de agosto a novembro de 2012, no Recife. Trata-se de um espetáculo que discute a tortura, ou melhor, seus vestígios. Na trama, dois investigadores, Cardoso e Marcos, torturam um jovem professor universitário, Marcelo, acusado de assassinar uma moça desaparecida há mais de dez anos. Como vestígio dessa desaparição, resta apenas uma cabeça, da própria moça, que surge inesperadamente na cama de Marcelo. O rapaz abandona essa cabeça sem corpo na frente do Instituto Médico Legal. Em seguida, é preso e torturado afim de que confesse o suposto crime e revele a localização do corpo. No entanto, a trama se complica, tornando-se cada vez mais insólita. Marcelo vê-se então sob a suspeita de envolvimento com organizações internacionais ligadas a Cuba e a antiga União Soviética, que atuaram no Brasil ainda nos anos 1980, no final da Ditadura Militar. Os investigadores buscam a verdade obsessivamente, mas, sobretudo, nomes. A verdade sempre possui um nome. É o que acreditam. É preciso nomear, dizer quem é, o que se é.

Porém, esta interpelação constante dos investigadores disfarça uma dicotomia presente na peça e que é metaforizada por essa cabeça apartada de seu corpo. Em outras palavras: razão e instinto, consciente e inconsciente. Antes de se iniciar uma sessão de tortura, na qual Marcos irá estuprar Marcelo, os torturadores confessam:

“CARDOSO – Eu não vou ver. Eu não gosto de ver. Eu não me importo de fazer. Mas fazer é o corpo. E o corpo esquece. A cabeça, esta não esquece.

MARCOS – Comigo sempre foi o contrário. Meu cérebro não retém nada. Mas meu corpo se lembra de cada movimento, cada carícia, cada dor”. (LABAKI, 2010)

Ambos concebem corpo e mente de modos diferentes. Isto é claro. Porém, o que se evidencia é que ambos recusam o ato de ver. Negam-se ou simplesmente não podem. São incapazes de enxergar. A valorização do corpo para ambos talvez seja um modo de permanecerem ao nível dos instintos, do inconsciente, daquilo que não nomeiam. Não ousam. Contradição, pois buscar nomes, ou verdades, é sua principal função.

O inconsciente, portanto, mostra-se como força propulsora dos personagens e da própria ação dramática do texto. Aqui, há apenas pulsões. Nesse sentido, a encenação imprime uma atmosfera de pesadelo e obsessão ao espetáculo. Tudo se passa numa sala de tortura recortada por biombos de vidro suspensos, de formas geométricas irregulares, como estilhaços em grandes proporções. Por trás desses biombos, encontra-se a sala dos investigadores que monitoram todos os movimentos e reações de Marcelo. É uma outra câmara que se revela ao espectador a depender dos efeitos da luz, ora expondo o que há por trás dessas cortinas de vidro, ora rebatendo o reflexo do interior da sala onde se encontra Marcelo. Porém, essas imagens refletidas são distorcidas. Não se oferecem reproduções de uma realidade, mas reflexos de um espelho cindido que questiona o real no lugar de reproduzi-lo. As imagens geradas por esses falsos espelhos produzem fantasmagorias que duplicam as cenas de tortura da peça. A iluminação e a trilha sonora reforçam e ampliam esse efeito.

A encenação enceta um mecanismo de repetição e automatismo. Com cenas de torturas que se repetem sem que o espectador tenha certeza se se trata de um delírio de Marcelo, já debilitado psicológica e fisicamente, ou de algo imposto pelos investigadores, como acontece quando Cardoso pede, por duas vezes, que Marcelo (professor de história) descreva procedimentos de tortura. Na primeira vez, o professor está apenas de calça; na segunda, nu e visivelmente insano. Assim como o torturado, o espectador parece ser também envolvido neste clima de pesadelo, perdendo-se nessa profusão de fantasmagorias e cenas de suplício.

