Era uma vez…Grimm, por Lívia Lins

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Lívia Lins é jornalista e se dedica ao teatro há quase 15 anos como atriz

Lívia Lins é jornalista e atriz.

Era uma vez…Grimm

por Lívia Lins

Começo dizendo que meu desejo maior no final daquela noite era voltar a ser criança, não porque como adulta não pude apreciar a obra, mas tenho certeza que como criança, teria mais sensibilidade para receber aquele presente. Mas enfim, já passei da infância há muito tempo, e cá estou para dar as minhas impressões do espetáculo. Ah sim, assisti a montagem para adultos.

Música erudita e contos de fadas, já temos uma novidade! Pelo menos para mim, esta foi a primeira coisa que me chamou atenção, e graças a Deus não me decepcionei, o casamento foi lindo. Uma mini orquestra recifense, impecável, fez a cama para as quatro vozes em cena, uma dádiva para meus ouvidos.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Mas a beleza não para por aí, os meus olhos também apreciaram a sombra de um lobo, o sangue projetado nas páginas de um livro gigante, um figurino que correspondia a minha imaginação, um cenário lindo, feito com muita delicadeza, que surgia e sumia, mas que infelizmente na apresentação que assisti, houveram algumas falhas consideráveis na execução. Vazava em cima, emperrava embaixo, mas não me foi tão penoso. A luz também não favoreceu algumas cenas, porque não pude ver o rosto dos personagens.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Destaco a narrativa feita pelos próprios autores dos contos. Uma aula de história entre as estórias, não é a toa que o nome do espetáculo leva o nome deles. Não conhecia o conto de Junípero, e acho que fui apresentada a ele de uma maneira encantadora, apesar da tragédia. Mas confesso que gostaria de ter assistido “Chapeuzinho Vermelho” na íntegra #ficaadica!

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Sobre as atuações, não gostei de todas, uma delas, por sinal, me incomodou de verdade. As “irmãs” de Cinderela. Tudo bem que eram homens imitando meninas, mas não precisava das caras e bocas próprias de personagens afeminados da dramaturgia. Humor forçado. Clichê.

A peça termina com os irmãos em cena, gratos porque ainda vivem atráves da suas obras. “Os contos ainda reúnem as pessoas em volta do fogo…e eles continuaram vivos enquanto ainda se acreditar na fantasia.”

FICHA TÉCNICA

Texto e Letras: José Mauro Brant (baseado na obra dos irmãos Grimm)/Música Original e Direção Musical: Tim Rescala/Direção: José Mauro Brant e Sueli Guerra/Supervisão: Miguel Vellinho/Elenco: José Mauro Brant, Wladimir Pinheiro, Janaina Azevedo, Chiara Santoro/Cenografia e figurino: Espetacular! Produções & Artes – Ney Madeira, Dani Vidal & Pati Faedo/Iluminação: Paulo César Medeiros/Desenho de som: Fernando Fortes/Animação gráfica: Renato e Ricardo Vilarouca/Ilustrações: Rui de Oliveira/Projeto Gráfico: Maurício Grecco e Úrsula de Mello

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’, por Luciana Lyra

Foto: Marcio RM

Foto: Marcio RM

 

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas, do Departamento de Artes Cênicas, Educação e Fundamentos da Comunicação em Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), é pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN)  É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN). É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’

por Luciana Lyra

Querida Ceronha,

No último verão europeu estive em Paris sentindo o calor a penetrar ideias tantas. Em caminhadas cheias de suor e deslumbramento, deparei-me com o casarão preservado, charmoso e imponente na Rua Varenne, o antigo Hôtel Biron, que hoje sedia o Museu Rodin, com um acervo imenso e publicamente reconhecido de 300 obras. No seu interior, esculturas, jardins,  restaurante e uma pequena sala dedicada à Camille Claudel, dita, ‘aprendiz’ e ‘amante’ do grande escultor.

Depois de vagar pelo museu e tomada por torções e expressões de corpos de pedra antes posados em carne para os artistas, saí novamente às ruas em pensamentos acerca da diferença: Por que um museu inteiro é construído em torno de um ‘falo’, e apenas uma recôndita sala traz à tona poucos trabalhos de uma artista ‘envaginada’? Por que continuamos a desvelar privilégios de uma sociedade patriarcal, calando vozes femininas por séculos?

