Luis Antônio – Gabriela, por Augusta Ferraz

Foto: Bob Sousa

Foto: Bob Sousa

Augusta Ferraz por Duda Martins: O meu encontro com Augusta na verdade foi com Guiomar – A filha da mãe, de Lourdes Ramalho, em 2003. Ela entrou com uma carroça no pequeno teatro Capiba e virou um gigante em cena. Desde ali, me admiram a coragem, não da personagem, mas da atriz, que é ícone do teatro pernambucano, de dizer o que pensa dentro e fora do palco. Sabia que como mero espectador ela não calaria a sua sinceridade. Confira a sua crítica para o espetáculo Luis Antônio – Gabriela, da Cia Munguzá de Teatro (SP), apresentado no último sábado (11) e domingo (12), no Teatro de Santa Isabel, dentro da programação do Palco Giratório-Recife-2013.  

Augusta Ferraz é atriz e diretora. Há 40 anos se dedicando ao teatro foi fundadora de companhias como a Ilusionistas e as Pharkas Serthanejaz e tem mais de 70 peças no currículo. Foto: Paulo Paiva

Augusta Ferraz é atriz e diretora. Há 40 anos se dedicando ao teatro foi fundadora de companhias como a Ilusionistas e as Pharkas Serthanejaz e tem mais de 70 peças no currículo. Foto: Paulo Paiva

Luis Antônio – Gabriela – Cia Munguzá de Teatro (SP)

por Augusta Ferraz

Eu Mera Espectadora, para onde estão me levando?

É dificílimo escrever sobre um espetáculo teatral onde eu, não me sinto tocada. Reconheço o tratamento cuidadoso da produção; reconheço também que uns atores tem seus quinze minutos de versatilidade, outros nem tanto, outros tão pouco. Esclarecendo que escrevo essas minhas impressões respeitando a todos os envolvidos na montagem, pois, materializar diariamente ideias em um ambiente extremamente artesanal leva tempo, suor e cerveja… E a verba nunca cabe ao que se quer realizar…

A historia é aquela de praxe: “Era uma vez uma criança que nasceu menino e que tinha uma menina internalizada… Exercendo sua sexualidade ainda criança… Apanhando… Sofrendo… Crescendo… fugindo… E se fudeu.” Ham? Sim e então? Então, eu espectadora, estou aqui em frente a um jornal policial apresentado por uma rede de televisão qualquer, de um lugar qualquer, onde o apresentador grita, graceja, rindo/mangando de sua também própria miséria humana… Ou mesmo, eu, lendo um editorial também qualquer, online ou gutemberguiano… Nada incomum tudo normal… E enquanto penso nisso a apresentação ocorre em uma velocidade que não me permite a degustação… Esquizofrênica… É uma palavra bem moderna para definir o que estou sentindo… Estão vamos a partir dela…

Ali a palavra em si quase não tem valor na cena, a sonorização, a trilha, torna-se mais importante que a historia contada, falada, mostrada… Sei lá… Você quer ouvir a palavra e a música ou o barulho não deixa… Você quer entender o contexto, contudo o senso comum e distorcido de contemporaneidade não permite… As variações sofridas nas narrativas faladas pedem que meus ouvidos estejam sempre alertas, pois, as vozes que hora utilizam a sonorização artificial dos microfones, quando voltam ao seu estado normal, não artificial, não estão treinadas e vem a mim sem projeção… Am? … A palavra falada quer ser ESCUTADA? Sim? Não? É isto mesmo? Apenas as palavras escritas parecem ser importantes na narrativa…

Foto: Claudio Etges

Foto: Claudio Etges

O excesso de audiovisual; Os sacos de soros pendurados por todo um cenário confuso que merecia mais conhecimentos relativos ao porque, ao pra que, ao ser criado; A iluminação escura que me faz sentir em um cemitério de mortos vivos… A morte sempre prevista no caminhar dos gays travestis… SIM! E então? Vamos para onde? Quero ir embora… Não devo…!

Uma cena em particular me chama a atenção, pois, se estou assistindo uma montagem que rejeita o realismo… – E a cena é: Um leito de hospital, uma maca, uns plásticos, uma escuridão macabra, e muita solidão humana… Lembrei de “Ópera”, uma montagem do Coletivo Angu…! Como esta cena é difícil de ser criada no teatro. Vejo Brecht enfiado na montagem no que diz respeito ao distanciamento que nos leva e expulsa da cena durante todo o espetáculo… Nas palavras escritas, nas citações das datas, nos baús com o nome da Cia bem visível .. Calma, é apenas um espetáculo de teatro, divirtam-se…!… Como?

Foto: Bob Sousa

Foto: Bob Sousa

Sei que estes meus senões podem estar corroborando para a justificativa da construção do “Mas, é exatamente isto que queríamos”… Mas, para eu mera espectadora… É Chato, ruidoso, não me surpreende em nada, não revela, pura espetacularização… No aprofundamento caricatural da Gabriela ou Luís Antônio ou o pai ou a madrasta, vejo uma preocupação, um temor subjetivo de não conseguir ser a contemporaneidade do teatro atual, que pesquisa linguagens, pois, compreendo também que esse ambiente que assisto aqui, faz parte da pesquisa exercida pelos grupos, coletivos e Cias do nosso momento agora, excitante, irritante… Mas, me perguntei várias vezes: porque o teatro?… Livros… Filmes… Performances, instalações, asas delta etc.

