Carnaval Dell’Arte, por Nathália Sena

Foto Divulgação

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Nathália Sena é formada em Design pela UFPE, bailarina amadora desde dos cinco anos de idade, filha de Isabel Melo Coreógrafa Profissional a mais de 30 anos. Atualmente trabalha com Produção, Construção e Montagens de grandes espetáculos de Teatro e Dança para escolas particulares em Recife, através da "Senario Produtivo".

Nathália Sena é formada em Design pela UFPE, foi bailarina durante 14 anos, e hoje trabalha na “Senario Produtivo”, com produção e montagens de grandes espetáculos de Teatro e Dança para escolas particulares em Recife, junto com sua mãe, Isabel Melo, coreógrafa profissional há mais de 30 anos.

Carnaval Dell’Arte

Por Nathália Sena

Na última quinta-feira (14),  tive a oportunidade de assistir o espetáculo “Carnaval Dell’Arte”, apresentado pela CIA Pernambucana de Ballet. Um espetáculo que  propõe  através da dança, contar a antiga e clássica história do carnaval de Veneza, desembarcando na irreverência do carnaval de Pernambuco.

A peça mostra um pouco da história de amor no carnaval  Veneziano, com os personagens da Comédia Dell’Art,  Arlequim, Pierrot e Colombina. O Arlequim conquista e coração da Colombina, eles se casam e viajam de lua de mel para o o carnaval de Pernambuco, onde são contagiados pelo frevo, maracaru e bonecos gigantes de Olinda.
A produção visual estava muito bem elaborada. O cenário com painéis pintados a mão, mostrava fachadas de construções antigas. Os figurinos muito ricos em detalhes e brilhos, estavam impecáveis.

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Entre saltos e piruetas, o  ballet clássico é o grande astro da noite . Alguns números mostraram um pouco de ballet moderno e até contemporâneo, mas em sua maioria o estilo Clássico foi o mais utilizado, com toda sua técnica e elegância. Acredito que a intenção do espetáculo tenha sido exaltar esse estilo da dança, que sobrevive em meio a um cenário influenciado pela modernidade, e que vem trazendo novos olhares, novas formas e possibilidades de se expressar com o corpo.
Sem dúvida um dos pontos altos do espetáculo é a técnica e habilidade do elenco de bailarinos principais, que nos apresentaram movimentos de extrema dificuldade com toda elegância e beleza da dança. As coreografias muito bem ensaiadas e sincronizadas, em alguns momentos se tornaram um pouco longas em relação a outras, deixando pouco tempo para outros temas serem mais trabalhados.

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Nas últimas coreografias do espetáculo, é apresentado um pouco da influência moderna, com a chegada dos personagens a Pernambuco, finalizando com uma grande troça carnavalesca . Acredito que a cultura pernambucana é muito rica e poderia ter sido melhor apresentada durante o espetáculo, até mesmo através do ballet clássico, tendo em vista que foi mostrado apenas em três coreografias em um total de dezesseis.
Contudo, o espetáculo valoriza a dança, apresentando um pouco de cultura e arte para o público de várias idades e classes do Recife. Espero que sirva de influencia para que novos espetáculos sujam, e para que a arte do Teatro e da Dança sejam mais valorizados em nosso Estado.

Foto Divulgaçã

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Passando o texto: com grupo Ponto de Partida

O elenco na peça Drummond

O elenco da peça Drummond

Todo mundo sabe que gravação de espetáculo não é, nem de perto, igual assistir qualquer montagem ao vivo. O Ponto de Partida é tão bom que o primeiro espetáculo que vi deles, há dois anos, era gravado (Pra – Nhá- Terra – 2007) e foi, disparado, o musical mais bonito que vi na vida (empata com The Phantom of the Opera, do West End, que assisti ao vivo, e sim, eu gosto dos musicais estrangeiros). O fato é que o grupo mineiro de Barbacena é um fenômeno. Há 32 anos desenvolve uma pesquisa aprofundada sobre a cultura brasileira e sabe misturar teatro e música como poucos no País. Para começar, eles são originais.

Depois, fazem serviço completo com um super trabalho de formação de artistas e um lindo e espontâneo trabalho de formação de público. É responsável pela formação sistemática das crianças do coro Meninos de Araçuaí (com 40 crianças do Vale do Jequitinhonha e que já foi a Paris no ano do Brasil na França), dos alunos da Bituca: Universidade de Música Popular (escola livre, gratuita, em caráter profissionalizante para centenas de alunos de diversas cidades mineiras e cujo nome é o apelido do parceiro Milton Nascimento)”.

Essa galera, cujo elenco fixo tem mais de 20 integrantes, está no Recife de passagem, para duas apresentações (17 e 18 de agosto), no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, com o espetáculo Travessia. E eu tive o prazer de gastar uns dedos de prosa sobre essa linda história com alguns integrantes Ponto de Partida.

Da esq. para a dir. os atores Ronaldo Pereira, Érica Elke, Dani Costa e Daniela Damasceno. Foto: Lívia Lins

Da esq. para a dir. os atores Ronaldo Pereira, Érica Elke, Dani Costa e Carolina Damasceno. Foto: Lívia Lins

MEROS ESPECADORES – 32 anos, 32 montagens. Vocês não cansam não?

PONTO DE PARTIDA – (Rsrsrsrs) A gente queria ter tempo para fazer mais. Vivemos do Ponto de Partida e Para o Ponto de Partida. Estamos expandindo o Corredor Cultural (complexo cultural), que já contava com a Bituca, o teatro, e agora teremos a Casa da Palavra, que será um espaço para a literatura e também gastronomia. Além disso, o trabalho com os Meninos de Araçuaí também toma bastante o nosso tempo. Agora mesmo estamos lançando 4 CDs de um projeto chamado Presente de Vô, que inicialmente seria apenas um disco e acabou se tornando 4. Isso só mostra que a gente sempre quer mais.

ME – No Brasil, vocês são únicos no que fazem. Falo sobre a pesquisa em uma dramaturgia musicada com essência, corpo e alma brasileiros. Tudo já começou com essa ideia há 32 anos? Qual foi o ponto de partida?

PP – A geração que fundou o grupo pensou muito nisso. Era um movimento cultural. Na época eles sentiram muito essa necessidade de falar sobre o Brasil, Minas Gerais, a língua brasileira, porque desde lá se copiava muita coisa de fora. E descobriram que a música ligava tudo isso. Então quando foram atrás da cultura brasileira, descobriu-se que havia uma pesquisa imensa que poderia ser feita e até hoje a gente está nela. Nosso foco é o teatro, a música e literatura brasileira. Não é que não gostamos de Shaskespeare, mas preferimos montar Guimarães Rosa (Rsrsrsrs).

