As Confrarias ou Olhar o passado é defender a liberdade no presente, por Alexandre Figueirôa

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Alexandre Figueirôa (ou Fig) por Duda Martins: Sou suspeita para falar nesse post. Estão aqui, juntos, o meu objeto de trabalho de conclusão de curso, a Companhia Teatro de Seraphim, e o meu orientador. Figueirôa é fera. Sabe muito de muita coisa e não superficialmente; é expert em muitas delas. De teatro faz tempo que ele não fala, mas foi uma das vozes mais respeitadas quando existia crítica de verdade nos jornais. Durante o processo do documentário Seres Afins: Fogo e Fôlego, percebi o quanto esse cara tem a ensinar para o mundo. Com vocês, uma crítica bem feita sobre As Confrarias, espetáculo que marca a volta do CTS aos palcos do Recife. Em cartaz até o fim de junho no Barreto Júnior (para matar as saudades).

Alexandre Figueirôa é professor da Universidade Católica de Pernambuco, crítico e pesquisador de cinema e teatro. Autor, entre outros, de Cinema Pernambucano, uma História em Ciclos; A Onda do Jovem Cinema e sua Recepção na França; Barreto Júnior, o Rei da Chanchada; Transgressão em Três Atos, nos Abismos do Vivencial.

Alexandre Figueirôa é professor da Universidade Católica de Pernambuco, crítico e pesquisador de cinema e teatro. Autor, entre outros, de Cinema Pernambucano, uma História em Ciclos; A Onda do Jovem Cinema e sua Recepção na França; Barreto Júnior, o Rei da Chanchada; Transgressão em Três Atos, nos Abismos do Vivencial.

Olhar o passado é defender a liberdade no presente

por Alexandre Figueirôa

Os séculos passam e a intolerância e o preconceito fomentados pelas religiões não desaparecem. Mudam de endereço, mas estão aí batendo à nossa porta. Esse, sem dúvida, é o recado que nos passa o encenador Antonio Cadengue ao trazer para os palcos pela primeira vez a peça As Confrarias, de Jorge Andrade. O espetáculo marca ainda o retorno da Companhia Teatro de Seraphim à cena teatral pernambucana e a retomada do projeto Trilogia Brasileira, que já apresentou Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues e prevê também a montagem do texto A Morta, de Oswald de Andrade.

Não é de hoje que Cadengue demonstra ser um artista preocupado com a dramaturgia nacional no que ela pode contribuir para pensarmos o ser humano e a realidade brasileira a partir das manifestações simbólicas formadoras da nossa sociedade. As montagens de Em Nome do Desejo, de João Silvério Trevisan; A Lira dos Vinte Anos; de Paulo César Coutinho; Sobrados e Mocambos, de Hermilo Borba Filho; O Alienista, de Machado de Assis; entre outras, demonstram uma trajetória de questionamento sobre o sentido da arte, da política e da linguagem teatral naquilo que cada e gesto e palavra colocada em cena pode provocar no espectador.

Ao se debruçar na obra de Jorge Andrade, o encenador pernambucano incorpora na sua investigação estética e ideológica um dos dramaturgos mais importantes do país, um autor que fala do homem no seu sentido histórico, explorando suas vivências e suas contradições. Em As Confrarias, cuja ação transcorre no final do século XVIII no período da Inconfidência Mineira, em Vila Rica, ela se concretiza na figura de Marta uma mulher que percorre quatro ordens religiosas na tentativa de sepultar seu filho, morto por suspeita de conspiração. Os integrantes das ordens recusam o pedido de Marta, momento em que ela nos expõe os interesses econômicos, preconceitos e ressentimentos que evidenciam o pensamento conservador da sociedade colonial e da tirania imposta pela coroa portuguesa e Igreja Católica.

Foto: Divulgação / Américo Nunes

Foto: Divulgação / Américo Nunes

A peça de Jorge Andrade permite ainda a Cadengue explorar elementos que lhe são caros. O mais marcante na montagem é como a encenação privilegia as tensões barrocas sugeridas pelo texto. Cenário, figurino, movimentos, luzes e música tudo é composto para realçar uma teatralidade em que o mundo é visto como espetáculo e as dicotomias e ambiguidades exploradas são o impulso e a razão de sua existência. E esta escolha ganha ainda mais força quando o diretor ressalta o erotismo como ato de subversão política como observa a pesquisadora Catarina Sant’Anna no seu artigo de apresentação do espetáculo. Cadengue marca esse aspecto com um tratamento cênico contemporâneo, inspirado tanto na coreógrafa Pina Bausch quanto no fotógrafo Robert Mapplethorpe ao introduzir a figura de um Anjo Negro – um ator afro-descendente despido, com asas negras – que surge em cena para realçar os componentes sexuais da trama.

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Foto: Divulgação/Américo Nunes

O personagem José, filho insepulto de Marta, encarna outro elemento ao qual Cadengue dedica sempre um olhar atento: as possibilidades metalinguísticas do ato cênico. Apresentando-se como um bufão ou um jovem mochileiro moderno pronto para ganhar a estrada, o ator aqui é apresentado como símbolo da liberdade de expressão, da rebeldia e da capacidade de metamorfose tão cara ao teatro, onde a vida e a arte se confundem. Representa muito bem tal sentimento a bela cena do espetáculo em que José transforma-se no personagem Paulo de Terra em Transe, filme de Glauber Rocha, alguém que como ele confronta-se com a necessidade de entrelaçar poesia e política para seguir em frente.