PS: Abordei uns poucos conhecidos que se mostravam gostantes do espetáculo… Cada cabeça uma sentença. Nada tão contemporâneo, moderno e democrático como este livre espaço que existe em cada individualidade”.

Ficha técnica
Argumento de Nelson Baskerville/textos de Nelson Baskerville e Veronica Gentilin a partir dos relatos de Doracy Ierardi, Maria Cristina Baskerville, Nelson Baskerville e Serginho/ organização e edição Cia. Mungunzá de Teatro e Nelson Baskerville/direção Nelson Baskerville/ diretora assistente Ondina Castilho/assistente de direção Camila Murano/elenco Day Porto, Marcos Felipe, Lucas Beda, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias/técnico-performer Pedro Augusto/direção musical, composição e arranjo Gustavo Sarzi/preparador vocal Renato Spinosa/trilha sonora Nelson Baskerville/ preparação de atores Ondina Castilho/ iluminação Marcos Felipe e Nelson Baskerville/ cenário Marcos Felipe e Nelson Baskerville/ figurino Camila Murano/fotografia Bob Sousa/ visagismo Rapha Henry – Make up Artist/vídeos Patrícia Alegre

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6 comentários em “Luis Antônio – Gabriela, por Augusta Ferraz

  1. Daniel Barros disse:

    Acho que vi um outro espetáculo diferente do que Augusta viu, acho que o espetáculo é uma aula de teatralidade, escutei muito bem os atores, me toca, são bons e entregues. Me reconheço, me emociono e vi duas vezes. Respeito Augusta e seu olhar sobre o trabalho da Cia Munguzá. Mas eu vi um outro espetáculo e meus olhos não saíram ilesos.

  2. Breno Fittipaldi disse:

    Nada melhor do que fugir da unanimidade. Gosto demais do espetáculo (vi todas as apresentações que fizeram no Recife), mas gosto demais também da forma respeitosa que Augusta relata sua visão. Temos mesmo que discutir, concordar ou discordar, somente assim poderemos criar um espaço democrático para falar e maturar opiniões.

  3. Rodrigo Porto disse:

    Entendo e respeito a visão/opinião de Augusta Ferraz, assim por admirá-la em seus trabalhos. Porém, acho que há espaço e deve haver para se trabalhar as fronteiras das linguagens no teatro, assim como nas asas delta, performances, instalações, etc. coisa que o grupo faz muito bem. E ai eu me pergunto, e porque não no teatro?

    E o fato da história parecer clichê, será que ela é clichê por ser vida real? História real? de TODAS as travestis. Acho que a repetição não é culpa do teatro, da arte. E sim do preconceito humano, banalização desses indivíduos, assim como falei no “Pensamento Giratório” com o grupo: Elas estão a margem inclusive do mundo gay. Além da Heteronormatividade que se é tanto falada, existe um preconceito dentro do preconceito, existe a Homonormatividade. (Caso a se pensar)

    E só para esclarecer a utilidade: Os soros pendurados, além de fazer menção às enfermidades da personagem, é utilizado no final para representar os silicones implantados pela mesma, que com o passar dos anos se deforma pelo corpo.

  4. Jorge Clésio disse:

    Concordo plenamente com a visão de Augusta sobre o espetáculo Luis antonio-gabriela. Vi a peça no Teatro Luis Mendonça, na ocasião do Festival Recife do Teatro Nacional/2011.
    Na época, sai do teatro com a sensação de ter visto algo com muito barulho, apenas. Acho importante esse espaço de exposição de visões diferenciadas. Ao ler a visão de
    Augusta, feita com respeito aos criadores do espetáculo, fica a impressão positiva que, de fato, o teatro não se encerra somente quando se apaga a luz e se fecha a cortina. Como artista de teatro e fotógrafo de cena, tb tenho meu universo que busca não desmerecer o universo do Outro, e como mero espectador, me interesso em dialogar sobre aquilo que vejo.

  5. carlos mélo disse:

    Concordo totalmente com Augusta. A peça é deprimente. Saí de lá com medo de continuar gay ( por causa da sua culpa cristã Rodrigo Porto ). É perspectiva decadente, clichê E preconceituosa contra os travestis, fiquei imaginando, eu travesti assistindo aquela peça, que constrangedor…( em angu todas as bichas se fodem no final, o cachorro, a com câncer de mama, ai pelo “Deush”, parem de mata as bichas no teatro! ) ela já são mortas na vida real, ok? Mas em outro contexto ( que pensamento torto desse rapaz ) é o mundo contra ela, transformar isso em espetáculo é repetir , equivocadamente, uma realidade a ser pensada, transformada e não FETICHIZADA! Rir do travesti ou chorar por ele, faz parte da mesma grade semântica. Essa ópera tem que acabar!

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