Mariano, irmão meu ou Peça transborda poesia em cena, por Vinicius Vieira

Mariano (01)

Foto: Divulgação

Vinicius Vieira (PE) é ator, maquiador e estudante de jornalismo. É formado pela Escola SESC de Teatro e desde 2009 integra a Cênicas Companhia de Repertório. Participou de diversos espetáculos, entre eles: Escola de Meninas (2007), De uma Noite de Festa (2009), Pinóquio e suas Desventuras (2009) e Senhora dos Afogados (2010). Em 2011, participou do Seminário Internacional de Crítica Teatral na função jovem crítico. Também ministrou aulas de teatro na Escola de Artes Hipérion e no Espaço Cênicas.

Vinicius Vieira (PE) é ator, maquiador e estudante de jornalismo. É formado pela Escola SESC de Teatro e desde 2009 integra a Cênicas Companhia de Repertório. Participou de diversos espetáculos, entre eles: Escola de Meninas (2007), De uma Noite de Festa (2009), Pinóquio e suas Desventuras (2009) e Senhora dos Afogados (2010). Em 2011, participou do Seminário Internacional de Crítica Teatral na função jovem crítico. Também ministrou aulas de teatro na Escola de Artes Hipérion e no Espaço Cênicas.

Peça transborda poesia em cena
por Vinicius Vieira

É no encontro com as múltiplas faces da ausência que surgem as histórias fantasiosas, mas, também, a busca pela verdade. Em Mariano, irmão meu, espetáculo do grupo Engenho de Teatro (PE) os personagens vivem este tipo de realidade.  O contexto repleto de dificuldades (a pobreza que limita, a insanidade que amedronta e o abandono consumidor) dá margem ao sonho e às ações de afeto, mesmo quando a expressão de cuidado parece duvidosa. É nessa miscelânea de sentimentos conflitantes que a dramaturgia é transformada em poesia da cena.

A direção de Eron Villar, que também assina a iluminação do espetáculo, opta pela simplicidade que permeia tanto os elementos cenográficos quanto a linha de interpretação dos atores, com economia nas movimentações e na gestualidade. As personagens são apresentadas em contornos psicológicos bem delineados e se entrelaçam a soluções que exploram a teatralidade como: a manipulação de uma boneca, o teatro de sombras e o diálogo, em momentos pontuais, com a plateia, quebrando a quarta parede em pequenos círculos de luz e isolamento.

O texto, ora falado, ora cantado, é dito com bastante propriedade pelos atores. É também no silêncio que acessamos uma infinidade de sensações e visualizações, resultado de um elenco afinado. Talvez, poderia haver um cuidado maior nas palavras ditas pela personagem Augusta, interpretada pela atriz Ana Cláudia Wanguestel. Na maioria das vezes, ela se mantém em um mesmo registro, o que impossibilita o jogo de inflexões e entonações que revelariam mais sobre esta mulher, aparentemente guiada pela razão.

Em cena, os atores Ana Claudia, Tatto Medinni e Alexsandro Souto vivem núcleo familiar desestabilizado

Foto: Divulgação

A dramaturgia de Alexandro Souto Maior, também ator na montagem, é sensível e inteligente. O autor utiliza-se da narratividade para entrecortar a história de Mariano com recursos metafóricos. Este mecanismo é utilizado para refletir, poeticamente, sobre as ações das personagens, enquanto alguns ajustes de cena acontecem.

Ao interpretar o protagonista que dá nome à obra, Tatto Medinni mostra-se um ator habilidoso. Consciente do risco de cair no histriônico, ele nos proporciona uma interpretação sensível ao desvelar os anseios e os temores de Mariano, uma pessoa com problemas mentais que sonha em se encontrar com a mãe viajando além-mar. Sua instabilidade, insegurança e, às vezes, paranoia, nos aproxima desse ser extremamente humano.

Os figurinos, adereços e o cenário foram criados pelas mãos talentosas de Java Araújo. A cenografia é funcional e traz soluções criativas. Três “blocos de madeira” distribuídos um ao lado do outro no fundo do palco, transformam-se em símbolos que auxiliam na construção dos ambientes. Tudo com alterações sugestivas complementadas pela imaginação da plateia.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O espetáculo explora questões universais, caras ao ser humano, como: a solidão, a liberdade, a rejeição, a busca pelo sonho e a frustração de não alcançá-lo. Sem ser panfletária, a peça problematiza ainda a loucura, o uso banalizado de calmantes e as políticas de saúde pública que não amparam, como deveriam, a população.

Entre a palavra e o silêncio das relações em cena, ficam as respirações profundas, a mente que vagueia enquanto acessamos, em uníssono, sentimentos análogos aos que surgem no palco. E no vazio de situações sem respostas, tocamos a nossa essência e nos perguntamos, assim como Damião questiona a sua tia: “o que somos?”.

 Assista ao vídeo do espetáculo

 http://www.youtube.com/watch?v=YF-PWID2RC4

Saiba mais

 Em setembro deste ano, o grupo pernambucano Engenho de Teatro comemora 15 anos de atuação. No repertório da companhia estão os espetáculos: O terceiro dia (2002), Nero (2004), Luzia no caminho das águas (2006) e Meninas de engenho (2009). Em 2011, o texto, Mariano, irmão meu, inspirado na estética de Guimarães Rosa, conquistou os Prêmios Literários da Cidade de Manaus.

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