Avental sujo de ovo, por Tiago Gondim

Foto: Alex Hermes

Foto: Alex Hermes

Avental sujo de Ovo

Tiago Gondim é estudante do Curso Produção de eventos. Ator há 10 anos. Formado pelo Sesc. Com cursos por todo Brasil e fora do Brasil. Tem como foco de pesquisa a comédia, especificamente o estudo da improvisação (método de Keith Jonhstone) e do Clown. Professor de Improvisação. Ator, Diretor e Produtor do Grupo de Humor e Improviso Os Embromation, que existe há 5 anos. Participou de mais de 15 espetáculos em todo o Brasil. Atualmente está no elenco da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, do espetáculo O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, e do espetáculo infantil Como a Lua.

Tiago Gondim é ator há 10 anos. Formado pelo Sesc. Com cursos por todo Brasil e fora do Brasil. Tem como foco de pesquisa a comédia, especificamente o estudo da improvisação (método de Keith Jonhstone) e do Clown. Professor de Improvisação. Ator, Diretor e Produtor do Grupo de Humor e Improviso Os Embromation, que existe há 5 anos. Participou de mais de 15 espetáculos em todo o Brasil. Atualmente está no elenco da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, do espetáculo O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, e do espetáculo infantil Como a Lua.


Por Tiago Gondim

Simplesmente um lindo espetáculo, fui remetido às lembranças da minha avó e minha mãe, exemplos de amor. E é sobre este sentimento que o espetáculo fala: o Amor. Amor pela família, de pais pelos seus filhos, de filhos pelos seus pais, o não correspondido, e a falta dele nas pessoas, no mundo, traduzida pelas formas de preconceito, discriminação, etc.Uma história simples, mas que trata com delicadeza de um assunto tão polêmico: a homossexualidade. Apesar de vermos este assunto sendo tratado com mais frequência, ali ele toma um caráter especial por estar inserido num cenário tradicional da família do interior nordestino que tem uma maneira toda particular de ser. Se diferenciando dos demais “modelos” visto no nosso país. Naquela situação vimos que o amor por um filho faz com que a interpretação da realidade seja menos pesada, tudo isso para que ele fique e a saudade se vá.

Ver em cena interpretações simples, carregadas e convincentes, onde o tempo todo as personagens chamam a plateia a viver com elas aquele momento, verem ali no palco suas mães e avós, e mais que isso, nos sentimos quase como amigos da família. Os atores trabalham com focos onde não precisam diálogos, olhar nos olhos do outro ator pra dizer.

Avental-todo-sujo-de-ovo

 

O que fica claro que eles nunca estão sós em cena e sim com a plateia também. Buscam outros olhares, os da sociedade. Um trabalho de ator bastante físico e ao mesmo tempo pobre, mas no sentido simples de dizer. Cenário, figurino, interpretação simples, porém muito fortes na emissão da mensagem e suas intenções. Todas as cores do espetáculo trabalhado nos tons e sobre tons da cor da gema do ovo, o que me traz várias analogias da vida com signos e símbolos apresentados.

Era uma vez…Grimm, por Lívia Lins

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Lívia Lins é jornalista e se dedica ao teatro há quase 15 anos como atriz

Lívia Lins é jornalista e atriz.

Era uma vez…Grimm

por Lívia Lins

Começo dizendo que meu desejo maior no final daquela noite era voltar a ser criança, não porque como adulta não pude apreciar a obra, mas tenho certeza que como criança, teria mais sensibilidade para receber aquele presente. Mas enfim, já passei da infância há muito tempo, e cá estou para dar as minhas impressões do espetáculo. Ah sim, assisti a montagem para adultos.

