Dzi Croquettes, por Duda Martins

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

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Jornalista por formação, blogueira por opção e atriz de corpo e alma. Idealizadora do blog Meros Espectadores. https://merosespectadores.wordpress.com/quemsomos/

 Dzi Croquettes

por Duda Martins

Cubro o Janeiro de Grandes Espetáculos há cinco anos, dos 20 que o festival está comemorando. Até agora, a melhor abertura por mim já presenciada foi nesta edição. A ousadia de trazer o Dzi Croquettes ao Santa Isabel foi uma decisão acertada dos coordenadores. Aquele templo semissacro do teatro pernambucano quase caiu abaixo na última quarta-feira.

Vamos tentar chegar ao final do texto sem usar a palavra “irreverência”, ok? Inspirado no conjunto norte-americano The Coquettes e no movimento gay atuante na off-Broadway surgia, há 40 anos, o Dzi Croquettes (década de 70). Um grupo que levantava algumas bandeiras – principalmente a favor da liberdade sexual e contra qualquer tipo de repressão – e fazia, sim, um teatro ideológico, que tinha algo a dizer a sociedade. Esta prática, de usar o teatro ideologicamente, hoje é abolida por muitos, não sei porque. Agora é arte pela arte: ficamos cheios de estética (?) e vazios de conteúdo.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Voltando. À sua época, o Dzi teve enorme importância. Guerreou com as armas cênicas contra uma cultura vigente opressora e, por que não, burra. Fez revolução nos palcos brasileiros e lá fora. Hoje, podemos dizer que venceu. Venceu e o Brasil não é mais o mesmo, e nem mesmo o teatro brasileiro. Taí o porque de o espetáculo “Dzi Croquettes – Em Bandália” ter um quê de datado. O discurso não é mais revolucionário, nem ousado. Travesti no palco, escracho, desbunde, já vimos bastante. Tanto o Dzi quanto o Oficina, o Vivencial e até, tomadas as devidas proporções, a Trupe do Barulho já trabalharam bem esse estilo.

Definitivamente não é texto o que impressiona nesse novo Dzi. Isso, na verdade, é bem cansativo. Mais do mesmo. O que não nos deixa piscar nas quase duas horas de peça é a forma. Não apenas as dos garotos em cena, que diga-se de passagem, é maravilhosa, mas do espetáculo que causam com a sua presença. Aliás, presença de palco não falta àqueles cariocas. O espetáculo é grandioso e luxuoso: figurino, luz, trilha muito bons. Os artistas em cena arrebentam no fôlego, coreografia e talento. Em particular o Ciro Barcelos, remanescente do grupo e agora diretor da nova formação, que nos deixa boquiabertos com a sua performance.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

O musical cumpre bem sua função. Atores afinados, excelentes em movimento de corpo, atrevidos. Imagina, ficaram de pé nas cadeiras do Santa Isabel, brincaram com o público, subverteram o sistema. O Ciro Barcelos faz bem em não comparar o Dzi de antes com o de hoje. Este último veio para prestar uma homenagem. Homenagem bonita, cheia de qualidade artística, feita com coração, nostalgia e, claro, muita purpurina.

Ficha Técnica
Concepção, texto e direção geral: Ciro Barcellos/Assistência de direção e roteiro: Radha Barcellos/Direção musical: Demétrio Gil/Coreografias: Ciro Barcellos e Lennie Dale/Direção técnica: Ronaldo Tasso/Iluminação: Aurélio de Simoni/Trilha sonora: Demétrio Gil e Flaviola/Figurinos e adereços: Cláudio Tovar/Cenário: Pedro Valério/Supervisão artística: Thina Ferreira/Direção de produção: Robson Agra/Produção executiva: Anna Ladeira/Elenco: Ciro Barcellos, Demétrio Gil, Udilê Procópio, Leandro Melo, Thadeu Torres, Franco Kuster, Pedro Valério, Ricardo Burgos, Sonny Duque e Robson Torinni, com participação especial de Bayard Tonelli.

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