De Íris ao Arco-Íris, por Arilson Lopes

Foto: Angélica Gouveia

Foto: Angélica Gouveia

 

Arilson Lopes por Duda Martins: Com certeza ele não lembra, mas o primeiro contato direto que tive com ele foi quando, por ocasião de um curso de caracterização ministrado por João Denys, nós, os alunos, fomos convidados a maquiar os atores que se apresentariam naquela noite no Teatro de Santa Isabel. Para o azar do coitado, eu fiquei responsável por maquiar Ari. Na minha cabeça vinha assim, enquanto passava pancake branco no seu rosto: “Meu Deus! Eu estou maquiando Arilson!”. Rebobina. Alguns anos antes disso, eu havia ficado fascinada pela interpretação desse cara em Rasif, a primeira peça que assisti do Coletivo Angu. Desde ali eu virei fã, incondicional, passei a acompanhar o trabalho e, do nada, estava ali, maquiando. Arilson é um excelente intérprete, o admiro por demais. Mas como pessoa, ele consegue ser melhor ainda e descobri isso durante aquele curto tempo de bastidor. É nos bastidores onde você conhece o ator. Humilde, gentil, prestativo, um doce. Quem conhece, sabe. Vou parar com a babação, mas preciso dizer que eu fiquei muito feliz em tê-lo como Mero Espectador. 

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Arilson Lopes é espectador, ator, palhaço e graduando do curso de Licenciatura em Teatro, da Universidade Federal de Pernambuco.

De Íris ao Arco-Íris

por Arilson Lopes 

Tida como parte da vida e aceita nas sociedades antigas com naturalidade e leveza, a morte ganhou o lugar de tema interdito ao longo do tempo. E se, para os adultos, falar de morte na sociedade em que vivemos é difícil, falar para as crianças seria uma tarefa quase impossível. Mas não para o encenador Jorge de Paula e toda a equipe do espetáculo De Íris ao Arco-Íris, que estreou no dia 18 de maio, no Recife, no Teatro Marco Camarotti, dentro da programação do VII Festival Palco Giratório Brasil, realizado pelo SESC Pernambuco.

Através do Teatro de Sombras, o espetáculo, que não possui um texto verbal, conta a história da sonhadora lagarta Íris e de suas aventuras. De lagarta a casulo, de casulo à borboleta, de borboleta a arco-íris, todas as transformações vividas por Íris são mostradas pelos atores-manipuladores, que apesar de não possuírem uma formação voltada para esse tipo de teatro, conseguem realizar com segurança toda a manipulação do espetáculo. O Teatro de Formas Animadas feito em Pernambuco nos últimos anos tem ousado bastante em suas histórias e na maneira de contá-las para as crianças. O Mão Molenga Teatro de Bonecos, em seus três últimos espetáculos (Babau, O Fio Mágico e Algodão Doce), também trouxe à cena temas tabus, como a morte, sempre com bom humor, beleza e poesia.

Segundo Jorge de Paula, essa história nasceu ainda nos tempos da universidade, quando participava do projeto Pátio da Fantasia, orientado pelo professor Marco Camarotti (1947-2004), ator, encenador e arte-educador, que fundou e coordenou o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Artes Cênicas, na UFPE, com o intuito de desenvolver projetos na área do Teatro para a Infância e a Juventude e do Teatro Folclórico. O Pátio da Fantasia dava continuidade às pesquisas iniciadas por Camarotti, com particular atenção para as crianças cegas, surdas e com deficiência cognitiva. Nesta montagem, Jorge recupera essa ideia e visa dialogar também com essas crianças. Ele conta que numa das primeiras leituras da peça, questionado sobre o fato de um texto para crianças falar sobre morte, Camarotti respondeu: “Não há problema algum em tratar da morte ou de qualquer outro tema com as crianças porque a morte faz parte da vida. Precisamos apenas encontrar a melhor maneira de fazer isso”. Demorou alguns anos, mas o desejo de encenar essa peça foi cumprido graças aos prêmios do Funcultura e do Myriam Muniz e, principalmente, à determinação de Jorge de Paula e Andrea Veruska, idealizadores do projeto.

