A Terra Prometida ou Que Moisés é esse?, por Lívia Lins

Foto: Fábio Trieco

Foto: Fábio Trieco

Lívia Lins por Duda Martins: Lívia é companheira minha de teatro há anos. E fora dele também. Atriz responsável, minuciosa em tudo o que faz, já atuou de Brechts a Tenesse Williams nos quase 15 anos de carreira, e todos feitos com bastante entrega e paixão. Conheço bem a sua visão crítica a respeito de tudo (resquícios de um jornalismo latente), principalmente no que diz respeito a espetáculos teatrais. Significa que nada lhe passa goela abaixo. Lívia assistiu a Terra Prometida, do Grupo Quintal (ES), apresentada nesta 7ª edição de Palco Giratório e fez suas considerações.

Lívia Lins

Lívia Lins é jornalista e se dedica ao teatro há quase 15 anos como atriz e agora pesquisadora

A Terra Prometida ou Que Moisés é este?

Por Lívia Lins

A primeira coisa que eu pensei quando olhei a programação do Palco Giratório e vi uma peça com o título Terra Prometida foi, “uma peça de cunho cristão no festival?! Essa eu não posso perder”, e não perdi.

Enquanto a plateia se acomodava nas poltronas do Teatro Capiba ( amo esse teatro) eu, a mera espectadora da vez, observava Moisés, personagem bíblico interpretado pelo experiente ator Ednardo Pinheiro, sentado numa cadeira com seu cajado na mão e balbuciando algumas palavras. Ele falava com Deus, era essa a minha leitura.

De repente entra Itamar, sobrinho de Moisés, e então começa a minha jornada. Jornada para compreender o que eles realmente queriam dizer. Era uma sátira? Uma crítica a respeito da existência de Deus? Uma reflexão sobre ideias ultrapassadas? Juventude x velhice? Olhei a sinopse da peça e tinha escrito “A busca, talvez, seja, sobretudo, o elo familiar e afetivo que os une”…não foi bem assim.

Depois da morte do seu pai Aarão, Itamar decide que não quer seguir seu tio até a Terra Prometida, uma terra que Deus assegurou que daria a seus filhos, o povo de Israel, quando os libertou da escravidão no Egito. Itamar então questiona Moisés sobre as verdades desta promessa, “é absurdo demais para que eu creia”, ele fala. Apesar de respeitar seu tio e líder espiritual, Itamar está certo de que toda essa história não passa de devaneios, e cansado, decide voltar para o Egito.

Ator contracenando no fundo do palco

Foto: Carlos Antolini

O autor do texto escolhe como pano de fundo uma história bíblica para tratar de questões atuais, como ideologia… até aí tudo bem, afinal, a Bíblia e muitas das suas histórias são tão contemporâneas como na época em que foram escritas. O que eu não entendi é como aqueles personagens, mais precisamente Moisés – uma vez que Itamar é pouco citado na bíblia – foi construído. De convicto e temente a Deus, Moisés se torna arrogante, patético, chora de mentirinha, faz bico, e tenta fazer a plateia rir. Este não condiz com o Moisés do êxodo. Ao final, ele é um velho que já não sabe se realmente crê no Deus dos seus antepassados. Espera aí…Que Moisés é esse? Que referências foram usadas para desenhar este personagem?

Definitivamente não me convenceu. O que eu vi em cena foram dois atores sem direção. José Augusto Loureiro, que interpretou Itamar, não me fez refletir sobre o conflito vivido por ele: obedecer a uma tradição ou seguir o caminho que julgava ser o certo? Para mim ele só recitava o texto, e seu corpo não comunicava nada. Ele disse no bate-papo que na montagem do diretor Fernando Marques, suas mãos, que para mim se traduz como sua expressão corporal, foi um pouco tolhida, isto explica muita coisa. Sua interpretação ficou comprometida. Em um dado momento ele anda de um lado para outro, várias vezes, como numa cena de desenho animado. A movimentação de ambos era mecânica, calculada.  Três passos para a direita, senta, levanta…o figuro também não contribuiu e em todos os momentos que Ednardo estava de pé, ele segurava o manto do seu personagem. O diálogo não era instigante.

