O menino da gaiola ou O menino da gaiola e da poesia, por Cícero Belmar

Foto: Ângulo cinematografia

Foto: Ângulo cinematografia

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Escreveu cinco peças infantojuvenis, sendo quatro encenadas no Recife: “A Flor e o Sol”, “A Floresta Encantada”,  “Coração de Mel” e “Meu reino por um drama”. Permanece inédita “A onça medrosa”. É autor de contos (Tudo na Primeira Pessoa e Aqueles Livros não me iludem mais), biografias e romances (Rossellini amou a pensão de dona Bombom e Umbilina e Sua Grande Rival).

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Escreveu cinco peças infantojuvenis, sendo quatro encenadas no Recife: “A Flor e o Sol”, “A Floresta Encantada”, “Coração de Mel” e “Meu reino por um drama”. Permanece inédita “A onça medrosa”. É autor de contos (Tudo na Primeira Pessoa e Aqueles Livros não me iludem mais), biografias e romances (Rossellini amou a pensão de dona Bombom e Umbilina e Sua Grande Rival).

O menino da gaiola ou O menino da gaiola e da poesia

Por Cícero Belmar

Há uma novidade legal em cartaz, no teatro pernambucano. Pode anotar na agenda, pois vale a pena sair de casa para levar a garotada ao espetáculo “O Menino da Gaiola”. A peça reúne muita gente boa, que entende do assunto teatro. Um texto enxuto e bacana; uma direção competente e criativa; atores, em sua maioria, bons; uma trilha sonora que vai receber prêmio, com certeza; um cenário legal; uma iluminação idem.

A palavra novidade usada no parágrafo anterior não é só porque a peça estreou neste sábado, 20 de julho. Também não é só (é também) pelo fato de este ser o primeiro texto de teatro escrito por Cleyton Cabral.  Sim, ele é mais conhecido pelas suas qualidades como ator, mas vem surpreendendo como escritor. Mas, o espetáculo tem de novidade, no teatro pernambucano, a abordagem de temas não muito comuns para crianças e jovens.

Então, novidade, no caso específico, pode ser entendido como inovador. (Licença para fazer uma consideração: há alguns anos a literatura infatojuvenil  passou a abordar temas espinhosos, cotidianos, entendendo a criança e o jovem como seres pensantes). Cleyton, que cada vez mais se dedica à literatura, achou por bem trazer essa mesma estratégia para o texto de teatro. A abordagem de temas que estão no dia a dia e que podem ser impactantes para a criança é a grande diferença de “O Menino da Gaiola” e outras peças que têm a ver com fábulas envolvendo bichinhos, contos de fadas etc.

Neste “O Menino da Gaiola”, que Samuel Santos mais uma vez comprova ser um grande diretor, o tema primordial é o sonho. O slogan do programa distribuído na porta do teatro diz que é o sonho e a liberdade (mas dê um desconto nessa parte da liberdade, que ela fica subliminar demais na montagem). O tema “sonho” perpassa as realidades vividas por personagens coadjuvantes como violência urbana, abuso sexual, ecologia, questões familiares e morte.

Está tudo isso no palco, um espetáculo poético que dura 55 minutos. Um tempo ótimo de duração de uma peça infantojuvenil, pois as crianças que estavam presentes na estreia pareciam muito interessadas na história e nem um pouco impacientes com o desenrolar dela. O tempo da trama é dividido com algumas músicas muito bonitas compostas por Isaar. O cenário é inteligente,  funcional, tem tudo a ver. O figurino, nem tanto. É simplezinho. A personagem da avó, particularmente, está com um figurino que destoa de uma possível vovó moderna (como o tema é atual, a roupa da vovó poderia ser menos prosaica ).

Foto: Ângulo cinematografia

Foto: Ângulo cinematografia

Mas isso não tira o brilho da peça. Um resumo, para situar o leitor: “O Menino…” conta a história de Vito, que insiste em saber qual é o sonho das pessoas que vai encontrando pela vida. Vito é criado pela avó e pelo tio, pois é órfão. No dia anterior ao aniversário, ele sai por aí com uma gaiola. Em vez de passarinhos, coloca papéis escritos com o sonho das pessoas. No caminho, ele encontra um mendigo que teve o rosto queimado; uma menina que sofre abuso sexual e pescadores que só retiram lixo do rio.

Apesar dos temas pesados, temas espinhosos, a peça tem leveza. O diretor soube encontrar alternativas dramatúrgicas à altura do seu talento. Leve-se em conta que Samuel é um diretor premiado, sabe muito bem o que está fazendo. E Cleyton não caiu na armadilha de mandar recados através do texto de teatro, nem se arriscou naquela coisa pedagógica que transforma texto de teatro em debate de assuntos sociais. Nada disso. O que está em cena é teatro feito por quem entende.  Desde o início do espetáculo, com o aquecimento dos atores no palco, que estabelece um clima descontraído. Até a cena final (essa, de efeito cena discutível).

cartaz

Os atores estão bem. Se há alguma falha, não dá para dizer, pois estreia não é a melhor ocasião para julgar a composição de um personagem. E, ao longo da temporada, todos tendem a crescer. ´Mas, registre-se, que as duas atrizes, Ana Souza e Auricéia Fraga, passam verdades em suas interpretações. Os dois atores que fazem os pescadores Damásio e Domásio, no caso Eduardo Japiassu e Márcio Fecher, protagonizam as melhores cenas do espetáculo. Com certeza são aquelas cenas, engraçadas e ao mesmo tempo de denúncia, que ficam mais presentes na cabeça do espectador.

Que venham outras boas surpresas escritas por Cleyton. E dirigidas por Samuel!