Foto: Angélica Gouveia

Foto: Angélica Gouveia

O espetáculo é dividido em dois momentos. No primeiro momento, conhecemos a lagarta Íris e o seu sonho de brincar nas nuvens. Presa à terra, a lagarta não consegue romper os seus limites e realizar seu sonho. Íris e seus amigos insetos são mostrados através das sombras na tela branca. No segundo momento, depois de se fechar em seu casulo, Íris ganha asas coloridas e se transforma numa linda borboleta, que ultrapassa a tela branca e ganha o palco. Essa tridimensionalidade, apenas conseguida pelo vilão da história, o rei Aranha, provoca o seu ciúme e ele tenta a todo custo aprisioná-la numa gaiola junto com outras borboletas. Mas Íris não se rende ao tirano e voa alto até as nuvens. Petrificada pelo frio que faz lá no alto, Íris é descongelada por um vagalume. A água que escoa das asas de Íris em forma de chuva leva consigo as suas cores e sua vida, fazendo surgir o Arco-Íris.

É importante destacar que o espetáculo é pontuado pela trilha sonora original composta por Júlio Moraes e iluminado pelo designer de luz Eron Vilar. A criação das silhuetas das personagens e dos cenários são de Luciano Félix e a confecção das silhuetas e dos adereços tridimensionais de Henrique Celibi. Marcondes Lima assina o cenário e os figurinos.

Foto: Angélica Gouveia

Foto: Angélica Gouveia

A transformação vivida por Íris, ao longo do espetáculo, a impulsiona para seguir em busca dos seus sonhos. E nesse sentido de transformação, passagem e renascimento, a morte perde a cara feia que normalmente lhe atribuímos e recupera um lugar muito familiar no mistério da vida. Uma criança sentada na fileira atrás de mim, disse para a mãe: “Que coisa linda, mamãe!”. E eu me emocionei, tocado duas vezes: uma pela poesia que via no palco e outra pelo encantamento demonstrado por aquela criança.

A título de desculpas, não se chateie por eu ter contado o final da história, pois nada substitui o “como” ela é contada no teatro.

Confira e… bom espetáculo!

Serviço

Espetáculo: DE ÍRIS AO ARCO-ÍRIS

Produção independente (PE)

Faixa etária: Livre

Gênero: Teatro de Sombras

Duração: 50 min

Ficha Técnica

Texto dramático: Criação coletiva a partir da obra De Íris ao Arco-Íris, de Jorge de Paula/ Encenação: Jorge de Paula/ Elenco: Andrea Veruska, Iara Campos, Jorge de Paula e Lucélia Albuquerque/ Cenografia e indumentária: Marcondes Lima/ Design de luz: Eron Vilar/Design gráfico e criação de silhuetas: Luciano Félix/ Confecção de adereços e silhuetas: Henrique Celibi/ Trilha sonora original: Júlio Moraes/ Registro fotográfico: Angélica Gouveia/Direção de produção: Karla Martins (Decanter Articulações Culturais)/ Assistência de produção: Andrea Veruska/ Idealização do projeto: Jorge de Paula e Andrea Veruska

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Seu Rei mandou, por Tatto Medinni

Foto: Divulgacao

Foto: Divulgacao

Tatto Medini por Duda Martins: Tatto, de tato conheço pouco, mas com os ouvidos ouço falar muito bem rsrsrs. O vi em cena uma única vez no Amor de Clotilde por um Certo Leandro Dantas (2010) e achei maravilhoso. Aliás, que elenco é aquele hein? Andei lendo alguma coisa sobre Tatto e vi que o menino é danado, desde cedo no batente, atua em Ópera, do Coletivo Angu (consagrado em PE) e até foi dirigido por Antônio Abujamra. Nao é pra qualquer um. Entendi que o palco é o seu lugar. Mas hoje ele pagou de mero espectador e mesmo sem nunca ter criticado espetáculos, fez bonito com as palavras  escrevendo sobre a montagem Seu Rei Mandou, dentro da Mostra Marco Camarotti. Entra pra série #merosespectadoresdefuturo!  Rsrsrsr Lê aí e vê como ficou bom!

Tatto Medinni é ator e iniciou suas atividades no teatro em 2004. Atuou em peças como "Ópera" pelo Coletivo Angu de Teatro com direção de Marcondes Lima em 2007, "Os possesssos" com direção de Antônio Abujamra em 2008  "O Baile do Menino Deus" com texto e direção de Ronaldo Correia de brito de 2007 à 2011, "O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas" pela Trupe Ensaia Aqui e Acolá e direção de Jorge de Paula em 2010. Atualmente integra os grupos Coletivo Angu de Teatro e a Trupe Ensaia Aqui e Acolá.