Travessia

Travessia

ME – Mas não existem, na pesquisa de vocês, referências de fora?

PP – Na verdade, como a gente faz muito musical, claro que a gente assiste. Mas a gente vê, curte, assimila e transforma. A linguagem deles é bem diferente da nossa. As maiores influências, atualmente, vêm dos próprios integrantes do grupo. Cada um traz a sua bagagem e a mistura delas interfere no fazer musical.

ME- Hoje há pouca pesquisa desta linguagem no Brasil, mas o que ou quais grupos daqui inspiram vocês?

PP – A gente viaja bastante e vê muita coisa boa. Os Fofos Encenam têm uma linha muito bacana (citaram Memórias da Cana/Newton Moreno), o Galpão. Não que sejam influencias teatrais, porque trabalham um outro tipo de teatro, mas nós admiramos muito. A Regina (Bertola, diretora do grupo) sempre diz que, esteticamente, aprendeu muito com o Álvaro Apocalypse (fundador do Grupo Giramundo) e o Antunes Filho. Quando o Ponto de Partida estava se renovando, a gente escolheu com quem a gente queria se formar. Tivemos a chance de estudar com Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Nelson Xavier, Cacá Carvalho, Jorginho de Carvalho (iluminação). Com estas pessoas aprendemos tudo o que podíamos, mas a gente não se formou pensando em ser como alguém.

Ronaldo Pereira. Foto: Lívia Lins

Ronaldo Pereira. Foto: Lívia Lins

ME – Porque o ator deve ser múltiplo? Vocês já chegaram ao grupo sabendo interpretar, cantar, dançar?

PP – Sobre ser múltiplo, nós acreditamos que para você fazer uma coisa de qualidade, tem que entender de tudo. Além de ser uma condição interessante para a sobrevivência do artista. Quem estiver mais preparado vai sobreviver melhor. No grupo, cada um entende pelo menos um pouco de cada coisa, por conta das necessidades que foram surgindo. Há pouquíssimos serviços terceirizados. Técnica, divulgação, mobilização, produção, tudo é feito por nós mesmos. Esse é um dos segredos da longevidade do grupo.

Há 10 anos o Ponto de Partida decidiu formar uma nova geração. Inaugurou a Casa de Arte-Ofício e abriu inscrições para 100 pessoas. Dessas, 30 restaram para um novo período de seleção. Restaram 15 que passaram 3 anos em treinamento . Havia uma tutoria: o aprendiz segue o mestre. Um veterano adotava um novato por um mês e no outro mês trocava-se de tutor. Dessa forma, nós passávamos por todas as áreas. No final da experiência sobraram  5 pessoas, que foram incorporados ao grupo.

Dani Costa. Foto: Lívia Lins

Dani Costa. Foto: Lívia Lins

ME – O que mais admiro em vocês é a capacidade de conquistar um público tão abrangente, heterogêneo  Vocês fazem espetáculos para a família brasileira e não para um público restrito, o que acredito ser um trabalho de formação de público que poucos grupos alcançam. Vocês pensam neste assunto quando estão no processo de criação?

PP – O tempo inteiro pensamos em formação de público. Quando a gente pensa no espetáculo, a gente pensa, em primeiro lugar, no público que pode se emocionar. Quando a gente pensa em levar a cultura brasileira para o palco, a gente quer tocar nas famílias. Assim, formamos um público muito abrangente. Montar um espetáculo exige uma responsabilidade muito grande. Mais de mil pessoas que saíram de casa para nos assistir. Alguns artistas têm o seguinte pensamento: eu quero falar sobre isso e que se dane o público. A gente tem muita preocupação em pensar em quem vai nos ver e levar um produto de qualidade. Fazer teatro no Ponto de Partida é mudar a vida das pessoas de alguma forma.  A música é determinante nesse processo. É o que liga tudo.

Daniela Damasceno. Foto: Lívia Lins

Carolina Damasceno. Foto: Lívia Lins

ME – O que vem primeiro: texto ou música?

PP – Depende do espetáculo. Se a gente se apaixonar por um autor, parte do texto. Se a gente pensar em montar um espetáculo somente musical, vamos estudar algum compositor. Mas a gente sempre trabalha com duas linguagens. O nosso último trabalho (PAR)  é um musical. Já Presente de Vô é mais texto, apesar de serem CDs.

ME – Existe algum espetáculo que vocês consideram “a cara” do Ponto de Partida?

PP – Cada um vai dizer um (Rsrsrsrs). O Beco foi um divisor de águas para o grupo.  Travessia, Viva o Povo Brasileiro, Ciganos… Qualquer um que você assistir, vai identificar que é do ponto de partida.

Érica Elke. Foto: Lívia Lins

Érica Elke. Foto: Lívia Lins

ME – A área formativa é uma característica forte do grupo. O que A Bituca e Os Meninos de Araçuaí representam para vocês?

PP – Isso é o resultado de uma utopia. Quando o grupo começou, essa formação do artista que a gente buscava, que sempre falava no final dos espetáculos, começou a se concretizar. A Bituca partiu de uma demanda dos próprios músicos. Nós pesquisávamos o que faltava e tentávamos investir nisso. A maioria formada na Bituca já está inserida no mercado de trabalho.  Os Meninos eram pobres estruturalmente, mas muito ricos em talento. Hoje eles têm 15 anos de carreira, já são conhecidos em vários lugares do mundo, em alguns até mais do que nós.

Pra-Nhá-Terra

Pra-Nhá-Terra

Meninos de Araçuaí no Pra-Nhá-Terr. Foto: Rodrigo Dai

Meninos de Araçuaí no Pra-Nhá-Terra. Foto: Rodrigo Dai

ME – De dois a três anos, o Brasil passou pelo famoso “boom” de musicais, principalmente entre o eixo RJ-SP. Infelizmente, muito do que se produz é adaptação ou até reprodução dos grandes musicais de fora. O que está faltando para investir na cultura brasileira?