Ficha Técnica
Texto: Cleyton Cabral/ Direção: Samuel Santos /Elenco: Evilasio de Andrade, Auricéia Fraga, Márcio Fecher, Eduardo Japiassu e Ana Souza /Trilha sonora: criação original da cantora e compositora Isaar, que buscou inspiração no próprio filho e construiu tudo com a sonoridade de brinquedos, além da voz, flauta, violino e didgeridoo, instrumento de sopro.

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Olivier e Lili ou Leidson e Fatinha, amplificados, por Cleyton Cabral

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Cleyton Cabral, por Duda Martins: Era o seguinte: por todos os teatros que eu passava, esse cara estava. Seja a peça qual fosse, ele estava ali para assistir. Aí você me pergunta: obervadora demais, você, não? Não. Um cara com três metros de altura, que é tão louco assim pelo teatro, é de chamar atenção. Depois eu descobri sua outra faceta, quando, de repente, cheguei ao Teatro Capiba e ele encarnava um dos personagens em As suas mãos, onde estão? Não era mais espectador, era ator. Depois li o blog Cleytudo e não era mais ator, mas escritor, poeta e etc. Definitivamente, Cleyton é múltiplo. Agora, ele volta a ser um mero espectador e se derrete pela montagem Olivier e Lili, com direção de Rodrigo Dourado. Sua leitura, enriquecendo o teatro pernambucano.

Cleyton

Com quase dois metros de bom humor, Cleyton Cabral espalha suas habilidades pelo teatro, literatura e publicidade – não necessariamente nessa ordem, mas depende do cachê. Assina o blog cleytudo.blogspot.com e a coluna Da cabeça ao cóccix no interpoetica.com.

Leidson e Fatinha, amplificados.

Por Cleyton Cabral

Um sábado de janeiro. Adentrei o Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife, com dezenas de espectadores, para assistir ao espetáculo “Olivier e Lili: uma história de amor em 900 frases”. Fomos recebidos pelos atores Leidson Ferraz e Fátima Pontes.

“-Leidson é punheteiro”; “-Fatinha é frígida”; “-Leidson é um pavão”; “- Fatinha é uma mãe”; “-Leidson é rancoroso”; “-Fatinha é divertidíssima”.

Em “Olivier e Lili…” nada é seguro e tudo está fora de ordem. E, como mero espectador, eu acho isso o máximo. Logo que entramos no espaço do jogo somos surpreendidos pela dupla vomitando pinceladas de suas personalidades. A estrutura narrativa e fragmentária – dramaturgia de tópico – se assim posso dizer, desestabiliza o sentido de profundidade e entrega à plateia uma sensação de superficialidade. Esta dramaturgia não dramática tão cara às formas contemporâneas, segue um caminho oposto aos modelos tradicionais de construção das personagens. Ordem lógica? Estabilidade? Explicações tardias no enredo? Quem for esperando esse teatro vai dançar.

Para começar, o texto é todo composto por mini monólogos como tweets. Através de frases curtas e rápidas, as personagens se intercalam para narrar na terceira pessoa as histórias de vida dos artistas franceses Elizabeth Mazev e Olivier Py. Mas o espetáculo mistura reflexos das identidades dos franceses com as dos intérpretes pernambucanos Leidson Ferraz e Fátima Pontes. As vidas em jogo colocam em questão os limites do real. Nunca sabemos se o que os atores estão dizendo é real ou fictício. Os atores constroem e detonam a cada minuto, nesse jogo de personagem/performer. Eis aí, os deslizamentos de sentidos. Ponto para este teatro que chamam de “contemporâneo”.

O espetáculo é costurado por conexões referenciais as mais diversas para compartilhar memórias íntimas das personagens. Assim, ficamos a par de particularidades dessas quatro figuras. E sim, cruzamos com nossas próprias memórias. O cenário pensando por Júlia Fontes está a favor da encenação. Um imenso quadro-negro com rabiscos e dezenas de cartas e fotografias reforça a ideia de inventário de memórias. Como estamos escrevendo nossa história na grande escola da vida? O quadro serve também de suporte para projeções de Elizabeth Mazev e Olivier Py. Eles “falam” para o público de seus procedimentos artísticos. É muito prazeroso ver dois atores – Leidson e Fatinha – preenchidos de intensidade e ao mesmo tempo leveza em cena.

Você se lembra dos seus primeiros brinquedos? E do primeiro amor? E do quintal da sua casa? Ser confundido com goiabas, mangas, pitombas nas árvores. E as brincadeiras de rua? O primeiro beijo, o primeiro fora? E aquela perda irreparável? Uma história de amizade sob a ótica do amor. Sem ser cafona. De deixar o sorriso largo e o coração apertado. Eu saí do teatro com a força de um touro e a leveza de uma borboleta.

“Olivier e Lili: uma história de amor em 900 frases”. Uma das melhores surpresas da cena teatral recifense em 2012.

Ficha técnica: Texto: Elizabeth Mazev, baseado em “Les drôles: un mille-phrase”. Tradução: Rodrigo Dourado e Wellington Júnior. Adaptação, direção e produção geral: Rodrigo Dourado. Dramaturgismo: Wellington Júnior. Preparação de elenco: Marianne Consentino. Direção de arte: Júlia Fontes. Maquiagem: Gera Cyber. Iluminação: Játhyles Miranda. Direção musical: Marcelo Sena e Rodrigo Dourado. Imagens e vídeos: Márcio Andrade. Operação de Som: Marcelo Sena e Ju Torres. Montagem de luz: João Paulo, César Jeansen e Nadjackson Lacerda. Contrarregra: Fábio Pochard. Treinamento corporal: Anne Gomes. Oficina de voz: Carlos Ferrera. Produção executiva: Luciana Barbosa. Assistência de produção e elenco: Fátima Pontes e Leidson Ferraz. Fotografia de Camila Sérgio.