Era uma vez…Grimm, por Lívia Lins

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Lívia Lins é jornalista e se dedica ao teatro há quase 15 anos como atriz

Lívia Lins é jornalista e atriz.

Era uma vez…Grimm

por Lívia Lins

Começo dizendo que meu desejo maior no final daquela noite era voltar a ser criança, não porque como adulta não pude apreciar a obra, mas tenho certeza que como criança, teria mais sensibilidade para receber aquele presente. Mas enfim, já passei da infância há muito tempo, e cá estou para dar as minhas impressões do espetáculo. Ah sim, assisti a montagem para adultos.

Música erudita e contos de fadas, já temos uma novidade! Pelo menos para mim, esta foi a primeira coisa que me chamou atenção, e graças a Deus não me decepcionei, o casamento foi lindo. Uma mini orquestra recifense, impecável, fez a cama para as quatro vozes em cena, uma dádiva para meus ouvidos.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Mas a beleza não para por aí, os meus olhos também apreciaram a sombra de um lobo, o sangue projetado nas páginas de um livro gigante, um figurino que correspondia a minha imaginação, um cenário lindo, feito com muita delicadeza, que surgia e sumia, mas que infelizmente na apresentação que assisti, houveram algumas falhas consideráveis na execução. Vazava em cima, emperrava embaixo, mas não me foi tão penoso. A luz também não favoreceu algumas cenas, porque não pude ver o rosto dos personagens.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Destaco a narrativa feita pelos próprios autores dos contos. Uma aula de história entre as estórias, não é a toa que o nome do espetáculo leva o nome deles. Não conhecia o conto de Junípero, e acho que fui apresentada a ele de uma maneira encantadora, apesar da tragédia. Mas confesso que gostaria de ter assistido “Chapeuzinho Vermelho” na íntegra #ficaadica!

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Sobre as atuações, não gostei de todas, uma delas, por sinal, me incomodou de verdade. As “irmãs” de Cinderela. Tudo bem que eram homens imitando meninas, mas não precisava das caras e bocas próprias de personagens afeminados da dramaturgia. Humor forçado. Clichê.

A peça termina com os irmãos em cena, gratos porque ainda vivem atráves da suas obras. “Os contos ainda reúnem as pessoas em volta do fogo…e eles continuaram vivos enquanto ainda se acreditar na fantasia.”

FICHA TÉCNICA

Texto e Letras: José Mauro Brant (baseado na obra dos irmãos Grimm)/Música Original e Direção Musical: Tim Rescala/Direção: José Mauro Brant e Sueli Guerra/Supervisão: Miguel Vellinho/Elenco: José Mauro Brant, Wladimir Pinheiro, Janaina Azevedo, Chiara Santoro/Cenografia e figurino: Espetacular! Produções & Artes – Ney Madeira, Dani Vidal & Pati Faedo/Iluminação: Paulo César Medeiros/Desenho de som: Fernando Fortes/Animação gráfica: Renato e Ricardo Vilarouca/Ilustrações: Rui de Oliveira/Projeto Gráfico: Maurício Grecco e Úrsula de Mello

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Luis Antônio – Gabriela, por Augusta Ferraz

Foto: Bob Sousa

Foto: Bob Sousa

Augusta Ferraz por Duda Martins: O meu encontro com Augusta na verdade foi com Guiomar – A filha da mãe, de Lourdes Ramalho, em 2003. Ela entrou com uma carroça no pequeno teatro Capiba e virou um gigante em cena. Desde ali, me admiram a coragem, não da personagem, mas da atriz, que é ícone do teatro pernambucano, de dizer o que pensa dentro e fora do palco. Sabia que como mero espectador ela não calaria a sua sinceridade. Confira a sua crítica para o espetáculo Luis Antônio – Gabriela, da Cia Munguzá de Teatro (SP), apresentado no último sábado (11) e domingo (12), no Teatro de Santa Isabel, dentro da programação do Palco Giratório-Recife-2013.  

Augusta Ferraz é atriz e diretora. Há 40 anos se dedicando ao teatro foi fundadora de companhias como a Ilusionistas e as Pharkas Serthanejaz e tem mais de 70 peças no currículo. Foto: Paulo Paiva

Augusta Ferraz é atriz e diretora. Há 40 anos se dedicando ao teatro foi fundadora de companhias como a Ilusionistas e as Pharkas Serthanejaz e tem mais de 70 peças no currículo. Foto: Paulo Paiva

Luis Antônio – Gabriela – Cia Munguzá de Teatro (SP)

por Augusta Ferraz

Eu Mera Espectadora, para onde estão me levando?