E os questionamentos insistiam em mim: mulher, artista, pensadora… Assim, fazendo perguntas, desci escadas e como pílula para angústia, tomei o metrô, fui aos subterrâneos da cidade luz, que obscurece muitas de suas mulheres. Chegando num ponto em Montparnasse Bienvenüe, subi escadas outras e surpresa, deparei-me com uma pequena praça, quase sem vida, uma ‘praça-passagem’ de transeuntes e vendedores de cerejas. Seu nome: Camille Claudel. Poderia ser motivo de regozijo ver uma praça com seu nome numa rua de Paris, mas como não lembrar de todo um museu dedicado ao seu ‘mestre’? Parecia realmente um prêmio de consolação o nome estampado em pequena praça pública, consolação para aquela que morreu na loucura e no esquecimento. A mesma canonização que sofreu Joana d’Arc, hoje padroeira da França, após anos na fogueira armada por seus próprios conterrâneos.

É deste lugar, o da indignação com a diferença, que quero começar a falar a respeito do espetáculo Camille Claudel, de sua autoria, Mm. Ceronha Pontes…

Na última quarta-feira, cheguei ao Teatro Arraial, em Recife, às 20:50h, recebendo, de pronto, a responsabilidade inferida pela produção de seu espetáculo em interferir na sua cena quando solicitada a te oferecer cigarros. Não fumo, mas o jogo me pareceu um jeito de chegar junto de sua ação, de me friccionar ao seu mundo, um mundo também de Camille. Dentro do teatro intimista, fui invadida por uma música e uma gravação, que não condiziam com as sombras dos móveis claros, da escada branca e da forte silhueta ao fundo. A música e a gravação ‘historicizada’ não acolhiam como mãe, como barro, mas desde já dominavam como violentos falos. A música escolhida e a gravação não me pareceram bons recursos para iniciar um trabalho daquela natureza. No entanto, concentrei-me na silhueta em movimento e foi assim que comecei a ser instada no universo de sua Camille. Um movimento sinuoso e feminino quebrando-se na penumbra do ar.

Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

No espetáculo, com bons cenário e figurino, uma iluminação dialógica e conduzido pela engenhosa atriz que é, somos convidados a imaginar Villeneuve, onde Camille fez-se menina, somos apresentados a Paul Claudel, seu irmão mais novo e ao seu mestre e amor Auguste Rodin. Somos especialmente tocados com a pulsão desta mulher pelo ato e pela arte de esculpir, pela busca de sua autonomia, na tentativa de romper com as diferenças e os privilégios da sociedade francesa falocêntrica.

O espetáculo nos dá pistas da vida da artista, por meio da loucura, da paranóia, do estado de solidão, de abandono e ingratidão representados no palco. Lá, vemos uma Camille potente, mas em desespero, estranha e obsessiva, querendo a morte de Rodin. Uma Camille que passa a delirar sobre seu passado, sobre a sua mãe a impedindo de ser uma artista e sobre as lembranças ruins decorrentes da ausência de reconhecimento a sufocar.

Foto: Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

Não há dúvidas, que a cena de Camille Claudel é meritória. E o maior valor é justamente dar voz ao abandono e à diferença. Sua Camille Claudel, Mm. Pontes,  faz-nos ver, em praça pública, a mulher que de gênio, transformou-se em paranóica, esquizofrênica, louca, abatendo-se física e psicologicamente. Vemos a Camille que não mais se alimenta e desconfia de todas as pessoas, achando que todos a matarão, e a culminância de sua internação em manicômio a sublinhar a discriminação. A contundência e a grandiosidade do talento de Camille estavam sim, entre a figura legendária de Rodin e a de seu irmão, que se tornou um dos maiores expoentes da literatura de sua geração. À ela, o lugar menor, a loucura e o esquecimento, que a sua cena traz à representação.

