Um olhar sobre “Círculos que não se fecham… Experimento n.1″, por Galiana Brasil

Foto: Marcelo Lyra

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Galiana Brasil é atriz, graduada em artes cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco. Atua como gestora cultural no Sesc, onde desenvolve ações de coordenação pedagógica, há dez anos compõe o grupo de curadores nacionais do projeto Palco Giratório.

Um olhar sobre “Círculos
que não se fecham… Experimento n. 1”

Por Galiana Brasil

Qualquer passagem minha pela terreira da “Escola Pernambucana de Circo – EPC” sempre me deixa algo de especial, marcante. Porque o lugar é bonito, agradável; as pessoas são receptivas, calorosas e sempre há algo surpreendente acontecendo. Foi assim em todas as vezes que assisti a espetáculos, fui a festas, ou simplesmente cheguei para uma reunião administrativa (daí saía da sala para um xixi ou um café e me perdia no tempo observando o trabalho dos educadores com as crianças da comunidade). Porque em qualquer momento ali, há vida. Há “processo”. A EPC é um espaço permanente de transformação, de criação artística independentemente de editais, escancarando a ausência de política pública – aliás, assustadoramente há anos sem apoio nem financiamento contínuo de nenhuma ordem.

Se em tempos de desordem sangrenta, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, brechtianamente falando, há algo de revolucionário nesse espaço permanentemente aberto: chamando as pessoas à reflexão, promovendo debates, mantendo a plenária acesa acerca, principalmente, das questões relacionadas à juventude marginalizada e, como se não bastasse, promovendo o contato com a arte através de uma linguagem que, dentre aquelas que compõem as artes cênicas, também corre à margem – o circo. Basta procurar, dentro dos parcos programas existentes, as linhas de financiamento a ele destinadas, basta um olhar atento para as ações culturais promovidas na cidade, no estado, para entender porque não é arbitrário falar de uma hierarquização, de um tratamento desarmônico que tanto atrapalham o crescimento e a difusão dessa arte. Não que haja um cenário forte para o teatro ou a dança – muito longe disso! Mas que, dentre essas, o circo é o mais desprestigiado, isto é notório.

Foto: Marcelo Lyra

E é nesse contexto que sobrevive a EPC, donde nasceu a Trupe Circus que já acumula diversos trabalhos na bagagem, da qual se origina o experimento batizado “Círculos que não se fecham”. Construído em forma de processo colaborativo, é visível a autoria dos intérpretes que participam ativamente da criação, afinal, como bem explicitado no programa, assinado por Fátima (Fatinha) Pontes – que também assina o roteiro e a encenação -, são as suas experiências de vida, seus olhares, suas inquietações que dão o mote do jogo. Além disso, faz parte da forma de trabalho da Escola a divisão de tarefas, a opção pelo coletivo. Junto com Fátima assinam a direção do trabalho Maria Luiza Lopes e Anne Gomes. Impossível não destacar artistas como Allison Santana e Hosani Gomes, ingressos na EPC ainda adolescentes, hoje artistas reconhecidos, formadores da equipe docente, assim como Blau Lima, coordenador pedagógico que, neste Círculos…, executa a sonoplastia, grande parceiro de Fatinha na longa jornada de concepção e manutenção dessa escola.

O espetáculo que assisti na noite do último sábado, na sede da EPC, se distanciou da primeira montagem que guardava desperta na memória. Houve mudanças, e essas são um movimento natural, ainda mais num processo de jovens artistas, estimulados pela própria EPC que tantas oportunidades lhes proporciona – uns saem, outros chegam, é a punção da vida, mais um círculo que não se fecha. Comprometedoras, a meu ver, foram algumas escolhas que vão tecer a poética da cena, recursos visuais, sonoridades. Discursos ativos pungentes. Adentro com cuidado nesse terreno, mas sinto que preciso fazê-lo, porque acredito que a indiscutível ação social da EPC não pode ser reverenciada em detrimento de sua atuação artística. A trupe Circus é o braço artístico desse tronco – essa é a sua origem, é o que tem sido visto em suas produções, e é assim que me relaciono com ela.

A opção da montagem em falar de um roteiro no lugar de texto é bem ajustada à proposta que se apresenta, porém, paradoxalmente, a trilha sonora surge como dramaturgia, tal o espaço a ela garantido. Muitas vezes, os artistas parecem apenas ilustrar o que é dito nas letras, tamanho o poder que é oferecido a essas. Aí se perde uma oportunidade grande de problematizar, ultrapassar a seara do que já está dito, e o espetáculo acaba reforçando uma indústria massificadora, quando não oferece espaço para o subjetivo, para o não-dito. De fato, num trabalho em que a música se faz fio condutor a esse nível, a atuação de um profissional da área contribuiria bastante.