Atores contracenando

Carlos Antolini

Finalmente a peça termina e chega o momento em que eu posso perguntar como os personagens foram construídos. Esta é sempre minha maior curiosidade. De antemão, eles disseram que a peça nada tinha a ver com religião ou Bíblia… HÃ? Já no nome da peça encontramos uma expressão religiosa, A TERRA PROMETIDA.

Moisés cita versículos, fala sobre José, outro personagem riquíssimo do cristianismo, relembra a primeira vez que Deus falou com ele por meio de uma sarça ardente, e por aí vai…como assim não tem a ver com Bíblia? De qualquer forma arrisquei: vocês leram a história do êxodo na bíblia para elaborar os personagens, entender em que contexto eles estavam inseridos na época? (ou seja, tudo aquilo que a gente aprende que deve ser feito para construção de um personagem) A resposta foi ‘não’ e para piorar, José Augusto completou: ‘não encontramos nenhuma referência histórica, só na Bíblia’. Só na Bíblia?! Mas é uma peça baseada em uma história bíblica! A partir daí entendi porque os personagens não me cativaram, eles sequer sabiam quem estavam interpretando. Surge outra pergunta da plateia: o que era aquela Terra Prometida? o que ela representava nos dias de hoje? É claro que eles não sabiam, não leram a história. Leram a peça e para eles isso bastava. O que era ou o que poderia ser não vinha ao caso. Que pena.

A falta de pesquisa diminui a capacidade criativa, limita o ator, desqualifica o personagem, … Se a ideia era trazer à tona apenas discussões sobre conflitos de geração, deveriam ter escolhido outro texto, o que não isenta a pesquisa, mas pelo menos não seriamos obrigados a tentar dissociar as coisas. É impossível, sobretudo para aqueles que conhecem a história de Moisés. Optar por uma história bíblica ou de qualquer natureza e não ler essa história, seja real ou surreal, é para mim uma falha gravíssima. A peça poderia ter sido um espetáculo, mas não foi.

Ficha técnica
Texto Samir Yazbek/direção Fernando Marques/assistência de direção Lorena Lima/atores Ednardo Pinheiro e José Augusto Loureiro/concepção de figurino, adereço e cenário Attílio Colnago/confecção de figurino Hellen Cristiny/concepção de iluminação Carla Van Den Bergen/operador de luz Daniel Boone/técnico de iluminação Alcides Luiz/contra-regra André Stesson/produção executiva Lorena Lima

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2 comentários em “A Terra Prometida ou Que Moisés é esse?, por Lívia Lins

  1. José Manoel Sobrinho disse:

    Esta Terra Prometida não é,nem se propôs ser a história da bíblia, é assumidamente uma ficção com referências ao texto bíblico, não é uma peça de cunho religioso, nem se propôs, porém concordo que a encenação nos moldes de Moacir Chaves não nos legou um espetáculo com códigos claros. Explico: a montagem original e que assisti no Espirito Santo foi dirigida por Fernando Marques, no entanto em um processo de diálogo de encenadores realizado em Vitória/ES o espetáculo passou por um processo de reformulação conduzido por Moarcir Chaves. O que vimos em Recife foi resultado da intervenção do Moacir. E não funcionou, confundiu os atores, dispersou a energia da cena, superficializou o espetáculo. Havia uma pesquisa de linguagem que foi diluida na mudança de perfildo espetáculo.
    Esclarecida esta questão,mas para o conhecimento de todos do que para justificar, passo a concordar com algumas questões grafadas na crítica, principalmente no que se refere a não consolidação do espetáculo.

  2. Lívia Lins disse:

    Muito obrigada pelo comentário. Na verdade eu entendi que se tratava de uma ficção, apesar de serem personagens bíblicos, o diálogo entre eles não existe na bíblia, e durante a peça ficou muito claro que a proposta não era fazer um espetáculo religioso, mas para mim continua sendo… no entanto, independente do ser ou não ser, faltou pesquisa, isto ficou claro no bate-papo. Acho que por esta razão, também, “não funcionou, confundiu os atores, dispersou a energia da cena, superficializou o espetáculo”, nisto concordamos.

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