PP – Eles dão o que a massa pede. Por esses dias, está acontecendo a premiação Bibi Ferreira, que é só de musicais. Se você pegar a lista de indicados você vê que a maioria é franquia. E o termo é este mesmo. Eles importam não só os textos, mas os artistas, atores, bailarinos, e fazem tudo com lei de incentivo. É mais fácil pegar uma fórmula pronta. Mas, olhando por um lado bom, pelo menos estão começando a valorizar os musicais de origem brasileira, como, por exemplo, Gonzagão – A Lenda (João Falcão), o Tim Maia (Nelson Motta).

PAR

PAR

Um olhar sobre “Círculos que não se fecham… Experimento n.1″, por Galiana Brasil

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

círculos

Galiana Brasil é atriz, graduada em artes cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco. Atua como gestora cultural no Sesc, onde desenvolve ações de coordenação pedagógica, há dez anos compõe o grupo de curadores nacionais do projeto Palco Giratório.

Um olhar sobre “Círculos
que não se fecham… Experimento n. 1”

Por Galiana Brasil

Qualquer passagem minha pela terreira da “Escola Pernambucana de Circo – EPC” sempre me deixa algo de especial, marcante. Porque o lugar é bonito, agradável; as pessoas são receptivas, calorosas e sempre há algo surpreendente acontecendo. Foi assim em todas as vezes que assisti a espetáculos, fui a festas, ou simplesmente cheguei para uma reunião administrativa (daí saía da sala para um xixi ou um café e me perdia no tempo observando o trabalho dos educadores com as crianças da comunidade). Porque em qualquer momento ali, há vida. Há “processo”. A EPC é um espaço permanente de transformação, de criação artística independentemente de editais, escancarando a ausência de política pública – aliás, assustadoramente há anos sem apoio nem financiamento contínuo de nenhuma ordem.

Se em tempos de desordem sangrenta, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, brechtianamente falando, há algo de revolucionário nesse espaço permanentemente aberto: chamando as pessoas à reflexão, promovendo debates, mantendo a plenária acesa acerca, principalmente, das questões relacionadas à juventude marginalizada e, como se não bastasse, promovendo o contato com a arte através de uma linguagem que, dentre aquelas que compõem as artes cênicas, também corre à margem – o circo. Basta procurar, dentro dos parcos programas existentes, as linhas de financiamento a ele destinadas, basta um olhar atento para as ações culturais promovidas na cidade, no estado, para entender porque não é arbitrário falar de uma hierarquização, de um tratamento desarmônico que tanto atrapalham o crescimento e a difusão dessa arte. Não que haja um cenário forte para o teatro ou a dança – muito longe disso! Mas que, dentre essas, o circo é o mais desprestigiado, isto é notório.

Foto: Marcelo Lyra

E é nesse contexto que sobrevive a EPC, donde nasceu a Trupe Circus que já acumula diversos trabalhos na bagagem, da qual se origina o experimento batizado “Círculos que não se fecham”. Construído em forma de processo colaborativo, é visível a autoria dos intérpretes que participam ativamente da criação, afinal, como bem explicitado no programa, assinado por Fátima (Fatinha) Pontes – que também assina o roteiro e a encenação -, são as suas experiências de vida, seus olhares, suas inquietações que dão o mote do jogo. Além disso, faz parte da forma de trabalho da Escola a divisão de tarefas, a opção pelo coletivo. Junto com Fátima assinam a direção do trabalho Maria Luiza Lopes e Anne Gomes. Impossível não destacar artistas como Allison Santana e Hosani Gomes, ingressos na EPC ainda adolescentes, hoje artistas reconhecidos, formadores da equipe docente, assim como Blau Lima, coordenador pedagógico que, neste Círculos…, executa a sonoplastia, grande parceiro de Fatinha na longa jornada de concepção e manutenção dessa escola.

O espetáculo que assisti na noite do último sábado, na sede da EPC, se distanciou da primeira montagem que guardava desperta na memória. Houve mudanças, e essas são um movimento natural, ainda mais num processo de jovens artistas, estimulados pela própria EPC que tantas oportunidades lhes proporciona – uns saem, outros chegam, é a punção da vida, mais um círculo que não se fecha. Comprometedoras, a meu ver, foram algumas escolhas que vão tecer a poética da cena, recursos visuais, sonoridades. Discursos ativos pungentes. Adentro com cuidado nesse terreno, mas sinto que preciso fazê-lo, porque acredito que a indiscutível ação social da EPC não pode ser reverenciada em detrimento de sua atuação artística. A trupe Circus é o braço artístico desse tronco – essa é a sua origem, é o que tem sido visto em suas produções, e é assim que me relaciono com ela.

A opção da montagem em falar de um roteiro no lugar de texto é bem ajustada à proposta que se apresenta, porém, paradoxalmente, a trilha sonora surge como dramaturgia, tal o espaço a ela garantido. Muitas vezes, os artistas parecem apenas ilustrar o que é dito nas letras, tamanho o poder que é oferecido a essas. Aí se perde uma oportunidade grande de problematizar, ultrapassar a seara do que já está dito, e o espetáculo acaba reforçando uma indústria massificadora, quando não oferece espaço para o subjetivo, para o não-dito. De fato, num trabalho em que a música se faz fio condutor a esse nível, a atuação de um profissional da área contribuiria bastante.

 Não se trata aqui de desconsiderar os referenciais trazidos pelos jovens – ao contrário. Eles existem, são fortes e é deles que se vai partir, porém, também faz parte dos processos artísticos desestabilizar o que está posto, desconfiar do que nos é apresentado como única opção, revirar, brincar com isso, para que as pessoas, os públicos possam também fazer outras leituras, obter novos significados, e não continuar se relacionando da mesma forma. Ouvir a mesma coisa de uma forma diferente para ampliar seu nível de percepção, ainda que isso aconteça pela via do estranhamento.

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

Uma cena que perdeu muito de sua poesia e carga dramática foi a tão reverenciada cena do triângulo amoroso no trapézio. Há um descompasso na composição dos personagens, há um estranhamento indisfarçável causado pelo figurino dos meninos, e, sem dúvidas, pela opção da versão dada à música do Legião Urbana.

A cena cresce em apuro cênico na sequência do uso das drogas. A utilização dos recursos técnicos (malabares, diabolô, cores, luzes distorcidas para um efeito psicodélico que faz referência aos estados de alteração da consciência) deixa margem para outras interpretações, espaço mais que bem vindo para as contribuições de quem vê, para que possamos fazer nossas leituras.