Foto: Camila Sérgio

Foto: Camila Sérgio

No entanto, apesar do grande mérito de retrospecção da genial artista, pela competência de uma atriz e de seus pares, o espetáculo encontra sua fragilidade, a meu ver, exatamente na fundamental relação entre atriz e personagem. Percebo que Camille Claudel, o espetáculo, poderá encontrar mais potência, se desvelar não só as suas habilidades de representação da escultora, Mm. Pontes, mas as suas camadas pessoais e primevas que impulsionam a sua identificação com a dita personagem. Pode haver uma poderosa convulsão, quando a personagem Camille tornar-se persona de Ceronha, tornar-se uma máscara ritual de você mesma, o que ainda não acontece.

Em Camille Claudel, a personagem ainda se revela num estado e num tom de representação e não de experiência de estados, o que se faz sentir num registro didático e histórico que, por vezes, adentra à atuação e também à dramaturgia. Apesar de sua mãe ser motivo de dedicação de sua cena, fato que poderia vazar enquanto potência e impulso do seu eu artista, prevalece o teor representativo da cena. Penso que a dissolução do espaço à italiana, tão expositivo das formas, pode ser salutar numa revisão de seu espetáculo, Mm. Pontes, compartilhando mais de frente com o espectador, tomado como cúmplice presente do abandono. Talvez a música e o canto próprios possam também revelar o gênio criativo de uma atriz sob à máscara, mais do que uma gravação datando fatos ou uma música de época definida.

Foto: Marcio Resende

Foto: Marcio Resende

Sim, quando cheguei ao Teatro Arraial e fui convocada a te oferecer cigarros, quis ver uma relação umbilical de uma atriz com sua personagem, mas isso ainda não se estabeleceu. O que vejo ainda é o ‘disfarce’, a ‘cadela sem tetas’ da escultura, uma boa atriz sob uma máscara da ficção. Sim, como atriz que também sou, sinto que já freqüentei o ‘inferno’ e falo deste lugar para você. Se o Deus, macho que é, voou! Fumemos juntas à revolução das deusas. Revolução esta que pode começar na fri(c)ção entre atriz e personagem, não na representação ficcional desta, mas na construção de uma persona. Talvez seja a hora de abdicar da máscara de ‘atriz’, para assumir as tetas de uma ‘pessoa’, uma perfomer na leitura da alteridade, um jogo de espelhamento onde não se sabe em que lugar começa a atriz e a personagem termina. Que Camille encarne sua Fortaleza e sua Fortaleza seja a carne de Camille. Assim pode tecer uma renda mais firme, uma trança que liga a genial escultora francesa à talentosa atriz cearense, acolhida pelas terras pernambucanas. Penso que na força desta trama, reafirmamos que nós mulheres não somos habitantes dos museus, gritamos nuas nas grandes praças públicas, vagamos em florestas sujas do barro primeiro, somos cadelas selvagens com tetas expostas e orgulhosas de nossa arte. Por fim, assumimos todas as artes de ser mulher.

Com imenso carinho e

reconhecimento sincero de sua ousadia,

Mm. Luciana Lyra

Dzi Croquettes, por Duda Martins

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

corte

Jornalista por formação, blogueira por opção e atriz de corpo e alma. Idealizadora do blog Meros Espectadores. https://merosespectadores.wordpress.com/quemsomos/

 Dzi Croquettes

por Duda Martins

Cubro o Janeiro de Grandes Espetáculos há cinco anos, dos 20 que o festival está comemorando. Até agora, a melhor abertura por mim já presenciada foi nesta edição. A ousadia de trazer o Dzi Croquettes ao Santa Isabel foi uma decisão acertada dos coordenadores. Aquele templo semissacro do teatro pernambucano quase caiu abaixo na última quarta-feira.

Vamos tentar chegar ao final do texto sem usar a palavra “irreverência”, ok? Inspirado no conjunto norte-americano The Coquettes e no movimento gay atuante na off-Broadway surgia, há 40 anos, o Dzi Croquettes (década de 70). Um grupo que levantava algumas bandeiras – principalmente a favor da liberdade sexual e contra qualquer tipo de repressão – e fazia, sim, um teatro ideológico, que tinha algo a dizer a sociedade. Esta prática, de usar o teatro ideologicamente, hoje é abolida por muitos, não sei porque. Agora é arte pela arte: ficamos cheios de estética (?) e vazios de conteúdo.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Voltando. À sua época, o Dzi teve enorme importância. Guerreou com as armas cênicas contra uma cultura vigente opressora e, por que não, burra. Fez revolução nos palcos brasileiros e lá fora. Hoje, podemos dizer que venceu. Venceu e o Brasil não é mais o mesmo, e nem mesmo o teatro brasileiro. Taí o porque de o espetáculo “Dzi Croquettes – Em Bandália” ter um quê de datado. O discurso não é mais revolucionário, nem ousado. Travesti no palco, escracho, desbunde, já vimos bastante. Tanto o Dzi quanto o Oficina, o Vivencial e até, tomadas as devidas proporções, a Trupe do Barulho já trabalharam bem esse estilo.