É dificílimo escrever sobre um espetáculo teatral onde eu, não me sinto tocada. Reconheço o tratamento cuidadoso da produção; reconheço também que uns atores tem seus quinze minutos de versatilidade, outros nem tanto, outros tão pouco. Esclarecendo que escrevo essas minhas impressões respeitando a todos os envolvidos na montagem, pois, materializar diariamente ideias em um ambiente extremamente artesanal leva tempo, suor e cerveja… E a verba nunca cabe ao que se quer realizar…

A historia é aquela de praxe: “Era uma vez uma criança que nasceu menino e que tinha uma menina internalizada… Exercendo sua sexualidade ainda criança… Apanhando… Sofrendo… Crescendo… fugindo… E se fudeu.” Ham? Sim e então? Então, eu espectadora, estou aqui em frente a um jornal policial apresentado por uma rede de televisão qualquer, de um lugar qualquer, onde o apresentador grita, graceja, rindo/mangando de sua também própria miséria humana… Ou mesmo, eu, lendo um editorial também qualquer, online ou gutemberguiano… Nada incomum tudo normal… E enquanto penso nisso a apresentação ocorre em uma velocidade que não me permite a degustação… Esquizofrênica… É uma palavra bem moderna para definir o que estou sentindo… Estão vamos a partir dela…

Ali a palavra em si quase não tem valor na cena, a sonorização, a trilha, torna-se mais importante que a historia contada, falada, mostrada… Sei lá… Você quer ouvir a palavra e a música ou o barulho não deixa… Você quer entender o contexto, contudo o senso comum e distorcido de contemporaneidade não permite… As variações sofridas nas narrativas faladas pedem que meus ouvidos estejam sempre alertas, pois, as vozes que hora utilizam a sonorização artificial dos microfones, quando voltam ao seu estado normal, não artificial, não estão treinadas e vem a mim sem projeção… Am? … A palavra falada quer ser ESCUTADA? Sim? Não? É isto mesmo? Apenas as palavras escritas parecem ser importantes na narrativa…

Foto: Claudio Etges

Foto: Claudio Etges

O excesso de audiovisual; Os sacos de soros pendurados por todo um cenário confuso que merecia mais conhecimentos relativos ao porque, ao pra que, ao ser criado; A iluminação escura que me faz sentir em um cemitério de mortos vivos… A morte sempre prevista no caminhar dos gays travestis… SIM! E então? Vamos para onde? Quero ir embora… Não devo…!

Uma cena em particular me chama a atenção, pois, se estou assistindo uma montagem que rejeita o realismo… – E a cena é: Um leito de hospital, uma maca, uns plásticos, uma escuridão macabra, e muita solidão humana… Lembrei de “Ópera”, uma montagem do Coletivo Angu…! Como esta cena é difícil de ser criada no teatro. Vejo Brecht enfiado na montagem no que diz respeito ao distanciamento que nos leva e expulsa da cena durante todo o espetáculo… Nas palavras escritas, nas citações das datas, nos baús com o nome da Cia bem visível .. Calma, é apenas um espetáculo de teatro, divirtam-se…!… Como?

Foto: Bob Sousa

Foto: Bob Sousa

Sei que estes meus senões podem estar corroborando para a justificativa da construção do “Mas, é exatamente isto que queríamos”… Mas, para eu mera espectadora… É Chato, ruidoso, não me surpreende em nada, não revela, pura espetacularização… No aprofundamento caricatural da Gabriela ou Luís Antônio ou o pai ou a madrasta, vejo uma preocupação, um temor subjetivo de não conseguir ser a contemporaneidade do teatro atual, que pesquisa linguagens, pois, compreendo também que esse ambiente que assisto aqui, faz parte da pesquisa exercida pelos grupos, coletivos e Cias do nosso momento agora, excitante, irritante… Mas, me perguntei várias vezes: porque o teatro?… Livros… Filmes… Performances, instalações, asas delta etc.

PS: Abordei uns poucos conhecidos que se mostravam gostantes do espetáculo… Cada cabeça uma sentença. Nada tão contemporâneo, moderno e democrático como este livre espaço que existe em cada individualidade”.

Ficha técnica
Argumento de Nelson Baskerville/textos de Nelson Baskerville e Veronica Gentilin a partir dos relatos de Doracy Ierardi, Maria Cristina Baskerville, Nelson Baskerville e Serginho/ organização e edição Cia. Mungunzá de Teatro e Nelson Baskerville/direção Nelson Baskerville/ diretora assistente Ondina Castilho/assistente de direção Camila Murano/elenco Day Porto, Marcos Felipe, Lucas Beda, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias/técnico-performer Pedro Augusto/direção musical, composição e arranjo Gustavo Sarzi/preparador vocal Renato Spinosa/trilha sonora Nelson Baskerville/ preparação de atores Ondina Castilho/ iluminação Marcos Felipe e Nelson Baskerville/ cenário Marcos Felipe e Nelson Baskerville/ figurino Camila Murano/fotografia Bob Sousa/ visagismo Rapha Henry – Make up Artist/vídeos Patrícia Alegre