A potência do trabalho está no ato coletivo. Emblemado pela pirâmide humana, esta é a marca maior deste trabalho, a cada nova formação, a cada base humana, vemos a força do ensemble. A cada grito de impulsão, a cada gesto de confiança no outro, vemos que esses não são apenas desenhos de cena. Esta é a prática discursiva deste grupo, seu modo de funcionar. Sua força vem da ação conjunta: isso está implícito na cena, e trata-se de um valor muito caro às artes cênicas.

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

A decência e a obstinação de Fátima Pontes à frente dessa empreitada não é de hoje que me co-movem. E assim, estou com eles numa torcida cúmplice, ainda que silenciosa, ainda que de longe, mas movo-me com eles, na direção aonde esse trabalho aponte; caminho junto, porque acredito e penso, sinceramente, que é essa força, essa rede do bem que pode mudar o mundo, a começar por mudar os indivíduos: eles mesmos, os seus, o entorno, os que chegam pra aprender, pra conhecer e ali vão ficando, se descobrindo, se tornando. É tão bonito ver o movimento de meninos e meninas que ali entram e dali saem para tantos cantos. Os que começam aprendizes e com o tempo ali estão trabalhando na formação de novos… Agora dei pra ficar olhando as crianças na plateia (completamente vidradas nos artistas) e adivinhando quem daquelas daqui a pouco estará do outro lado…

Como todo ponto de vista é sempre a vista de um ponto, este é apenas um depoimento em primeira pessoa, acerca de minha relação com a obra, uma tentativa de captar o efêmero experimentado naquela noite. Minha fala é carregada de minhas referências, do meu modo de enxergar e da forma que acredito que posso provocar o outro. Traz, ainda, a carga de afeto que me liga ao grupo, não poderia ser diferente. Espero, com tudo isso, contribuir com o crescimento do trabalho, nem que seja pela tentativa de manter aceso o pensamento crítico que tanto caracteriza esse coletivo. E de acordo com o subtítulo da peça, este é o primeiro experimento, então, que venham outros. Oxalá!

FICHA TÉCNICA:

Roteiro e encenação: Fátima Pontes

Direção: Fátima Pontes, Maria Luiza Lopes e Anne Gomes

Coreografias: Patrícia Costa

Projeto de Iluminação: Sávio Uchôa

Execução de iluminação: Savio Uchôa

Execução de sonoplastia: Blau Lima

Seleção de sonoplastia: Fátima Pontes

Arranjo musical: Orquestra Perfil (Aguinaldo Menezes, Lyzia Rocha,

Heber Melo, Elton Assunção, Rosael Pimenta, Cleiton Eleno e Dinho)

Gravação da seleção musical: Estúdio Tropical Tec (Jorge Banana)

Produção executiva: Fátima Pontes e Alexandre Menezes

Assistente de produção: Maria Luiza Lopes

Programação visual: Cláudio Lira

Assessoria de comunicação: Julia Fontes

Figurino: Júlia Fontes

Cenário: Fátima Pontes e Maria Luiza Lopes

Elenco/Trupe Circus: Allison Santana, Anne Gomes, Bruno

Fernando, Célio Santos, César Gomes, Hammai de Assis Vieira,

Hosani Gomes, Ítalo Feitosa, Marcela D´Ângelo, Michael Francisco

Torres, Ítala Rodrigues, Pablo Carlos, Thiago Oliveira.

Contra-regra: Fábio Cavalcanti

O menino da gaiola ou O menino da gaiola e da poesia, por Cícero Belmar

Foto: Ângulo cinematografia

Foto: Ângulo cinematografia

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Escreveu cinco peças infantojuvenis, sendo quatro encenadas no Recife: “A Flor e o Sol”, “A Floresta Encantada”,  “Coração de Mel” e “Meu reino por um drama”. Permanece inédita “A onça medrosa”. É autor de contos (Tudo na Primeira Pessoa e Aqueles Livros não me iludem mais), biografias e romances (Rossellini amou a pensão de dona Bombom e Umbilina e Sua Grande Rival).

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Escreveu cinco peças infantojuvenis, sendo quatro encenadas no Recife: “A Flor e o Sol”, “A Floresta Encantada”, “Coração de Mel” e “Meu reino por um drama”. Permanece inédita “A onça medrosa”. É autor de contos (Tudo na Primeira Pessoa e Aqueles Livros não me iludem mais), biografias e romances (Rossellini amou a pensão de dona Bombom e Umbilina e Sua Grande Rival).

O menino da gaiola ou O menino da gaiola e da poesia

Por Cícero Belmar

Há uma novidade legal em cartaz, no teatro pernambucano. Pode anotar na agenda, pois vale a pena sair de casa para levar a garotada ao espetáculo “O Menino da Gaiola”. A peça reúne muita gente boa, que entende do assunto teatro. Um texto enxuto e bacana; uma direção competente e criativa; atores, em sua maioria, bons; uma trilha sonora que vai receber prêmio, com certeza; um cenário legal; uma iluminação idem.

A palavra novidade usada no parágrafo anterior não é só porque a peça estreou neste sábado, 20 de julho. Também não é só (é também) pelo fato de este ser o primeiro texto de teatro escrito por Cleyton Cabral.  Sim, ele é mais conhecido pelas suas qualidades como ator, mas vem surpreendendo como escritor. Mas, o espetáculo tem de novidade, no teatro pernambucano, a abordagem de temas não muito comuns para crianças e jovens.

Então, novidade, no caso específico, pode ser entendido como inovador. (Licença para fazer uma consideração: há alguns anos a literatura infatojuvenil  passou a abordar temas espinhosos, cotidianos, entendendo a criança e o jovem como seres pensantes). Cleyton, que cada vez mais se dedica à literatura, achou por bem trazer essa mesma estratégia para o texto de teatro. A abordagem de temas que estão no dia a dia e que podem ser impactantes para a criança é a grande diferença de “O Menino da Gaiola” e outras peças que têm a ver com fábulas envolvendo bichinhos, contos de fadas etc.

Neste “O Menino da Gaiola”, que Samuel Santos mais uma vez comprova ser um grande diretor, o tema primordial é o sonho. O slogan do programa distribuído na porta do teatro diz que é o sonho e a liberdade (mas dê um desconto nessa parte da liberdade, que ela fica subliminar demais na montagem). O tema “sonho” perpassa as realidades vividas por personagens coadjuvantes como violência urbana, abuso sexual, ecologia, questões familiares e morte.