Definitivamente não é texto o que impressiona nesse novo Dzi. Isso, na verdade, é bem cansativo. Mais do mesmo. O que não nos deixa piscar nas quase duas horas de peça é a forma. Não apenas as dos garotos em cena, que diga-se de passagem, é maravilhosa, mas do espetáculo que causam com a sua presença. Aliás, presença de palco não falta àqueles cariocas. O espetáculo é grandioso e luxuoso: figurino, luz, trilha muito bons. Os artistas em cena arrebentam no fôlego, coreografia e talento. Em particular o Ciro Barcelos, remanescente do grupo e agora diretor da nova formação, que nos deixa boquiabertos com a sua performance.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

O musical cumpre bem sua função. Atores afinados, excelentes em movimento de corpo, atrevidos. Imagina, ficaram de pé nas cadeiras do Santa Isabel, brincaram com o público, subverteram o sistema. O Ciro Barcelos faz bem em não comparar o Dzi de antes com o de hoje. Este último veio para prestar uma homenagem. Homenagem bonita, cheia de qualidade artística, feita com coração, nostalgia e, claro, muita purpurina.

Ficha Técnica
Concepção, texto e direção geral: Ciro Barcellos/Assistência de direção e roteiro: Radha Barcellos/Direção musical: Demétrio Gil/Coreografias: Ciro Barcellos e Lennie Dale/Direção técnica: Ronaldo Tasso/Iluminação: Aurélio de Simoni/Trilha sonora: Demétrio Gil e Flaviola/Figurinos e adereços: Cláudio Tovar/Cenário: Pedro Valério/Supervisão artística: Thina Ferreira/Direção de produção: Robson Agra/Produção executiva: Anna Ladeira/Elenco: Ciro Barcellos, Demétrio Gil, Udilê Procópio, Leandro Melo, Thadeu Torres, Franco Kuster, Pedro Valério, Ricardo Burgos, Sonny Duque e Robson Torinni, com participação especial de Bayard Tonelli.

Seu Rei mandou, por Tatto Medinni

Foto: Divulgacao

Foto: Divulgacao

Tatto Medini por Duda Martins: Tatto, de tato conheço pouco, mas com os ouvidos ouço falar muito bem rsrsrs. O vi em cena uma única vez no Amor de Clotilde por um Certo Leandro Dantas (2010) e achei maravilhoso. Aliás, que elenco é aquele hein? Andei lendo alguma coisa sobre Tatto e vi que o menino é danado, desde cedo no batente, atua em Ópera, do Coletivo Angu (consagrado em PE) e até foi dirigido por Antônio Abujamra. Nao é pra qualquer um. Entendi que o palco é o seu lugar. Mas hoje ele pagou de mero espectador e mesmo sem nunca ter criticado espetáculos, fez bonito com as palavras  escrevendo sobre a montagem Seu Rei Mandou, dentro da Mostra Marco Camarotti. Entra pra série #merosespectadoresdefuturo!  Rsrsrsr Lê aí e vê como ficou bom!

Tatto Medinni é ator e iniciou suas atividades no teatro em 2004. Atuou em peças como "Ópera" pelo Coletivo Angu de Teatro com direção de Marcondes Lima em 2007, "Os possesssos" com direção de Antônio Abujamra em 2008  "O Baile do Menino Deus" com texto e direção de Ronaldo Correia de brito de 2007 à 2011, "O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas" pela Trupe Ensaia Aqui e Acolá e direção de Jorge de Paula em 2010. Atualmente integra os grupos Coletivo Angu de Teatro e a Trupe Ensaia Aqui e Acolá.

