Alice underground ou Quem Alice se tornou?, por Mateus Amaral

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Mateus é professor, estudante de publicidade e cantor, tendo participado de diversos musicais em inglês

Mateus é professor, estudante de publicidade e cantor, tendo participado de diversos musicais em inglês

Por Mateus Amaral

“Mas eu não ando com loucos”, observou Alice.
 “Oh, você não tem como evitar”, disse o Gato, “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca”.
 “Como é que você sabe que eu sou louca?”, disse Alice.
 “Você deve ser”, disse o Gato, “senão não teria vindo para cá”.

Quando eu fui chamado para assistir essa peça eu não soubia o que esperar. Gosto muito dos livros da Alice, mas sabia que por ser uma “livre adaptação”, eu não deveria esperar nada muito parecido. Ao chegar ao teatro, já estava munido da informação de que era a segunda vez que essa peça era apresentada e que da primeira vez a venda de ingressos havia sido bem-sucedida – mesmo que o teatro não estivesse lotado no dia em que fui. [08/06]

O público parecia razoavelmente ansioso: algumas das pessoas que estavam junto a mim já haviam assistido ao espetáculo e queriam ver novamente como havia ficado [ouvi elogios aos atores e isso aguçou minha curiosidade, confesso]. A soundtrack escolhida para esperar a peça também não passou despercebida: músicas pop do dia a dia com uma roupagem diferente; mais clássica – talvez um prefácio do que estava por vir.

Ao começar a peça eu me deparei com a velha história de Alice e o coelho branco – nenhuma novidade até então: A Disney e Tim Burton já haviam começado a história também desse mesmo jeito. A primeira surpresa, no entanto, não partiu do roteiro, mas da montagem. A queda de Alice no buraco foi a primeira coisa que me fez perceber que a falta de cenário em momento nenhum atrapalha o andamento da peça – auxiliados por uma iluminação e poucos acessórios, os atores não parecem perdidos no palco.

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No desenrolar da história, vários outros personagens são apresentados em versões pouco romanceadas. No início da peça, a lagarta é a personagem que induz Alice a fumar “ervas mais naturais” [sem o auxilio do narguilé]. Por esse fato já é possível imaginar – se o título não for claro o bastante – que o tipo de jornada que Alice passa no País das Maravilhas é uma jornada diferente. Uma jornada underground.

Um dos grandes focos de Alice – tanto enquanto personagem ou como peça – é a questão do “Quem sou eu”? Questão perguntada logo no início, e que é respondida no decorrer da peça. [ou é melhor dizer: Quem eu me tornei?]. Segundo o diretor, Antônio Rodrigues, a entrada de Alice no País das Maravilhas é como se uma inocente garota fosse jogada na noite de uma cidade grande. Quem ela encontraria? Como ela reagiria? E assim, como seria o crescimento dela [em analogia ao cogumelo de crescimento do livro, não citado na peça]. Se a peça tinha essa função, esta foi bem executada.

Pois é nessa circunstância que Alice conhece os outros personagens – representados por travestis, mendigos, loucos de rua e outros personagens do nosso cotidiano. Mas ao invés de mostrar o viés puramente underground, apesar do título, os personagens não são feitos de forma pesada, mas sim muitas vezes leve e brincalhona – como no caso das flores. Até mesmo carnavalizada e exagerada, como em alguns trechos do final da peça. Porém, independente do viés tomado, os personagens foram seguros, confiantes e bem construídos.

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Os personagens eram reais, mas não usuais, como no Pátio dos Milagres, onde a alegria se supera onde o underground se apresenta. Esse pode ser o tema que foi mostrado em Alice Underground. Com elementos simples, texto hermético típico de Alice e personagens muitas vezes cativantes, a peça é uma pedida diferente para uma olhada também diferente do cotidiano e da identidade.

Minha maior questão ainda é o público. A censura da peça é 16 anos, e talvez muitas pessoas achassem algum elemento da peça razoavelmente pesado. Eu gosto muito de pensar no público alvo das coisas – e isso inclui uma peça de teatro. Com um grupo realmente heterogêneo de pessoas no teatro, o target não ficou tão claro, mas caso você esteja disposto a ver algo que demonstra diferença no roteiro, segurança na atuação, fuga de lugar-comum e não se importar com meia dúzia de tabus, invista seu tempo. Você também pode se interessar em descobrir quem é Alice ou quem ela se tornou.

Sobre

Um espetáculo da Incantare Cia de Teatro
Alice fará a 2ª temporada no teatro Eva Herz – Livraria Cultura Riomar Shopping
Nas datas de 8 a 30 de junho aos Sábados 20h e Domingos 19h


Companhia

Alice Underground é uma livre adaptação da obra de Lewis Caroll “Alice no País das Maravilhas” idealizado e produzido pela Incantare Cia de Teatro

Ingressos: R$15 Meia e R$30 Inteira
Indicação Classificativa – 16 anos


Ficha técnica

Texto e Direção: Antônio Rodrigues
Assistência de direção: Ana Sousa e Bruna Castiel
Elenco: Bruno de Lavor, Miila Puntel, Deborah Albuquerque, Diego Nascimento, Guto Ferraz, Melissa Baraúna, Rachell Costa, Rogerio Wanderley e Tarcísio VIeira
Direção de arte: Antônio Rodrigues e Sônia Carvalho
Preparação Corporal: Alexandre Guimarães
Arte gráfica: Bruno Atanasio

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