Música erudita e contos de fadas, já temos uma novidade! Pelo menos para mim, esta foi a primeira coisa que me chamou atenção, e graças a Deus não me decepcionei, o casamento foi lindo. Uma mini orquestra recifense, impecável, fez a cama para as quatro vozes em cena, uma dádiva para meus ouvidos.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Mas a beleza não para por aí, os meus olhos também apreciaram a sombra de um lobo, o sangue projetado nas páginas de um livro gigante, um figurino que correspondia a minha imaginação, um cenário lindo, feito com muita delicadeza, que surgia e sumia, mas que infelizmente na apresentação que assisti, houveram algumas falhas consideráveis na execução. Vazava em cima, emperrava embaixo, mas não me foi tão penoso. A luz também não favoreceu algumas cenas, porque não pude ver o rosto dos personagens.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Destaco a narrativa feita pelos próprios autores dos contos. Uma aula de história entre as estórias, não é a toa que o nome do espetáculo leva o nome deles. Não conhecia o conto de Junípero, e acho que fui apresentada a ele de uma maneira encantadora, apesar da tragédia. Mas confesso que gostaria de ter assistido “Chapeuzinho Vermelho” na íntegra #ficaadica!

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Sobre as atuações, não gostei de todas, uma delas, por sinal, me incomodou de verdade. As “irmãs” de Cinderela. Tudo bem que eram homens imitando meninas, mas não precisava das caras e bocas próprias de personagens afeminados da dramaturgia. Humor forçado. Clichê.

A peça termina com os irmãos em cena, gratos porque ainda vivem atráves da suas obras. “Os contos ainda reúnem as pessoas em volta do fogo…e eles continuaram vivos enquanto ainda se acreditar na fantasia.”

FICHA TÉCNICA

Texto e Letras: José Mauro Brant (baseado na obra dos irmãos Grimm)/Música Original e Direção Musical: Tim Rescala/Direção: José Mauro Brant e Sueli Guerra/Supervisão: Miguel Vellinho/Elenco: José Mauro Brant, Wladimir Pinheiro, Janaina Azevedo, Chiara Santoro/Cenografia e figurino: Espetacular! Produções & Artes – Ney Madeira, Dani Vidal & Pati Faedo/Iluminação: Paulo César Medeiros/Desenho de som: Fernando Fortes/Animação gráfica: Renato e Ricardo Vilarouca/Ilustrações: Rui de Oliveira/Projeto Gráfico: Maurício Grecco e Úrsula de Mello

Mariano, irmão meu ou Peça transborda poesia em cena, por Vinicius Vieira

Mariano (01)

Foto: Divulgação

Vinicius Vieira (PE) é ator, maquiador e estudante de jornalismo. É formado pela Escola SESC de Teatro e desde 2009 integra a Cênicas Companhia de Repertório. Participou de diversos espetáculos, entre eles: Escola de Meninas (2007), De uma Noite de Festa (2009), Pinóquio e suas Desventuras (2009) e Senhora dos Afogados (2010). Em 2011, participou do Seminário Internacional de Crítica Teatral na função jovem crítico. Também ministrou aulas de teatro na Escola de Artes Hipérion e no Espaço Cênicas.

Vinicius Vieira (PE) é ator, maquiador e estudante de jornalismo. É formado pela Escola SESC de Teatro e desde 2009 integra a Cênicas Companhia de Repertório. Participou de diversos espetáculos, entre eles: Escola de Meninas (2007), De uma Noite de Festa (2009), Pinóquio e suas Desventuras (2009) e Senhora dos Afogados (2010). Em 2011, participou do Seminário Internacional de Crítica Teatral na função jovem crítico. Também ministrou aulas de teatro na Escola de Artes Hipérion e no Espaço Cênicas.

Peça transborda poesia em cena
por Vinicius Vieira

É no encontro com as múltiplas faces da ausência que surgem as histórias fantasiosas, mas, também, a busca pela verdade. Em Mariano, irmão meu, espetáculo do grupo Engenho de Teatro (PE) os personagens vivem este tipo de realidade.  O contexto repleto de dificuldades (a pobreza que limita, a insanidade que amedronta e o abandono consumidor) dá margem ao sonho e às ações de afeto, mesmo quando a expressão de cuidado parece duvidosa. É nessa miscelânea de sentimentos conflitantes que a dramaturgia é transformada em poesia da cena.

