A Gaivota (em fragmentos) ou A Poesia da Gaivota, por Marcia Cruz

Foto: Adalberto Lima

Foto: Adalberto Lima

Marcia Cruz é atriz, contadora de histórias, curiosa da palhaçaria feminina e professora de teatro para crianças bem pequenas

Marcia Cruz é atriz, contadora de histórias, curiosa da palhaçaria feminina e professora de teatro para crianças bem pequenas

A Poesia da Gaivota

por Marcia Cruz

 

Recife, 05 de abril de 2014

Querido/a Espectador/a,

Recebi o convite do blog MeroEspectador para assistir e comentar o espetáculo A Gaivota (alguns fragmentos) do Grupo Piollin. Mas, é a você, Espectador/a, a quem me dirijo. Como não sou jornalista, muito menos crítica teatral, gostaria de pedir licença para lhe escrever nesse formato de carta que me dá a ilusão de uma conversa menos técnica, mais acessível a qualquer ser humano, ainda mais que, humanidade é bem a tônica da dramaturgia de Tchekhov.

 

 

 

Foto: Adalberto Lima

Foto: Adalberto Lima

Ao entrar na sala do teatro Hermilo Borba Filho, a cena já estava instalada. Os atores perambulavam de um lado para o outro dando a mim a impressão de que o jogo já havia começado, mas era uma impressão apenas. O espaço da cena desenha a amplidão e, ao longo do espetáculo, todas as possibilidades de espaços se revelam possíveis ali. Os figurinos dos atores, em tons claros reforçam em mim a amplidão proposta no espaço e me passa uma sensação de uniformidade. Com o signo do vôo de um saco plástico eu (re)significo o vôo de uma gaivota e, finalmente, o espetáculo sai do preâmbulo e o teatro começa.

Os atores em cena vão pouco a pouco revelando suas personagens recriadas a partir da dramaturgia de Anton Tchekhov. Autor genial. Digo isso porque me encanto a cada vez que releio e percebo como aquele homem conhece a fundo a matéria com que se propôs a trabalhar, o ser humano. Tchekhov não é – sim no presente – sisudo como muitos querem desenhar, não para mim. Ele brinca com o público criando situações que dão cores diferentes aos mesmos personagens, esse colorido dá um ritmo que é o pulso natural da cena no teatro e permite ao leitor/a ou a você, querido/a espectador/a, se perceber dentro do jogo.

Foto: Adalberto Lima

Foto: Adalberto Lima

Na proposta de fragmentação do grupo Piollin, sobre o texto A Gaivota, lá e cá entram alguns depoimentos da vida pessoal dos atores.  A priori, a idéia de fragmentar Tchekhov e costurar sua dramaturgia com a vida dos atores me parece uma excelente proposta, porque dialoga com o que Tchekhov propõe: apresentar personagens humanas, cheias de conflitos, de oscilações. E, porque dialoga com a contemporaneidade no teatro, dialoga com o Grupo Piollin que existe há trinta anos e naturalmente, quem resiste por trinta anos no teatro o faz por persistir em descobrir novos caminhos.

 

No entanto, a execução da proposta, a meu ver, deixa a desejar. Mas calma espectador/a, não desista assim tão fácil. Existe mérito na proposta do grupo e sugiro que siga mais o exemplo do grupo que minhas palavras. O grupo Piollin se moveu para propor algo novo. Eles saíram de suas casas, se reuniram, discutiram, trabalharam com esmero na busca de um novo olhar, uma nova encenação. Esse movimento tem muito mérito. Vale a pena querido/a espectador/ a repetir a ação do grupo, sair da mesmice, se arriscar no novo. Vale a pena ir ao teatro assistir o Grupo Piollin. Minha apreciação é apenas um olhar que analisa um fragmento de Piollin, mas tem muito a ser visto.

Foto: Alberto Lima

Foto: Alberto Lima

Vou voltar rapidamente as minhas divagações sobre o espetáculo e depois lhe deixo, prometo. Tchekhov escreveu uma comédia em quatro atos, A Gaivota. Para que a comédia se revele é preciso estar disponível para o jogo proposto pelo autor. Numa mesma personagem ele propõe diferentes nuances e esse contraponto é que dá o ritmo, a loucura, a humanidade de cada um deles. Claro que se a proposta do Piollin é fragmentar, não vejo problema algum em descartar isto ou aquilo, mas o ritmo no teatro é essencial.  Ao que me parece, a encenação não considerou essa dinâmica nas suas personagens. Seus coloridos e ritmos ficaram na superfície, nos seus traços mais gerais. Na A Gaivota- alguns rascunhos, não há conflito em Nina, não há conflito em Arcádia, os personagens se apresentam de forma linear e reforçam aquilo já está posto na cena, a uniformidade. Essa escolha dá uma densidade a cena que, a meu ver, fecha os espaços de interação do público com o espetáculo.

Foto: Bertrand Lira

Foto: Bertrand Lira

No entanto, a poesia sim está instalada. O espetáculo é indiscutivelmente belo, harmônico nas suas imagens. A entrega dos atores a cena, sua disponibilidade e inteireza para o que a encenação propõe também é algo que vale a pena ser compartilhado. Não sei bem o que te move querido/a espectador/a, mas te digo há muito mais a ser visto neste espetáculo que apenas sua proposta.  Confesso que fiquei tocada em ver na cena atores que eu não via há muitos anos. Eles estão de cabelos brancos. Tomara que eu consiga chegar lá. Tomara que eu esteja também com o mesmo fôlego, com a mesma coragem de me renovar e dar a cara a tapa como muito dignamente o faz o Grupo Piollin.

 

Se anime querido/a espectador/a. Saia deste computador, se movimente, se renove, se arrisque. A vida é risco, o teatro também. Vá ao teatro! Vá assistir o Grupo Piollin!

 

Forte abraço,

Márcia Cruz

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