O cuidado na construção de um espetáculo que se desdobra em significados requer uma complexa articulação de conceitos e referências sem que essa articulação escamoteie a essência dramática do texto, algo que Cadengue mais uma vez demonstra um domínio absoluto. O jogo teatral proposto é finamente arquitetado em cada detalhe e o elenco responde à altura aos desafios da encenação, faltando apenas alguns ajustes na projeção de voz da personagem Marta vivida por Lucia Machado, coprodutora do espetáculo, e também de Roberto Brandão no papel de José.

Foto: Divulgação/Américo Nunes

Foto: Américo Nunes

No dia da estreia, um jovem espectador perguntava, após a apresentação, se o que As Confrarias trouxera à cena não seria algo óbvio e já sabido por todos. Sim, talvez seja, no entanto os fatos recentes envolvendo determinados segmentos religiosos da atualidade brasileira demonstram a necessidade de se desnudar os antecedentes históricos de nossa sociedade de modo a entender as raízes do retrocesso político e cultural revivido por esses grupos. Ninguém duvida dos horrores cometidos pelo nazismo, todavia, quantas e quantas obras de arte não trazem à tona as atrocidades do passado no impulso utópico de que isso possa ajudar para elas não ocorrerem outra vez?

Portanto, ver no palco, hoje, a peça de Jorge Andrade, escrita em 1969, no período mais violento do regime militar e que nunca ganhou uma montagem profissional, tem um valor simbólico inquestionável, e por esse empenho Lúcia Machado e a Companhia Teatro de Seraphim merecem o nosso reconhecimento. As Confrarias nos lembra que aqueles que continuam aliando a ambição pelo ouro ao falso puritanismo não hesitarão em deixar insepultos os defensores da liberdade do presente.

Serviço

As Confrarias
Local: Teatro Barreto Júnior
Rua Estudante Jeremias Bastos – Pina
(81) 3355-6398
Quando: 9 a 30/06 (Qui a Dom) – Exceto no dia 23/06
Horário: 20h
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)
Teatro Adulto / Faixa etária: 16 anos
Duração: 90 minutos

Ficha Técnica

Texto: JORGE ANDRADE /Adaptação: ANTONIO CADENGUE, LÚCIA MACHADO E IGOR DE ALMEIDA SILVA /Encenação: ANTONIO CADENGUE/Elenco: ALEXSANDRO MARCOS, BRENDA LIGIA, CARLOS LIRA, GILSON PAZ, IVO BARRETO, LÚCIA MACHADO, MARCELINO DIAS, MARINHO FALCÃO, MAURO MONEZI, NILZA LISBOA, RICARDO ANGEIRAS, ROBERTO BRANDÃO, RUDIMAR CONSTÂNCIO, TAVEIRA JÚNIOR/Assistência de Direção: LÚCIA MACHADO E DIOGO TESTA /Cenografia: DORIS ROLLEMBERG /Figurinos, Adereços e Maquilagem: ANIBAL SANTIAGO E MANUEL CARLOS /Trilha Sonora Original: ELI-ERI MOURA/Gravação da Trilha Sonora: ELI-ERI MOURA E MARCELO MACEDO (ESTÚDIO PEIXE-BOI)/Músico (Violino e Viola): RENATA SIMÕES/Músico (Tenor): EDD EVANGELISTA/Iluminação e Operação de Luz: SAULO UCHÔA E DADO SODI/Preparação Vocal: LEILA FREITAS /Coreografias, Direção de Movimentos e Preparação Corporal: PAULO HENRIQUE FERREIRA/Programação Visual: CLAUDIO LIRA/Fotografias para divulgação: AMÉRICO NUNES/Filmagem e Fotografias (Registro): ANTÔNIO RODRIGO MOREIRA/Cenotécnica: MARC AUBERT /Assistência de Cenotécnica: KLEBER MACEDO, RAFAEL FIRMINO E FÁBIO FONSECA /Serralharia: RONALDO SOUZA /Confecção de Figurinos: ANIBAL SANTIAGO, MANUEL CARLOS, MARIA JOSÉ ARAÚJO, JOSEFA DE SOUZA E SILVA, HELENA BELTRÃO, IRANI GALDINO E SUELI DA CONCEIÇÃO/Confecção de Adereços: MANUEL CARLOS, PAULA TAVARES, GABRIEL SANTOS, JERÔNIMO BARBOSA, NAGILSON LACERDA E CHARLY JADSON/Cabelos de Marta 1 e 2: IVAN DANTAS/Operação de Som: DIOGO TESTA /Maquinaria: GAGUINHO E GILVAN DESIDÉRIO /Produção Executiva: CARLOS LIRA /Assistência de Produção: ELIAS VILAR /Assessoria de Comunicação: GIANFRANCESCO MELLO/Produção: COMPANHIA TEATRO DE SERAPHIM/Direção Geral: ANTONIO CADENGUE/Realização: LÚCIA MACHADO

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4 comentários em “As Confrarias ou Olhar o passado é defender a liberdade no presente, por Alexandre Figueirôa

  1. Francisco Medeiros disse:

    Parabéns amigos queridos!
    Fiquei louco pra ver!
    Quando voces virão pra sp?
    Beijos!!!!
    Sucesso!!!!!

  2. Esse Antonio Cadengue é um monumento. Viva Lajedo!

  3. Eduardo disse:

    Saudade de ver Brenda Ligia brilhando também nos palcos.

  4. Maria Arilena Soares disse:

    Há tempos que não se assistia por aqui um teatro tão bom como o que os Seraphins estão fazendo.
    Todos estão de parabéns!

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