A direção de Eron Villar, que também assina a iluminação do espetáculo, opta pela simplicidade que permeia tanto os elementos cenográficos quanto a linha de interpretação dos atores, com economia nas movimentações e na gestualidade. As personagens são apresentadas em contornos psicológicos bem delineados e se entrelaçam a soluções que exploram a teatralidade como: a manipulação de uma boneca, o teatro de sombras e o diálogo, em momentos pontuais, com a plateia, quebrando a quarta parede em pequenos círculos de luz e isolamento.

O texto, ora falado, ora cantado, é dito com bastante propriedade pelos atores. É também no silêncio que acessamos uma infinidade de sensações e visualizações, resultado de um elenco afinado. Talvez, poderia haver um cuidado maior nas palavras ditas pela personagem Augusta, interpretada pela atriz Ana Cláudia Wanguestel. Na maioria das vezes, ela se mantém em um mesmo registro, o que impossibilita o jogo de inflexões e entonações que revelariam mais sobre esta mulher, aparentemente guiada pela razão.

Em cena, os atores Ana Claudia, Tatto Medinni e Alexsandro Souto vivem núcleo familiar desestabilizado

Foto: Divulgação

A dramaturgia de Alexandro Souto Maior, também ator na montagem, é sensível e inteligente. O autor utiliza-se da narratividade para entrecortar a história de Mariano com recursos metafóricos. Este mecanismo é utilizado para refletir, poeticamente, sobre as ações das personagens, enquanto alguns ajustes de cena acontecem.

Ao interpretar o protagonista que dá nome à obra, Tatto Medinni mostra-se um ator habilidoso. Consciente do risco de cair no histriônico, ele nos proporciona uma interpretação sensível ao desvelar os anseios e os temores de Mariano, uma pessoa com problemas mentais que sonha em se encontrar com a mãe viajando além-mar. Sua instabilidade, insegurança e, às vezes, paranoia, nos aproxima desse ser extremamente humano.

Os figurinos, adereços e o cenário foram criados pelas mãos talentosas de Java Araújo. A cenografia é funcional e traz soluções criativas. Três “blocos de madeira” distribuídos um ao lado do outro no fundo do palco, transformam-se em símbolos que auxiliam na construção dos ambientes. Tudo com alterações sugestivas complementadas pela imaginação da plateia.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O espetáculo explora questões universais, caras ao ser humano, como: a solidão, a liberdade, a rejeição, a busca pelo sonho e a frustração de não alcançá-lo. Sem ser panfletária, a peça problematiza ainda a loucura, o uso banalizado de calmantes e as políticas de saúde pública que não amparam, como deveriam, a população.

Entre a palavra e o silêncio das relações em cena, ficam as respirações profundas, a mente que vagueia enquanto acessamos, em uníssono, sentimentos análogos aos que surgem no palco. E no vazio de situações sem respostas, tocamos a nossa essência e nos perguntamos, assim como Damião questiona a sua tia: “o que somos?”.

 Assista ao vídeo do espetáculo

 http://www.youtube.com/watch?v=YF-PWID2RC4

Saiba mais

 Em setembro deste ano, o grupo pernambucano Engenho de Teatro comemora 15 anos de atuação. No repertório da companhia estão os espetáculos: O terceiro dia (2002), Nero (2004), Luzia no caminho das águas (2006) e Meninas de engenho (2009). Em 2011, o texto, Mariano, irmão meu, inspirado na estética de Guimarães Rosa, conquistou os Prêmios Literários da Cidade de Manaus.