Está tudo isso no palco, um espetáculo poético que dura 55 minutos. Um tempo ótimo de duração de uma peça infantojuvenil, pois as crianças que estavam presentes na estreia pareciam muito interessadas na história e nem um pouco impacientes com o desenrolar dela. O tempo da trama é dividido com algumas músicas muito bonitas compostas por Isaar. O cenário é inteligente,  funcional, tem tudo a ver. O figurino, nem tanto. É simplezinho. A personagem da avó, particularmente, está com um figurino que destoa de uma possível vovó moderna (como o tema é atual, a roupa da vovó poderia ser menos prosaica ).

Foto: Ângulo cinematografia

Foto: Ângulo cinematografia

Mas isso não tira o brilho da peça. Um resumo, para situar o leitor: “O Menino…” conta a história de Vito, que insiste em saber qual é o sonho das pessoas que vai encontrando pela vida. Vito é criado pela avó e pelo tio, pois é órfão. No dia anterior ao aniversário, ele sai por aí com uma gaiola. Em vez de passarinhos, coloca papéis escritos com o sonho das pessoas. No caminho, ele encontra um mendigo que teve o rosto queimado; uma menina que sofre abuso sexual e pescadores que só retiram lixo do rio.

Apesar dos temas pesados, temas espinhosos, a peça tem leveza. O diretor soube encontrar alternativas dramatúrgicas à altura do seu talento. Leve-se em conta que Samuel é um diretor premiado, sabe muito bem o que está fazendo. E Cleyton não caiu na armadilha de mandar recados através do texto de teatro, nem se arriscou naquela coisa pedagógica que transforma texto de teatro em debate de assuntos sociais. Nada disso. O que está em cena é teatro feito por quem entende.  Desde o início do espetáculo, com o aquecimento dos atores no palco, que estabelece um clima descontraído. Até a cena final (essa, de efeito cena discutível).

cartaz

Os atores estão bem. Se há alguma falha, não dá para dizer, pois estreia não é a melhor ocasião para julgar a composição de um personagem. E, ao longo da temporada, todos tendem a crescer. ´Mas, registre-se, que as duas atrizes, Ana Souza e Auricéia Fraga, passam verdades em suas interpretações. Os dois atores que fazem os pescadores Damásio e Domásio, no caso Eduardo Japiassu e Márcio Fecher, protagonizam as melhores cenas do espetáculo. Com certeza são aquelas cenas, engraçadas e ao mesmo tempo de denúncia, que ficam mais presentes na cabeça do espectador.

Que venham outras boas surpresas escritas por Cleyton. E dirigidas por Samuel!

Ficha Técnica
Texto: Cleyton Cabral/ Direção: Samuel Santos /Elenco: Evilasio de Andrade, Auricéia Fraga, Márcio Fecher, Eduardo Japiassu e Ana Souza /Trilha sonora: criação original da cantora e compositora Isaar, que buscou inspiração no próprio filho e construiu tudo com a sonoridade de brinquedos, além da voz, flauta, violino e didgeridoo, instrumento de sopro.

As Confrarias ou Olhar o passado é defender a liberdade no presente, por Alexandre Figueirôa

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Alexandre Figueirôa (ou Fig) por Duda Martins: Sou suspeita para falar nesse post. Estão aqui, juntos, o meu objeto de trabalho de conclusão de curso, a Companhia Teatro de Seraphim, e o meu orientador. Figueirôa é fera. Sabe muito de muita coisa e não superficialmente; é expert em muitas delas. De teatro faz tempo que ele não fala, mas foi uma das vozes mais respeitadas quando existia crítica de verdade nos jornais. Durante o processo do documentário Seres Afins: Fogo e Fôlego, percebi o quanto esse cara tem a ensinar para o mundo. Com vocês, uma crítica bem feita sobre As Confrarias, espetáculo que marca a volta do CTS aos palcos do Recife. Em cartaz até o fim de junho no Barreto Júnior (para matar as saudades).

Alexandre Figueirôa é professor da Universidade Católica de Pernambuco, crítico e pesquisador de cinema e teatro. Autor, entre outros, de Cinema Pernambucano, uma História em Ciclos; A Onda do Jovem Cinema e sua Recepção na França; Barreto Júnior, o Rei da Chanchada; Transgressão em Três Atos, nos Abismos do Vivencial.

Alexandre Figueirôa é professor da Universidade Católica de Pernambuco, crítico e pesquisador de cinema e teatro. Autor, entre outros, de Cinema Pernambucano, uma História em Ciclos; A Onda do Jovem Cinema e sua Recepção na França; Barreto Júnior, o Rei da Chanchada; Transgressão em Três Atos, nos Abismos do Vivencial.

Olhar o passado é defender a liberdade no presente

por Alexandre Figueirôa

Os séculos passam e a intolerância e o preconceito fomentados pelas religiões não desaparecem. Mudam de endereço, mas estão aí batendo à nossa porta. Esse, sem dúvida, é o recado que nos passa o encenador Antonio Cadengue ao trazer para os palcos pela primeira vez a peça As Confrarias, de Jorge Andrade. O espetáculo marca ainda o retorno da Companhia Teatro de Seraphim à cena teatral pernambucana e a retomada do projeto Trilogia Brasileira, que já apresentou Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues e prevê também a montagem do texto A Morta, de Oswald de Andrade.

Não é de hoje que Cadengue demonstra ser um artista preocupado com a dramaturgia nacional no que ela pode contribuir para pensarmos o ser humano e a realidade brasileira a partir das manifestações simbólicas formadoras da nossa sociedade. As montagens de Em Nome do Desejo, de João Silvério Trevisan; A Lira dos Vinte Anos; de Paulo César Coutinho; Sobrados e Mocambos, de Hermilo Borba Filho; O Alienista, de Machado de Assis; entre outras, demonstram uma trajetória de questionamento sobre o sentido da arte, da política e da linguagem teatral naquilo que cada e gesto e palavra colocada em cena pode provocar no espectador.

Ao se debruçar na obra de Jorge Andrade, o encenador pernambucano incorpora na sua investigação estética e ideológica um dos dramaturgos mais importantes do país, um autor que fala do homem no seu sentido histórico, explorando suas vivências e suas contradições. Em As Confrarias, cuja ação transcorre no final do século XVIII no período da Inconfidência Mineira, em Vila Rica, ela se concretiza na figura de Marta uma mulher que percorre quatro ordens religiosas na tentativa de sepultar seu filho, morto por suspeita de conspiração. Os integrantes das ordens recusam o pedido de Marta, momento em que ela nos expõe os interesses econômicos, preconceitos e ressentimentos que evidenciam o pensamento conservador da sociedade colonial e da tirania imposta pela coroa portuguesa e Igreja Católica.