Tatto Medinni é ator e iniciou suas atividades no teatro em 2004. Atuou em peças como “Ópera” pelo Coletivo Angu de Teatro com direção de Marcondes Lima em 2007, “Os possesssos” com direção de Antônio Abujamra em 2008 “O Baile do Menino Deus” com texto e direção de Ronaldo Correia de brito de 2007 à 2011, “O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas” pela Trupe Ensaia Aqui e Acolá e direção de Jorge de Paula em 2010. Atualmente integra os grupos Coletivo Angu de Teatro e a Trupe Ensaia Aqui e Acolá.

SEU REI MANDOU DIZER… TÁ DITO!

Por Tatto Medinni 

Fui convidado por Duda Martins, idealizadora desse blog, a escrever uma “crítica” sobre o espetáculo Seu Rei mandou da Cia. Meias palavras. As aspas se aplicam a palavra “crítica”, pois, não sou crítico de teatro. Sou apenas um mero espectador. O convite se deu por que eu comentei no Facebook, onde todo mundo vê o que você escreve, que queria muito ver a peça e, a partir disso, vendo essa minha publicação, Duda me chamou também pelo Face. Mas vamos ao que interessa…

Seu Rei mandou está inserido na programação da Mostra Marco Camarotti de teatro para a infância e juventude, um projeto idealizado e realizado pelo SESC-PE. O espetáculo tem a atuação, encenação, roteiro, adereços e figurinos (ufa!) de Luciano Pontes e faz parceria com Gustavo Vilar, que faz a sonoplastia e os efeitos sonoros. O espetáculo é alinhavado por três histórias: A lavadeira real, O rato roeu a roupa do Rei de Roma e O Rei chinês Reginaldo Reis. A poesia é muito presente durante toda a encenação e, apesar de estar nomeado ou classificado como teatro para infância e juventude, encanta também os adultos.

Uma das coisas que mais me fascinam no teatro é a forma que se conduz a narrativa. Luciano Pontes se utiliza da contação de histórias que, vale salientar, o faz com maestria e, também, faz uso da figura do palhaço em sua construção da personagem. É notório o domínio de Luciano dessas duas linguagens. Trabalhos que vem sendo desenvolvidos há anos, tanto na Cia. Meias palavras quanto nos Doutores da Alegria. Explora as variações e nuanças de uma mesma palavra, provocando o riso de seus Reizinhos.

O ator-narrador é uma figura durona, porém graciosa, sabendo impor os limites necessários sem ser arrogante. É construído um corpo que está sempre ativo e em estado de alerta, pronto para dar uma resposta ou jogar de acordo com o que a plateia propõe. Para um tipo específico de público como esse, na sua maioria de crianças, o improviso e o jogo-de-cintura é imprescindível, visto que os pequenos são coautores do espetáculo. É preciso ter propriedade, coisa que Luciano tem de sobra.

O que foi proposto para o cenário é bem simples, contendo um tapete retangular ao centro e dois tapetes pequenos. Lembro de mais uma coisa que me deixa encantado pelo teatro: O estímulo à imaginação. Fazer o que não é parecer ser. Os elementos de cena também seguem o mesmo caminho e nos faz imaginar, por exemplo, que um leque pode ser ora uma borboleta , ora um pavão. Elementos que saem do bolso e se transformam. Coisas que vão aparecendo e desaparecendo. Codificando e descodificando. Re-significando.

Foto: Divulgacao

Foto: Divulgacao

A música tem papel de fazer viajar junto com o contador e, em muitos momentos, cria imagens, climas e ratifica a narrativa proposta pela encenação. Todos esses elementos tem sintonia fina, nenhuma coisa sobrepõe a outra. Se conjugam. Faz-se necessário ao teatro ideias como essa, independente da faixa etária.

Ah… Vale lembrar que Seu Rei mandou foi ganhador nas categorias figurino (Luciano pontes), iluminação (Luciana Raposo) e direção (Luciano Pontes), dentro do 19º Janeiro de Grandes Espetáculos.