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’, por Luciana Lyra

Foto: Marcio RM

Foto: Marcio RM

 

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas, do Departamento de Artes Cênicas, Educação e Fundamentos da Comunicação em Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), é pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN)  É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN). É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’

por Luciana Lyra

Querida Ceronha,

No último verão europeu estive em Paris sentindo o calor a penetrar ideias tantas. Em caminhadas cheias de suor e deslumbramento, deparei-me com o casarão preservado, charmoso e imponente na Rua Varenne, o antigo Hôtel Biron, que hoje sedia o Museu Rodin, com um acervo imenso e publicamente reconhecido de 300 obras. No seu interior, esculturas, jardins,  restaurante e uma pequena sala dedicada à Camille Claudel, dita, ‘aprendiz’ e ‘amante’ do grande escultor.

Depois de vagar pelo museu e tomada por torções e expressões de corpos de pedra antes posados em carne para os artistas, saí novamente às ruas em pensamentos acerca da diferença: Por que um museu inteiro é construído em torno de um ‘falo’, e apenas uma recôndita sala traz à tona poucos trabalhos de uma artista ‘envaginada’? Por que continuamos a desvelar privilégios de uma sociedade patriarcal, calando vozes femininas por séculos?

E os questionamentos insistiam em mim: mulher, artista, pensadora… Assim, fazendo perguntas, desci escadas e como pílula para angústia, tomei o metrô, fui aos subterrâneos da cidade luz, que obscurece muitas de suas mulheres. Chegando num ponto em Montparnasse Bienvenüe, subi escadas outras e surpresa, deparei-me com uma pequena praça, quase sem vida, uma ‘praça-passagem’ de transeuntes e vendedores de cerejas. Seu nome: Camille Claudel. Poderia ser motivo de regozijo ver uma praça com seu nome numa rua de Paris, mas como não lembrar de todo um museu dedicado ao seu ‘mestre’? Parecia realmente um prêmio de consolação o nome estampado em pequena praça pública, consolação para aquela que morreu na loucura e no esquecimento. A mesma canonização que sofreu Joana d’Arc, hoje padroeira da França, após anos na fogueira armada por seus próprios conterrâneos.

É deste lugar, o da indignação com a diferença, que quero começar a falar a respeito do espetáculo Camille Claudel, de sua autoria, Mm. Ceronha Pontes…

Na última quarta-feira, cheguei ao Teatro Arraial, em Recife, às 20:50h, recebendo, de pronto, a responsabilidade inferida pela produção de seu espetáculo em interferir na sua cena quando solicitada a te oferecer cigarros. Não fumo, mas o jogo me pareceu um jeito de chegar junto de sua ação, de me friccionar ao seu mundo, um mundo também de Camille. Dentro do teatro intimista, fui invadida por uma música e uma gravação, que não condiziam com as sombras dos móveis claros, da escada branca e da forte silhueta ao fundo. A música e a gravação ‘historicizada’ não acolhiam como mãe, como barro, mas desde já dominavam como violentos falos. A música escolhida e a gravação não me pareceram bons recursos para iniciar um trabalho daquela natureza. No entanto, concentrei-me na silhueta em movimento e foi assim que comecei a ser instada no universo de sua Camille. Um movimento sinuoso e feminino quebrando-se na penumbra do ar.

Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

No espetáculo, com bons cenário e figurino, uma iluminação dialógica e conduzido pela engenhosa atriz que é, somos convidados a imaginar Villeneuve, onde Camille fez-se menina, somos apresentados a Paul Claudel, seu irmão mais novo e ao seu mestre e amor Auguste Rodin. Somos especialmente tocados com a pulsão desta mulher pelo ato e pela arte de esculpir, pela busca de sua autonomia, na tentativa de romper com as diferenças e os privilégios da sociedade francesa falocêntrica.

O espetáculo nos dá pistas da vida da artista, por meio da loucura, da paranóia, do estado de solidão, de abandono e ingratidão representados no palco. Lá, vemos uma Camille potente, mas em desespero, estranha e obsessiva, querendo a morte de Rodin. Uma Camille que passa a delirar sobre seu passado, sobre a sua mãe a impedindo de ser uma artista e sobre as lembranças ruins decorrentes da ausência de reconhecimento a sufocar.