De certa forma, os torturadores são autômatos, pois seus gestos são irrefletidos. Nos intervalos das sessões de tortura, reiteradas vezes, ilumina-se a câmara dos investigadores onde eles, num mesmo movimento, bebem água, como se fossem duplos um do outro, num gesto obsessivo, como se por meio da água buscassem a purificação de seus atos. Mas, ao mesmo tempo, esse signo remete a própria obsessão dos militares de controle e higienização de tudo o que eles consideravam subversivo ao país. Esse gestus é ao mesmo tempo síntese e vestígio dessa obsessão.

No piso, uma imagem abstrata vermelha pulula do cenário negro. Ela sugere uma grande poça de sangue, mas também uma espécie de redemoinho que vai tragando os personagens na medida em que a peça avança. Todos são atraídos por esse redemoinho, torturadores e torturado, mestres e escravo, pois, por intermédio do sofrimento impingido a Marcelo, os investigadores confessam suas obsessões e conflitos interiores.

Devido ao ofício, ambos levam uma vida dupla. Contudo, essa partição permite o exercício de outros aspectos de suas personalidades. Marcos fala claramente de uma moral na casa e outra na rua. Uma moral para seu “trabalho” de torturador e outra para sua família:

“No fundo, o que a gente é? Um tipo de polícia mesmo. Não é só isso, o que eu faço, que eu deixo pra fora quando entro em casa. Deixo também uma parte enorme da minha vida pessoal. O que eu gosto, o que eu não gosto, o que eu faço no escuro do meu desejo. Por que o meu desejo sempre foi na rua, mas fora do sol. A família é o lugar do dever. Não o lugar do prazer. Família, com prazer, vira baderna. Mas eu tô sempre ligado, por que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Se eu vacilo, meu trabalho, meu desejo, aparecem. Como se tivesse umas migalhas escondidas na camisa, e quando eu fosse tirar, caíssem no chão, me entregando. Migalhas de prazer, migalhas desse meu dever. Que eu escondo para não perder as migalhas que eu tenho lá dentro de casa, dentro de mim. Eu escondo as minhas migalhas, pra poder escolher entre as migalhas que a vida me oferece. É sempre melhor poder escolher”. (LABAKI, 2010)

Chega-se ao gozo proibido do opressor, seu desejo inconfesso, que o personagem refere-se de modo indistinto como prazer e dever. Escondendo essas “migalhas”, ele pode exercer seu domínio.

Vestígios se passa em meados dos anos 1990, após o processo de redemocratização do país, mas o que o espetáculo evidencia é a latência desse gozo proibido, talvez o lado inconsciente da verdade a qual a Comissão composta em maio de 2012 deve trazer ao conhecimento público. O espetáculo demonstra que como vestígio esse gozo de que fala Kehl permanece potente. Sua permanência na obscuridade, a despeito do fim de período ditatorial, não pressupõe sua supressão. Pelo contrário, seu retorno é uma ameaça constante. Enquanto “migalha” imperceptível, ele pode “escolher”. Talvez seja esta uma das principais funções da Comissão da Verdade, que se pode perceber por meio desse espetáculo: impedir a possibilidade de escolha do gozo proibido, ao trazê-lo à claridade, varrendo, dessa forma, seus últimos vestígios, suas migalhas.

Referências Bibliográficas

KEHL, Maria Rita. Apud: KACHANI, Morris. Integrante associa tortura a ‘gozo proibido’. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 de maio 2012.

LABAKI, Aimar. O teatro de Aimar Labaki. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.

Ficha Técnica do espetáculo Vestígios

Texto: Aimar Labaki

Encenação: Antonio Cadengue

Elenco: Carlos Lira (Cardoso), Marcelino Dias (Marcos) e Roberto Brandão (Marcelo)

Trilha sonora original: Eli-Eri Moura

Cenografia: Doris Rollemberg

Figurinos: Anibal Santiago

Iluminação: Saulo Uchôa

Assistente de direção: Rudimar Constâncio

Assistente de produção: Elias Vilar


[i] Igor de Almeida Silva é doutorando em Artes Cênicas pela ECA-USP e mestre em Letras pela UFPE. Autor do livro Réquiem à infância (Recife: Bagaço, 2009), em que estuda as peças Um sábado em 30 e Viva o cordão encarnado, de Luiz Marinho.