Cartaz Seu Rei Mandou

Cartaz Seu Rei Mandou

Desconstruir para reconstruir ou Duas Mulheres em Preto e Branco, por Breno Fittipaldi

Duas Mulheres 01

Duas Mulheres em Preto e Branco, pelas lentes de Breno Fittipaldi

Breno Fittipaldi por Duda Martins: Uma aula de teatro já foi o suficiente para olhar para Breno com respeito. Na época, ele substituia minha professora no Sesc Casa Amarela e foi logo avisando: “olha, não quero conversas paralelas e nem brincadeirinhas fora de hora”. Eu gostei. Gosto de professores com pulso firme. A aula foi uma das melhores que já tive e em pouco tempo me senti evoluindo como atriz. Depois conheci Breno como diretor, com O Fio Invisível da Minha Cabeça (2010), um monólogo forte do qual me lembro até hoje. Além de muitas virtudes como pessoa e profissional, Breno entende de interpretação. E talvez tenha sido a pessoa certa para falar de Mulheres em Preto e Branco, uma produção que desafia o trabalho de duas potentes atrizes. Aqui, ele foi Mero Espectador com texto e foto.

Breno Fittipaldi

Breno Fittipaldi é encenador, ator, dramaturgo, fotógrafo, arte-educador e Supervisor de Cultura do Sesc Casa Amarela. Foto: Túlio

Duas Mulheres em Preto e Branco – Desconstruir para reconstruir

Por Breno Fittipaldi

Vários motivos me levam ao teatro, primeiro porque gosto, é obvio, depois porque faço, mas principalmente pela magia e mistério que ele contém. Num espetáculo de teatro cabem inúmeros universos, mundos a serem desvendados, olhares que vão muito além do que se enxerga e um sem fim de sentidos, leituras e intenções. É sempre plural, de significados múltiplos, tocando de diferentes maneiras quem assiste independente de permitir envolver-se ou não. Há também vários motivos para ver Duas Mulheres em Preto e Branco, espetáculo bem cuidado em todos os detalhes que tem produção da Remo Produções Artísticas (Besame Mucho, Arlequim, Abelardo e Heloisa), direção de Moacir Chaves (Bugiaria, Utopia, Por Um Fio), autoria de Ronaldo Corrêa de Brito (Faca, Livro dos Homens, Galiléia), no elenco Sandra Possani (Aquelas Duas, O Acidente) e Paula de Renor (Salto Alto, Fernando e Isaura, Carícias) e vasta ficha técnica de renomados profissionais.

As mulheres em questão são Sandra e Letícia, personagens do conto que dá nome ao espetáculo, do livro Retratos Imorais. Encenado absolutamente na íntegra, narra a história de duas amigas que fizeram medicina durante o período da ditadura militar, aparentemente engajadas nas lutas da época e envolvidas no contexto em questão. Muitos anos se passaram, as duas casaram, a primeira com Paulo a segunda com Miguel, construíram uma vida estável, cercada por conforto e as ideologias foram se perdendo ao longo do tempo. A ação acontece como um ajuste de contas, num quarto/casa aparentemente destruído aonde lembranças, verdades, revelações vem à tona.

A principio dá-se a ideia de que a ira de Letícia, que já bateu muito em Sandra e que ainda a ameaça de morte tem como motivo a traição da amiga que é amante de seu marido há muitos anos, porém, ao final do desfecho descobre-se que as duas foram namoradas desde sempre. Letícia se sente triplamente traída, primeiro porque Sandra casou com um homem o que a obrigou a casar também, depois por ela arranjar um amante e por esse amante ser exatamente o seu marido. Desnorteada tenta por fim em situação tão constrangedora e humilhante, porém é vencida por um amor maior do que o ódio que sente, termina se rendendo ao poder de sedução de Sandra e sela essa trajetória de vida com um longo e apaixonante beijo, como se a história delas se resumisse em desejo e perdão.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

Lembrei- me do texto de August Strindberg, A Mais Forte, onde também há um confronto entre duas mulheres, só que a disputa ali é pelo amor de um homem, porém não fica claro quem vence, quem é a mais forte. No texto de Ronaldo, a impressão que tenho é que Sandra sempre vence, ela sim é a mais forte. Letícia termina sempre cedendo, se rendendo em nome do amor. Fica a questão, quem ama se submete a tudo? O amor oprime? Há ainda algo que me incomoda no texto, a excessiva citação de referências cinematográficas e a ironia que o autor trata outros autores, parecendo desdenhar, por exemplo, de Machado de Assis, transparecendo um intelectualismo desnecessário e uma pretensão sem fundamento.