Foto: Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

Não há dúvidas, que a cena de Camille Claudel é meritória. E o maior valor é justamente dar voz ao abandono e à diferença. Sua Camille Claudel, Mm. Pontes,  faz-nos ver, em praça pública, a mulher que de gênio, transformou-se em paranóica, esquizofrênica, louca, abatendo-se física e psicologicamente. Vemos a Camille que não mais se alimenta e desconfia de todas as pessoas, achando que todos a matarão, e a culminância de sua internação em manicômio a sublinhar a discriminação. A contundência e a grandiosidade do talento de Camille estavam sim, entre a figura legendária de Rodin e a de seu irmão, que se tornou um dos maiores expoentes da literatura de sua geração. À ela, o lugar menor, a loucura e o esquecimento, que a sua cena traz à representação.

Foto: Camila Sérgio

Foto: Camila Sérgio

No entanto, apesar do grande mérito de retrospecção da genial artista, pela competência de uma atriz e de seus pares, o espetáculo encontra sua fragilidade, a meu ver, exatamente na fundamental relação entre atriz e personagem. Percebo que Camille Claudel, o espetáculo, poderá encontrar mais potência, se desvelar não só as suas habilidades de representação da escultora, Mm. Pontes, mas as suas camadas pessoais e primevas que impulsionam a sua identificação com a dita personagem. Pode haver uma poderosa convulsão, quando a personagem Camille tornar-se persona de Ceronha, tornar-se uma máscara ritual de você mesma, o que ainda não acontece.

Em Camille Claudel, a personagem ainda se revela num estado e num tom de representação e não de experiência de estados, o que se faz sentir num registro didático e histórico que, por vezes, adentra à atuação e também à dramaturgia. Apesar de sua mãe ser motivo de dedicação de sua cena, fato que poderia vazar enquanto potência e impulso do seu eu artista, prevalece o teor representativo da cena. Penso que a dissolução do espaço à italiana, tão expositivo das formas, pode ser salutar numa revisão de seu espetáculo, Mm. Pontes, compartilhando mais de frente com o espectador, tomado como cúmplice presente do abandono. Talvez a música e o canto próprios possam também revelar o gênio criativo de uma atriz sob à máscara, mais do que uma gravação datando fatos ou uma música de época definida.

Foto: Marcio Resende

Foto: Marcio Resende

Sim, quando cheguei ao Teatro Arraial e fui convocada a te oferecer cigarros, quis ver uma relação umbilical de uma atriz com sua personagem, mas isso ainda não se estabeleceu. O que vejo ainda é o ‘disfarce’, a ‘cadela sem tetas’ da escultura, uma boa atriz sob uma máscara da ficção. Sim, como atriz que também sou, sinto que já freqüentei o ‘inferno’ e falo deste lugar para você. Se o Deus, macho que é, voou! Fumemos juntas à revolução das deusas. Revolução esta que pode começar na fri(c)ção entre atriz e personagem, não na representação ficcional desta, mas na construção de uma persona. Talvez seja a hora de abdicar da máscara de ‘atriz’, para assumir as tetas de uma ‘pessoa’, uma perfomer na leitura da alteridade, um jogo de espelhamento onde não se sabe em que lugar começa a atriz e a personagem termina. Que Camille encarne sua Fortaleza e sua Fortaleza seja a carne de Camille. Assim pode tecer uma renda mais firme, uma trança que liga a genial escultora francesa à talentosa atriz cearense, acolhida pelas terras pernambucanas. Penso que na força desta trama, reafirmamos que nós mulheres não somos habitantes dos museus, gritamos nuas nas grandes praças públicas, vagamos em florestas sujas do barro primeiro, somos cadelas selvagens com tetas expostas e orgulhosas de nossa arte. Por fim, assumimos todas as artes de ser mulher.