 Não se trata aqui de desconsiderar os referenciais trazidos pelos jovens – ao contrário. Eles existem, são fortes e é deles que se vai partir, porém, também faz parte dos processos artísticos desestabilizar o que está posto, desconfiar do que nos é apresentado como única opção, revirar, brincar com isso, para que as pessoas, os públicos possam também fazer outras leituras, obter novos significados, e não continuar se relacionando da mesma forma. Ouvir a mesma coisa de uma forma diferente para ampliar seu nível de percepção, ainda que isso aconteça pela via do estranhamento.

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

Uma cena que perdeu muito de sua poesia e carga dramática foi a tão reverenciada cena do triângulo amoroso no trapézio. Há um descompasso na composição dos personagens, há um estranhamento indisfarçável causado pelo figurino dos meninos, e, sem dúvidas, pela opção da versão dada à música do Legião Urbana.

A cena cresce em apuro cênico na sequência do uso das drogas. A utilização dos recursos técnicos (malabares, diabolô, cores, luzes distorcidas para um efeito psicodélico que faz referência aos estados de alteração da consciência) deixa margem para outras interpretações, espaço mais que bem vindo para as contribuições de quem vê, para que possamos fazer nossas leituras.

A potência do trabalho está no ato coletivo. Emblemado pela pirâmide humana, esta é a marca maior deste trabalho, a cada nova formação, a cada base humana, vemos a força do ensemble. A cada grito de impulsão, a cada gesto de confiança no outro, vemos que esses não são apenas desenhos de cena. Esta é a prática discursiva deste grupo, seu modo de funcionar. Sua força vem da ação conjunta: isso está implícito na cena, e trata-se de um valor muito caro às artes cênicas.

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

A decência e a obstinação de Fátima Pontes à frente dessa empreitada não é de hoje que me co-movem. E assim, estou com eles numa torcida cúmplice, ainda que silenciosa, ainda que de longe, mas movo-me com eles, na direção aonde esse trabalho aponte; caminho junto, porque acredito e penso, sinceramente, que é essa força, essa rede do bem que pode mudar o mundo, a começar por mudar os indivíduos: eles mesmos, os seus, o entorno, os que chegam pra aprender, pra conhecer e ali vão ficando, se descobrindo, se tornando. É tão bonito ver o movimento de meninos e meninas que ali entram e dali saem para tantos cantos. Os que começam aprendizes e com o tempo ali estão trabalhando na formação de novos… Agora dei pra ficar olhando as crianças na plateia (completamente vidradas nos artistas) e adivinhando quem daquelas daqui a pouco estará do outro lado…

Como todo ponto de vista é sempre a vista de um ponto, este é apenas um depoimento em primeira pessoa, acerca de minha relação com a obra, uma tentativa de captar o efêmero experimentado naquela noite. Minha fala é carregada de minhas referências, do meu modo de enxergar e da forma que acredito que posso provocar o outro. Traz, ainda, a carga de afeto que me liga ao grupo, não poderia ser diferente. Espero, com tudo isso, contribuir com o crescimento do trabalho, nem que seja pela tentativa de manter aceso o pensamento crítico que tanto caracteriza esse coletivo. E de acordo com o subtítulo da peça, este é o primeiro experimento, então, que venham outros. Oxalá!

FICHA TÉCNICA:

Roteiro e encenação: Fátima Pontes

Direção: Fátima Pontes, Maria Luiza Lopes e Anne Gomes

Coreografias: Patrícia Costa

Projeto de Iluminação: Sávio Uchôa

Execução de iluminação: Savio Uchôa

Execução de sonoplastia: Blau Lima

Seleção de sonoplastia: Fátima Pontes

Arranjo musical: Orquestra Perfil (Aguinaldo Menezes, Lyzia Rocha,

Heber Melo, Elton Assunção, Rosael Pimenta, Cleiton Eleno e Dinho)

Gravação da seleção musical: Estúdio Tropical Tec (Jorge Banana)

Produção executiva: Fátima Pontes e Alexandre Menezes

Assistente de produção: Maria Luiza Lopes

Programação visual: Cláudio Lira

Assessoria de comunicação: Julia Fontes

Figurino: Júlia Fontes

Cenário: Fátima Pontes e Maria Luiza Lopes

Elenco/Trupe Circus: Allison Santana, Anne Gomes, Bruno

Fernando, Célio Santos, César Gomes, Hammai de Assis Vieira,

Hosani Gomes, Ítalo Feitosa, Marcela D´Ângelo, Michael Francisco

Torres, Ítala Rodrigues, Pablo Carlos, Thiago Oliveira.

Contra-regra: Fábio Cavalcanti

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