Foto: Divulgação / Américo Nunes

Foto: Divulgação / Américo Nunes

A peça de Jorge Andrade permite ainda a Cadengue explorar elementos que lhe são caros. O mais marcante na montagem é como a encenação privilegia as tensões barrocas sugeridas pelo texto. Cenário, figurino, movimentos, luzes e música tudo é composto para realçar uma teatralidade em que o mundo é visto como espetáculo e as dicotomias e ambiguidades exploradas são o impulso e a razão de sua existência. E esta escolha ganha ainda mais força quando o diretor ressalta o erotismo como ato de subversão política como observa a pesquisadora Catarina Sant’Anna no seu artigo de apresentação do espetáculo. Cadengue marca esse aspecto com um tratamento cênico contemporâneo, inspirado tanto na coreógrafa Pina Bausch quanto no fotógrafo Robert Mapplethorpe ao introduzir a figura de um Anjo Negro – um ator afro-descendente despido, com asas negras – que surge em cena para realçar os componentes sexuais da trama.

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Foto: Divulgação/Américo Nunes

O personagem José, filho insepulto de Marta, encarna outro elemento ao qual Cadengue dedica sempre um olhar atento: as possibilidades metalinguísticas do ato cênico. Apresentando-se como um bufão ou um jovem mochileiro moderno pronto para ganhar a estrada, o ator aqui é apresentado como símbolo da liberdade de expressão, da rebeldia e da capacidade de metamorfose tão cara ao teatro, onde a vida e a arte se confundem. Representa muito bem tal sentimento a bela cena do espetáculo em que José transforma-se no personagem Paulo de Terra em Transe, filme de Glauber Rocha, alguém que como ele confronta-se com a necessidade de entrelaçar poesia e política para seguir em frente.

O cuidado na construção de um espetáculo que se desdobra em significados requer uma complexa articulação de conceitos e referências sem que essa articulação escamoteie a essência dramática do texto, algo que Cadengue mais uma vez demonstra um domínio absoluto. O jogo teatral proposto é finamente arquitetado em cada detalhe e o elenco responde à altura aos desafios da encenação, faltando apenas alguns ajustes na projeção de voz da personagem Marta vivida por Lucia Machado, coprodutora do espetáculo, e também de Roberto Brandão no papel de José.

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Foto: Américo Nunes

No dia da estreia, um jovem espectador perguntava, após a apresentação, se o que As Confrarias trouxera à cena não seria algo óbvio e já sabido por todos. Sim, talvez seja, no entanto os fatos recentes envolvendo determinados segmentos religiosos da atualidade brasileira demonstram a necessidade de se desnudar os antecedentes históricos de nossa sociedade de modo a entender as raízes do retrocesso político e cultural revivido por esses grupos. Ninguém duvida dos horrores cometidos pelo nazismo, todavia, quantas e quantas obras de arte não trazem à tona as atrocidades do passado no impulso utópico de que isso possa ajudar para elas não ocorrerem outra vez?

Portanto, ver no palco, hoje, a peça de Jorge Andrade, escrita em 1969, no período mais violento do regime militar e que nunca ganhou uma montagem profissional, tem um valor simbólico inquestionável, e por esse empenho Lúcia Machado e a Companhia Teatro de Seraphim merecem o nosso reconhecimento. As Confrarias nos lembra que aqueles que continuam aliando a ambição pelo ouro ao falso puritanismo não hesitarão em deixar insepultos os defensores da liberdade do presente.

Serviço

As Confrarias
Local: Teatro Barreto Júnior
Rua Estudante Jeremias Bastos – Pina
(81) 3355-6398
Quando: 9 a 30/06 (Qui a Dom) – Exceto no dia 23/06
Horário: 20h
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)
Teatro Adulto / Faixa etária: 16 anos
Duração: 90 minutos

Ficha Técnica

Texto: JORGE ANDRADE /Adaptação: ANTONIO CADENGUE, LÚCIA MACHADO E IGOR DE ALMEIDA SILVA /Encenação: ANTONIO CADENGUE/Elenco: ALEXSANDRO MARCOS, BRENDA LIGIA, CARLOS LIRA, GILSON PAZ, IVO BARRETO, LÚCIA MACHADO, MARCELINO DIAS, MARINHO FALCÃO, MAURO MONEZI, NILZA LISBOA, RICARDO ANGEIRAS, ROBERTO BRANDÃO, RUDIMAR CONSTÂNCIO, TAVEIRA JÚNIOR/Assistência de Direção: LÚCIA MACHADO E DIOGO TESTA /Cenografia: DORIS ROLLEMBERG /Figurinos, Adereços e Maquilagem: ANIBAL SANTIAGO E MANUEL CARLOS /Trilha Sonora Original: ELI-ERI MOURA/Gravação da Trilha Sonora: ELI-ERI MOURA E MARCELO MACEDO (ESTÚDIO PEIXE-BOI)/Músico (Violino e Viola): RENATA SIMÕES/Músico (Tenor): EDD EVANGELISTA/Iluminação e Operação de Luz: SAULO UCHÔA E DADO SODI/Preparação Vocal: LEILA FREITAS /Coreografias, Direção de Movimentos e Preparação Corporal: PAULO HENRIQUE FERREIRA/Programação Visual: CLAUDIO LIRA/Fotografias para divulgação: AMÉRICO NUNES/Filmagem e Fotografias (Registro): ANTÔNIO RODRIGO MOREIRA/Cenotécnica: MARC AUBERT /Assistência de Cenotécnica: KLEBER MACEDO, RAFAEL FIRMINO E FÁBIO FONSECA /Serralharia: RONALDO SOUZA /Confecção de Figurinos: ANIBAL SANTIAGO, MANUEL CARLOS, MARIA JOSÉ ARAÚJO, JOSEFA DE SOUZA E SILVA, HELENA BELTRÃO, IRANI GALDINO E SUELI DA CONCEIÇÃO/Confecção de Adereços: MANUEL CARLOS, PAULA TAVARES, GABRIEL SANTOS, JERÔNIMO BARBOSA, NAGILSON LACERDA E CHARLY JADSON/Cabelos de Marta 1 e 2: IVAN DANTAS/Operação de Som: DIOGO TESTA /Maquinaria: GAGUINHO E GILVAN DESIDÉRIO /Produção Executiva: CARLOS LIRA /Assistência de Produção: ELIAS VILAR /Assessoria de Comunicação: GIANFRANCESCO MELLO/Produção: COMPANHIA TEATRO DE SERAPHIM/Direção Geral: ANTONIO CADENGUE/Realização: LÚCIA MACHADO

Alice underground ou Quem Alice se tornou?, por Mateus Amaral

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Mateus é professor, estudante de publicidade e cantor, tendo participado de diversos musicais em inglês

Mateus é professor, estudante de publicidade e cantor, tendo participado de diversos musicais em inglês

Por Mateus Amaral

“Mas eu não ando com loucos”, observou Alice.
 “Oh, você não tem como evitar”, disse o Gato, “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca”.
 “Como é que você sabe que eu sou louca?”, disse Alice.
 “Você deve ser”, disse o Gato, “senão não teria vindo para cá”.