Com imenso carinho e

reconhecimento sincero de sua ousadia,

Mm. Luciana Lyra

Dzi Croquettes, por Duda Martins

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

corte

Jornalista por formação, blogueira por opção e atriz de corpo e alma. Idealizadora do blog Meros Espectadores. https://merosespectadores.wordpress.com/quemsomos/

 Dzi Croquettes

por Duda Martins

Cubro o Janeiro de Grandes Espetáculos há cinco anos, dos 20 que o festival está comemorando. Até agora, a melhor abertura por mim já presenciada foi nesta edição. A ousadia de trazer o Dzi Croquettes ao Santa Isabel foi uma decisão acertada dos coordenadores. Aquele templo semissacro do teatro pernambucano quase caiu abaixo na última quarta-feira.

Vamos tentar chegar ao final do texto sem usar a palavra “irreverência”, ok? Inspirado no conjunto norte-americano The Coquettes e no movimento gay atuante na off-Broadway surgia, há 40 anos, o Dzi Croquettes (década de 70). Um grupo que levantava algumas bandeiras – principalmente a favor da liberdade sexual e contra qualquer tipo de repressão – e fazia, sim, um teatro ideológico, que tinha algo a dizer a sociedade. Esta prática, de usar o teatro ideologicamente, hoje é abolida por muitos, não sei porque. Agora é arte pela arte: ficamos cheios de estética (?) e vazios de conteúdo.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Voltando. À sua época, o Dzi teve enorme importância. Guerreou com as armas cênicas contra uma cultura vigente opressora e, por que não, burra. Fez revolução nos palcos brasileiros e lá fora. Hoje, podemos dizer que venceu. Venceu e o Brasil não é mais o mesmo, e nem mesmo o teatro brasileiro. Taí o porque de o espetáculo “Dzi Croquettes – Em Bandália” ter um quê de datado. O discurso não é mais revolucionário, nem ousado. Travesti no palco, escracho, desbunde, já vimos bastante. Tanto o Dzi quanto o Oficina, o Vivencial e até, tomadas as devidas proporções, a Trupe do Barulho já trabalharam bem esse estilo.

Definitivamente não é texto o que impressiona nesse novo Dzi. Isso, na verdade, é bem cansativo. Mais do mesmo. O que não nos deixa piscar nas quase duas horas de peça é a forma. Não apenas as dos garotos em cena, que diga-se de passagem, é maravilhosa, mas do espetáculo que causam com a sua presença. Aliás, presença de palco não falta àqueles cariocas. O espetáculo é grandioso e luxuoso: figurino, luz, trilha muito bons. Os artistas em cena arrebentam no fôlego, coreografia e talento. Em particular o Ciro Barcelos, remanescente do grupo e agora diretor da nova formação, que nos deixa boquiabertos com a sua performance.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

O musical cumpre bem sua função. Atores afinados, excelentes em movimento de corpo, atrevidos. Imagina, ficaram de pé nas cadeiras do Santa Isabel, brincaram com o público, subverteram o sistema. O Ciro Barcelos faz bem em não comparar o Dzi de antes com o de hoje. Este último veio para prestar uma homenagem. Homenagem bonita, cheia de qualidade artística, feita com coração, nostalgia e, claro, muita purpurina.

Ficha Técnica
Concepção, texto e direção geral: Ciro Barcellos/Assistência de direção e roteiro: Radha Barcellos/Direção musical: Demétrio Gil/Coreografias: Ciro Barcellos e Lennie Dale/Direção técnica: Ronaldo Tasso/Iluminação: Aurélio de Simoni/Trilha sonora: Demétrio Gil e Flaviola/Figurinos e adereços: Cláudio Tovar/Cenário: Pedro Valério/Supervisão artística: Thina Ferreira/Direção de produção: Robson Agra/Produção executiva: Anna Ladeira/Elenco: Ciro Barcellos, Demétrio Gil, Udilê Procópio, Leandro Melo, Thadeu Torres, Franco Kuster, Pedro Valério, Ricardo Burgos, Sonny Duque e Robson Torinni, com participação especial de Bayard Tonelli.