Para dar vida a essas duas mulheres, outras duas grandes mulheres, as atrizes Paula de Renor e Sandra Possani. Se o espetáculo é o que é, muito se deve a elas. A nossa Paula vem em constante evolução como atriz, amadurecendo a cada trabalho, investindo e tendo coragem de mergulhar em personagens e projetos cada vez mais desafiadores, permitindo-se a sair da zona de conforto e lançando-se a voos cada vez mais altos. É inquieta, curiosa, deliciosamente linda em cena, busca um vigor que ainda precisa de ajustes, mas está inteira, acreditando no que faz, surpreendendo a cada gesto, a cada fala, a cada intenção. A composição que fez para Letícia é aparentemente forte, mas há no subtexto uma fragilidade que tenta sempre ocultar, isso é muito difícil, mas consegue tirar de letra. Bom demais vê-la em cena, seja falando de cinema, dançando, rindo, ironizando, desfrutando tudo que o personagem permite, sendo bela e sendo fera, ou melhor, sendo feroz.

duas3

Foto: Breno Fittipaldi

A gaúcha (nem por isso menos nossa) Sandra Possani está no patamar das grandes atrizes, daquelas que podem fazer tudo que quiseram. É madura, intensa, vigorosa, domina as ações físicas, a partitura gestual, as variações psicológicas exigidas pelo personagem, o tempo rítmico e as pausas. Consegue aliar num limiar preciso técnica e emoção. Segura o personagem o tempo inteiro, tendo no olhar a arma fatal para que o jogo cênico se estabeleça. Nesse jogo/ duelo não precisa ter vencedores e sim troca e sintonia o que acontece com naturalidade, muito devido à generosidade de Sandra, que estabelece com Paula uma parceria, elas não se abandonam nunca, pelo contrario, estão sempre unidas em prol da cena.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

A direção do Moacir Chaves nos revela um grande desafio, transpor para a cena um texto não dramatúrgico, sem adaptações (ainda bem por se tratar de um conto), que exige um desdobramento visual onde a imagem passa a ser a linguagem dessa transposição. Homem de teatro experiente que é, consegue através da desconstrução solucionar as dificuldades que o texto impõe, reconstruindo a cada segundo uma identidade visual que resulta numa assepsia que poderia incomodar, porém, como maestro da cena, atinge essa limpeza concatenada com a trajetória das personagens, que se limpam/esvaziam durante o já citado, acerto de contas.

Confesso que em alguns momentos acho mecânico demais algumas ações das atrizes, como procurar em gavetas uma garrafa de uísque, porém, nada que possa comprometer o todo. Em contrapartida destaco a cena em que gravatas são jogadas para o alto, poesia visual que apenas um diretor sensível consegue construir em parceria com elenco que se entrega. Os elementos técnicos são primorosos na encenação, conseguindo unidade entre eles, se integrando em função da cena, proporcionando suporte para que o espetáculo aconteça como um todo, sem destaque específico para um ou outro. A iluminação de Aurélio de Simoni (Galileu Galilei, Sermão da Quarta-feira de Cinzas, Noite de Reis) é precisa, causando atmosfera necessária tanto para momentos mais intimistas como em passagens corriqueiras, cotidianas, um verdadeiro mestre.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

Também contribuem para que essa atmosfera seja atingida a trilha sonora de Tomás Brandão e Miguel Mendes, que navegam com firmeza nesse universo, produzindo momentos ora de risos e leves e outros de tensão e suspense. A cenografia é de outro mestre, Fernando Mello da Costa (Orlando, Cartas Portuguesas, Melodrama), conterrâneo de Possani, ele é fundamental para a construção conceitual do espetáculo, enchendo e esvaziando o palco, causando no espectador sensações variadas, seja de caos, desorientação, esvaziamento, leveza e sublimação. Os figurinos de Walther Holmes talvez seja o que destoa dessa unidade, pelo menos alguns deles, me parecendo em alguns momentos exagerados demais para duas mulheres de certa sofisticação, porém, é apenas um detalhe a ser questionado.