Quando eu fui chamado para assistir essa peça eu não soubia o que esperar. Gosto muito dos livros da Alice, mas sabia que por ser uma “livre adaptação”, eu não deveria esperar nada muito parecido. Ao chegar ao teatro, já estava munido da informação de que era a segunda vez que essa peça era apresentada e que da primeira vez a venda de ingressos havia sido bem-sucedida – mesmo que o teatro não estivesse lotado no dia em que fui. [08/06]

O público parecia razoavelmente ansioso: algumas das pessoas que estavam junto a mim já haviam assistido ao espetáculo e queriam ver novamente como havia ficado [ouvi elogios aos atores e isso aguçou minha curiosidade, confesso]. A soundtrack escolhida para esperar a peça também não passou despercebida: músicas pop do dia a dia com uma roupagem diferente; mais clássica – talvez um prefácio do que estava por vir.

Ao começar a peça eu me deparei com a velha história de Alice e o coelho branco – nenhuma novidade até então: A Disney e Tim Burton já haviam começado a história também desse mesmo jeito. A primeira surpresa, no entanto, não partiu do roteiro, mas da montagem. A queda de Alice no buraco foi a primeira coisa que me fez perceber que a falta de cenário em momento nenhum atrapalha o andamento da peça – auxiliados por uma iluminação e poucos acessórios, os atores não parecem perdidos no palco.

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No desenrolar da história, vários outros personagens são apresentados em versões pouco romanceadas. No início da peça, a lagarta é a personagem que induz Alice a fumar “ervas mais naturais” [sem o auxilio do narguilé]. Por esse fato já é possível imaginar – se o título não for claro o bastante – que o tipo de jornada que Alice passa no País das Maravilhas é uma jornada diferente. Uma jornada underground.

Um dos grandes focos de Alice – tanto enquanto personagem ou como peça – é a questão do “Quem sou eu”? Questão perguntada logo no início, e que é respondida no decorrer da peça. [ou é melhor dizer: Quem eu me tornei?]. Segundo o diretor, Antônio Rodrigues, a entrada de Alice no País das Maravilhas é como se uma inocente garota fosse jogada na noite de uma cidade grande. Quem ela encontraria? Como ela reagiria? E assim, como seria o crescimento dela [em analogia ao cogumelo de crescimento do livro, não citado na peça]. Se a peça tinha essa função, esta foi bem executada.

Pois é nessa circunstância que Alice conhece os outros personagens – representados por travestis, mendigos, loucos de rua e outros personagens do nosso cotidiano. Mas ao invés de mostrar o viés puramente underground, apesar do título, os personagens não são feitos de forma pesada, mas sim muitas vezes leve e brincalhona – como no caso das flores. Até mesmo carnavalizada e exagerada, como em alguns trechos do final da peça. Porém, independente do viés tomado, os personagens foram seguros, confiantes e bem construídos.

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Os personagens eram reais, mas não usuais, como no Pátio dos Milagres, onde a alegria se supera onde o underground se apresenta. Esse pode ser o tema que foi mostrado em Alice Underground. Com elementos simples, texto hermético típico de Alice e personagens muitas vezes cativantes, a peça é uma pedida diferente para uma olhada também diferente do cotidiano e da identidade.

Minha maior questão ainda é o público. A censura da peça é 16 anos, e talvez muitas pessoas achassem algum elemento da peça razoavelmente pesado. Eu gosto muito de pensar no público alvo das coisas – e isso inclui uma peça de teatro. Com um grupo realmente heterogêneo de pessoas no teatro, o target não ficou tão claro, mas caso você esteja disposto a ver algo que demonstra diferença no roteiro, segurança na atuação, fuga de lugar-comum e não se importar com meia dúzia de tabus, invista seu tempo. Você também pode se interessar em descobrir quem é Alice ou quem ela se tornou.

Sobre

Um espetáculo da Incantare Cia de Teatro
Alice fará a 2ª temporada no teatro Eva Herz – Livraria Cultura Riomar Shopping
Nas datas de 8 a 30 de junho aos Sábados 20h e Domingos 19h


Companhia

Alice Underground é uma livre adaptação da obra de Lewis Caroll “Alice no País das Maravilhas” idealizado e produzido pela Incantare Cia de Teatro

Ingressos: R$15 Meia e R$30 Inteira
Indicação Classificativa – 16 anos


Ficha técnica

Texto e Direção: Antônio Rodrigues
Assistência de direção: Ana Sousa e Bruna Castiel
Elenco: Bruno de Lavor, Miila Puntel, Deborah Albuquerque, Diego Nascimento, Guto Ferraz, Melissa Baraúna, Rachell Costa, Rogerio Wanderley e Tarcísio VIeira
Direção de arte: Antônio Rodrigues e Sônia Carvalho
Preparação Corporal: Alexandre Guimarães
Arte gráfica: Bruno Atanasio

De Íris ao Arco-Íris, por Arilson Lopes

Foto: Angélica Gouveia

Foto: Angélica Gouveia

 

Arilson Lopes por Duda Martins: Com certeza ele não lembra, mas o primeiro contato direto que tive com ele foi quando, por ocasião de um curso de caracterização ministrado por João Denys, nós, os alunos, fomos convidados a maquiar os atores que se apresentariam naquela noite no Teatro de Santa Isabel. Para o azar do coitado, eu fiquei responsável por maquiar Ari. Na minha cabeça vinha assim, enquanto passava pancake branco no seu rosto: “Meu Deus! Eu estou maquiando Arilson!”. Rebobina. Alguns anos antes disso, eu havia ficado fascinada pela interpretação desse cara em Rasif, a primeira peça que assisti do Coletivo Angu. Desde ali eu virei fã, incondicional, passei a acompanhar o trabalho e, do nada, estava ali, maquiando. Arilson é um excelente intérprete, o admiro por demais. Mas como pessoa, ele consegue ser melhor ainda e descobri isso durante aquele curto tempo de bastidor. É nos bastidores onde você conhece o ator. Humilde, gentil, prestativo, um doce. Quem conhece, sabe. Vou parar com a babação, mas preciso dizer que eu fiquei muito feliz em tê-lo como Mero Espectador. 