Daquilo que move o mundo, por Giordano Castro

daquilo

Foto: Priscila Buhr

Giordano Castro, por Duda Martins: O primeiro contato que tive com Giordano foi por telefone, para entrevistá-lo a respeito do Torto. Até então, tinha ouvido falar no Magiluth, mas muito pouco. Só um burburinho. Aí ele bla, bla, bla e confesso que não criei tanta expectativa para vê-lo em cena. Devia ser mais uma viagem desse povo da cena, querendo inovar. Mas, hoje, quando se fala em inovação, é nesse grupo que eu penso. Independente se tá na moda, (e que bom que está), o Magiluth pra mim é um dos grandes, grandes. Mas particularmente falando de Giordano, fico tentando achar um ator-dramaturgo em Recife que me impressione tanto. O cabra é bom!! E desde a primeira vez que o vi, tinha certeza que ia crescer vertiginosamente. Tenho orgulho de tê-lo no nosso casting, e agora, como um Mero Espectador.

giordano

Giordano Castro é ator, dramaturgo e Arte-educador formado pela UFPE / Universidade de Coimbra – PT Membro e um dos fundadores do Grupo Magiluth. Como ator participou de quase todos os trabalhos do Grupo e é responsável por três dramaturgias montadas pelo Magiluth (Um Torto, Aquilo que meu olhar guardou para você e Luiz Lua Gonzaga).

Por Giordano Castro

“A TV tem apenas o som…

Então você tem que imaginar a imagem.”

O que é que move o mundo? Eu pergunto esse mundo em que vivemos… O que é que move ele? Eu poderia dizer que é uma relação entre o sol e a terra, assim como acontece com os outros planetas, e também corpos celestes, e etc… etc… e tal! Mas essa explicação primária e óbvia, talvez não seja a resposta que eu procure, pois o mundo vai continuar girando em torno do sol independente da vontade de qualquer um, é uma força da natureza, no entanto eu me pergunto sobre esse mundo que os homens criaram, com a sua própria natureza, tão forte e agressiva quanto é essa natureza maior que move o mundo, quem sabe essa natureza humana é o que faça esse mundo girar, talvez isso seja o “Daquilo”dessa questão.

A fábula contemporânea fala da relação de três figuras, presas numa ilha, no meio de um rio preto como tinta e cheio de lixo. Um velho, um homem e um menino, gerações presas numa ilha buscando, ou não, como sair daquele lugar. Porém, enquanto não se encontrar a saída eles vão encontrando a forma de viver naquele mundo… Independente da história que esta sendo contada, o interessante é ver um trabalho construído em processo e perceber como essa construção foi parar na cena, seja na dramaturgia que lembra quadros muito bem costurados, seja respeitando as individualidades de cada ator sem relaxar para novas buscas corporais e arquetípicas.

Ah… e Daquilo que move o mundo? O que move o mundo desses personagens é o que move o mundo aqui fora, relações de poder, ambições, afetos, medos, desafios… e amanhã? Amanhã a gente sai dessa ilha…

PS: sempre que alguém for assistir esse trabalho lembre que o espectador em muitos momentos vai tá assistindo uma TV sem imagem, apenas som e você tem que imaginar.

Dramaturgia e direção: Tiche Vianna. Criação das figuras: Ésio Magalães. Cenografia e figurinos: Luciano Pontes. Criação da trilha sonora: Missionário José. Criação e operação da luz: Saulo Uchôa. Operador de som: Ailton Brisa. Cenotécnico: Mário Almeida. Contrarregra: Luís Flávio Galdino. Costureira: Maria Lima. Produção: Pedro Castro. Assistentes de produção: Márcio Farias e Pedro Portugal. Coordenação de produção: Kleber Lourenço. Elenco: Jorge de Paula, Kleber Lourenço e Tay Lopes.