Vi o espetáculo duas vezes, uma no fim da temporada que fizeram no Teatro Apolo e a outra no Janeiro de Grandes Espetáculos. Houve muitas diferenças entre elas, somente o teatro tem esse poder transformador a cada apresentação, a cada noite. Na primeira tudo funcionou, havia intensidade, consistência, verdade. A segunda me pareceu mais frágil, arrastada, como se precisasse de mais ensaio. Porém, Duas Mulheres em Preto e Branco é um espetáculo que precisa ser visto, pelo simples motivo de ser verdadeiramente teatro.

Ficha técnica: Texto: Ronaldo Correia de Brito. Direção: Moacir Chaves. Assistente de direção: Miriã Possani. Trilha Sonora e operação de som: Tomás Brandão e Miguel Mendes. Figurino: Walther Holmes. Cenário: Fernando Mello da Costa. Iluminação: Aurélio de Simoni.Operação de luz: Beto Trindade. Preparação corporal e coreografias: Rogério Alves. Preparação vocal: Flávia Layme e Rosemary Oliveira. Assistente de produção: Elias Villar. Produção executiva: Keila Vieira. Produção geral e administração: Paula de Renor. Elenco: Paula de Renor e Sandra Possani. Fotografia de Sobrado 423/Rogério Alves/Camila Sérgio.

O Filho Eterno, por Duda Martins

Imagem

Foto: Dalton Valério

 

Imagem

Por Duda Martins

Ao contrário da maioria das pessoas, eu sempre achei os monólogos muito instigantes. Como atriz, tendo a olhar sempre primeiro para a interpretação. Num monólogo, o exercício de atuação é sempre mais desafiador. Pelo óbvio. Você está sozinho em cena, e assim mesmo, sem a ajuda de ninguém, se vê obrigado a carregar uma peça de 1 ou 2 horas nas costas. No olho. No corpo. Fantástico.  

As referências de O Filho Eterno, da Cia Atores de Laura (RJ), sempre foram ótimas. Vários prêmios na bagagem, incluindo o Shell, o maior do Brasil na categoria artes cênicas. Entrego logo o jogo e digo que este espetáculo mereceu todos os louros. As estátuas que ganhou e que deixou de ganhar. Charles Fricks é um atorzaço. Daqueles caras que pintam a cena inteira na nossa mente com a sua desenvoltura, a despeito de contar apenas com uma cadeira em cena.

Mas graças a ele, eu imaginei tudo. Hospital, quarto, sucesso, fracasso logo em seguida, pessoas, olhares, toques, caneta, vidros, angústia, tudo. Ele conseguiu materializar o invisível e sei que essa percepção não foi só minha, mas de todos que foram assistir a peça nestes dois dias de Janeiro de Grandes Espetáculos. 

E aí os aplausos seguem de pé para Daniel Herz, que mostrou em cena a sua competência e criatividade a cada segundo da peça. Diretor e ator juntos, mostrando verdade. Eu adoro ver verdade no teatro. 

A história da relação conflituosa entre pai e filho ( e o pai e ele mesmo), foi bem contada por Cristóvão Tezza, que emprestou a sua história de vida para um livro. Pudera, só mesmo quem viveu aquelas coisas pode colocar em palavras, com tanta propriedade, todos aqueles sentimentos, sensações.

“Vergonha, grande controlador social”

“Torna a mesma ansiedade de sempre, insolúvel”.  

A narrativa originalmente posta no livro, ganhou a grande sacada, acredito que de Bruno Lara Resende, de trazer à tona o Romance-em-Cena, de Aderbal Freire Filho, recurso cênico que vi encenado pela primeira vez numa montagem da peça O Púcaro Búlgaro (2006). Maravilhosa.  Aderbal define o seu próprio estilo assim: “o jogo da ilusão do teatro levada ao paroxismo: o discurso em terceira pessoa e a ação em primeira. O passado e o presente se confundem. A adaptação é ‘apenas’ cênica, não se transforma o texto narrativo em texto dramático.”

Li certa vez que o romance-em cena é uma forma de tornar o ator potente. Esta máxima se fez real na montagem de O Filho Eterno. Ah, quero aplaudir também o plano de luz, simples e forte. Só não acertou muito bem os tempos do ator no dia em que fui assistir. Espero que no outro tenha ido bem.

No mais, deixo os meus sinceros parabéns a todos. Saí do teatro emocionada e feliz.