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Arilson Lopes é espectador, ator, palhaço e graduando do curso de Licenciatura em Teatro, da Universidade Federal de Pernambuco.

De Íris ao Arco-Íris

por Arilson Lopes 

Tida como parte da vida e aceita nas sociedades antigas com naturalidade e leveza, a morte ganhou o lugar de tema interdito ao longo do tempo. E se, para os adultos, falar de morte na sociedade em que vivemos é difícil, falar para as crianças seria uma tarefa quase impossível. Mas não para o encenador Jorge de Paula e toda a equipe do espetáculo De Íris ao Arco-Íris, que estreou no dia 18 de maio, no Recife, no Teatro Marco Camarotti, dentro da programação do VII Festival Palco Giratório Brasil, realizado pelo SESC Pernambuco.

Através do Teatro de Sombras, o espetáculo, que não possui um texto verbal, conta a história da sonhadora lagarta Íris e de suas aventuras. De lagarta a casulo, de casulo à borboleta, de borboleta a arco-íris, todas as transformações vividas por Íris são mostradas pelos atores-manipuladores, que apesar de não possuírem uma formação voltada para esse tipo de teatro, conseguem realizar com segurança toda a manipulação do espetáculo. O Teatro de Formas Animadas feito em Pernambuco nos últimos anos tem ousado bastante em suas histórias e na maneira de contá-las para as crianças. O Mão Molenga Teatro de Bonecos, em seus três últimos espetáculos (Babau, O Fio Mágico e Algodão Doce), também trouxe à cena temas tabus, como a morte, sempre com bom humor, beleza e poesia.

Segundo Jorge de Paula, essa história nasceu ainda nos tempos da universidade, quando participava do projeto Pátio da Fantasia, orientado pelo professor Marco Camarotti (1947-2004), ator, encenador e arte-educador, que fundou e coordenou o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Artes Cênicas, na UFPE, com o intuito de desenvolver projetos na área do Teatro para a Infância e a Juventude e do Teatro Folclórico. O Pátio da Fantasia dava continuidade às pesquisas iniciadas por Camarotti, com particular atenção para as crianças cegas, surdas e com deficiência cognitiva. Nesta montagem, Jorge recupera essa ideia e visa dialogar também com essas crianças. Ele conta que numa das primeiras leituras da peça, questionado sobre o fato de um texto para crianças falar sobre morte, Camarotti respondeu: “Não há problema algum em tratar da morte ou de qualquer outro tema com as crianças porque a morte faz parte da vida. Precisamos apenas encontrar a melhor maneira de fazer isso”. Demorou alguns anos, mas o desejo de encenar essa peça foi cumprido graças aos prêmios do Funcultura e do Myriam Muniz e, principalmente, à determinação de Jorge de Paula e Andrea Veruska, idealizadores do projeto.

Foto: Angélica Gouveia

Foto: Angélica Gouveia

O espetáculo é dividido em dois momentos. No primeiro momento, conhecemos a lagarta Íris e o seu sonho de brincar nas nuvens. Presa à terra, a lagarta não consegue romper os seus limites e realizar seu sonho. Íris e seus amigos insetos são mostrados através das sombras na tela branca. No segundo momento, depois de se fechar em seu casulo, Íris ganha asas coloridas e se transforma numa linda borboleta, que ultrapassa a tela branca e ganha o palco. Essa tridimensionalidade, apenas conseguida pelo vilão da história, o rei Aranha, provoca o seu ciúme e ele tenta a todo custo aprisioná-la numa gaiola junto com outras borboletas. Mas Íris não se rende ao tirano e voa alto até as nuvens. Petrificada pelo frio que faz lá no alto, Íris é descongelada por um vagalume. A água que escoa das asas de Íris em forma de chuva leva consigo as suas cores e sua vida, fazendo surgir o Arco-Íris.

É importante destacar que o espetáculo é pontuado pela trilha sonora original composta por Júlio Moraes e iluminado pelo designer de luz Eron Vilar. A criação das silhuetas das personagens e dos cenários são de Luciano Félix e a confecção das silhuetas e dos adereços tridimensionais de Henrique Celibi. Marcondes Lima assina o cenário e os figurinos.

Foto: Angélica Gouveia

Foto: Angélica Gouveia

A transformação vivida por Íris, ao longo do espetáculo, a impulsiona para seguir em busca dos seus sonhos. E nesse sentido de transformação, passagem e renascimento, a morte perde a cara feia que normalmente lhe atribuímos e recupera um lugar muito familiar no mistério da vida. Uma criança sentada na fileira atrás de mim, disse para a mãe: “Que coisa linda, mamãe!”. E eu me emocionei, tocado duas vezes: uma pela poesia que via no palco e outra pelo encantamento demonstrado por aquela criança.

A título de desculpas, não se chateie por eu ter contado o final da história, pois nada substitui o “como” ela é contada no teatro.

Confira e… bom espetáculo!

Serviço

Espetáculo: DE ÍRIS AO ARCO-ÍRIS

Produção independente (PE)

Faixa etária: Livre

Gênero: Teatro de Sombras

Duração: 50 min

Ficha Técnica

Texto dramático: Criação coletiva a partir da obra De Íris ao Arco-Íris, de Jorge de Paula/ Encenação: Jorge de Paula/ Elenco: Andrea Veruska, Iara Campos, Jorge de Paula e Lucélia Albuquerque/ Cenografia e indumentária: Marcondes Lima/ Design de luz: Eron Vilar/Design gráfico e criação de silhuetas: Luciano Félix/ Confecção de adereços e silhuetas: Henrique Celibi/ Trilha sonora original: Júlio Moraes/ Registro fotográfico: Angélica Gouveia/Direção de produção: Karla Martins (Decanter Articulações Culturais)/ Assistência de produção: Andrea Veruska/ Idealização do projeto: Jorge de Paula e Andrea Veruska