Tatto Medinni é ator e iniciou suas atividades no teatro em 2004. Atuou em peças como “Ópera” pelo Coletivo Angu de Teatro com direção de Marcondes Lima em 2007, “Os possesssos” com direção de Antônio Abujamra em 2008 “O Baile do Menino Deus” com texto e direção de Ronaldo Correia de brito de 2007 à 2011, “O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas” pela Trupe Ensaia Aqui e Acolá e direção de Jorge de Paula em 2010. Atualmente integra os grupos Coletivo Angu de Teatro e a Trupe Ensaia Aqui e Acolá.

SEU REI MANDOU DIZER… TÁ DITO!

Por Tatto Medinni 

Fui convidado por Duda Martins, idealizadora desse blog, a escrever uma “crítica” sobre o espetáculo Seu Rei mandou da Cia. Meias palavras. As aspas se aplicam a palavra “crítica”, pois, não sou crítico de teatro. Sou apenas um mero espectador. O convite se deu por que eu comentei no Facebook, onde todo mundo vê o que você escreve, que queria muito ver a peça e, a partir disso, vendo essa minha publicação, Duda me chamou também pelo Face. Mas vamos ao que interessa…

Seu Rei mandou está inserido na programação da Mostra Marco Camarotti de teatro para a infância e juventude, um projeto idealizado e realizado pelo SESC-PE. O espetáculo tem a atuação, encenação, roteiro, adereços e figurinos (ufa!) de Luciano Pontes e faz parceria com Gustavo Vilar, que faz a sonoplastia e os efeitos sonoros. O espetáculo é alinhavado por três histórias: A lavadeira real, O rato roeu a roupa do Rei de Roma e O Rei chinês Reginaldo Reis. A poesia é muito presente durante toda a encenação e, apesar de estar nomeado ou classificado como teatro para infância e juventude, encanta também os adultos.

Uma das coisas que mais me fascinam no teatro é a forma que se conduz a narrativa. Luciano Pontes se utiliza da contação de histórias que, vale salientar, o faz com maestria e, também, faz uso da figura do palhaço em sua construção da personagem. É notório o domínio de Luciano dessas duas linguagens. Trabalhos que vem sendo desenvolvidos há anos, tanto na Cia. Meias palavras quanto nos Doutores da Alegria. Explora as variações e nuanças de uma mesma palavra, provocando o riso de seus Reizinhos.

O ator-narrador é uma figura durona, porém graciosa, sabendo impor os limites necessários sem ser arrogante. É construído um corpo que está sempre ativo e em estado de alerta, pronto para dar uma resposta ou jogar de acordo com o que a plateia propõe. Para um tipo específico de público como esse, na sua maioria de crianças, o improviso e o jogo-de-cintura é imprescindível, visto que os pequenos são coautores do espetáculo. É preciso ter propriedade, coisa que Luciano tem de sobra.

O que foi proposto para o cenário é bem simples, contendo um tapete retangular ao centro e dois tapetes pequenos. Lembro de mais uma coisa que me deixa encantado pelo teatro: O estímulo à imaginação. Fazer o que não é parecer ser. Os elementos de cena também seguem o mesmo caminho e nos faz imaginar, por exemplo, que um leque pode ser ora uma borboleta , ora um pavão. Elementos que saem do bolso e se transformam. Coisas que vão aparecendo e desaparecendo. Codificando e descodificando. Re-significando.

Foto: Divulgacao

Foto: Divulgacao

A música tem papel de fazer viajar junto com o contador e, em muitos momentos, cria imagens, climas e ratifica a narrativa proposta pela encenação. Todos esses elementos tem sintonia fina, nenhuma coisa sobrepõe a outra. Se conjugam. Faz-se necessário ao teatro ideias como essa, independente da faixa etária.

Ah… Vale lembrar que Seu Rei mandou foi ganhador nas categorias figurino (Luciano pontes), iluminação (Luciana Raposo) e direção (Luciano Pontes), dentro do 19º Janeiro de Grandes Espetáculos.

Cartaz Seu Rei Mandou

Cartaz Seu Rei Mandou