Babau para você! ou A vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte, por Samuel Santos

Foto: Divulgação

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Samuel Santos por Duda Martins: Esse dai eu conheço de perto! Na vida, entrevistei Samuel algumas vezes. Fizemos um curso de criticas juntos, e a primeiríssima peça que critiquei na vida foi Cordel do Amor sem Fim (2009), ainda sem figurino, sem cenário, sem plateia, outra formação de atores. Mas encantadora. Cordel para mim diz muito de Samuel como diretor. É um diretor vivo!! Faz os atores vibrarem, descobrirem novas formas, gestos, entonações. Experimentei tudo isso quando tive o privilégio de ser dirigida em A Terra dos Meninos Pelados, uma experiência que marcou minha vida em vários sentidos e com certeza, graças a ele, nos bastidores conhecido como “espinheiro bravo”, cresci muito como atriz.

Samuca é também um apaixonado por teatro. Zeloso, esforçado. De todos os espetáculos que dirigiu, não lembro de ter reprovado algum. Também, quem sou eu para reprovar alguém que já fez tanto para o nosso teatro? Cordel é uma peça para adultos, e é maravilhosa. Mas especificamente com o teatro para crianças e jovens, o cara impressiona: lembro aqui de O Amor do Galo pela Galinha d’Água (2007), A Terra dos Meninos Pelados (2002), Historinhas de Dentro (2008) e agora se joga em uma nova produção, O Menino da Gaiola, que estreia em breve no Recife. Mas Samuca é também Mero Espectador, e veio aqui dar a sua valiosa contribuição para o blog, escrevendo sobre o espetáculo de abertura da 3ª Mostra Marco Camarotti de Teatro para a Infância e Juventude, que este ano homenageia o grupo Mão Molenga de Teatro, e é sobre ele mesmo que Samuel Santos fala.

Samuel Santos é ator, diretor, roteirista e sócio integrante do grupo de teatro O Poste: Soluções Luminosas

Samuel Santos é ator, diretor, roteirista e sócio integrante do grupo de teatro O Poste: Soluções Luminosas

Babau para você!

Por Samuel Santos

A Companhia Mão Molenga Teatro de Bonecos há muito deixou de ser mais um grupo que trabalha com bonecos e formas animadas e virou uma INSTITUIÇÃO CULTURAL referencial no estado e fora dele, transcendendo uma arte que tem por essência a simplicidade, mas que imprime requinte, trabalhando conceitos na sua linha de encenação, nas suas montagens, mas sem fugir da essência e da referência popular. Por esse apuro, esse esmero no tratamento cênico dado as suas encenações dentro da expressão do boneco, do mamulengo, acentua-se nas montagens criadas pela Companhia, o espaço poético, a poesia dilatasse onde geralmente na expressão do teatro de Mamulengo o costumeiro é a picardia, a galhardia, a malícia, o duplo sentido, o movimento, as bordoadas e o humor, tudo quase sempre improvisado.

Nada nas encenações do grupo é solto, porém ao mesmo tempo em que há uma linha, uma arrumação conceitual, vemos dentro desta metodologia, da técnica, um despojamento da poética que qualifica e dignifica toda tradição do teatro de bonecos, dos artistas desta arte, dos mestres bonequeiros na sua simplicidade, mas plenos de cultura e sabedoria que faculdade nenhum dimensiona. É como se o grupo pegasse os alicerces deixados pelos grandes mestres bonequeiros e engendrasse por um viés contemporâneo, hibrido, redimensionando o tempo e o espaço dessa expressão e preenchesse com uma boa dose de poesia todo o espaço nos tempos devidos.

O teatro de bonecos é uma arte, uma ciência pouco difundida dentro da história do teatro brasileiro, assim como o teatro para crianças, negando a sua real importância dentro da cena contemporânea. Cito o exemplo da transgressão e ruptura dentro da linguagem que é o Mamulengo Só-Riso criado na década de setenta por Fernando Augusto, Nilson de Moura e Luiz Maurício Carvalheira. O histórico desse grupo é digno de capítulos em qualquer compêndio teatral dentro do panorama do teatro brasileiro, pois nas suas criações havia os traços revolucionários de um teatro que não se prendia a forma, nem exclusivamente a um modelo de manipulação.

Foto: divulgação

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Exemplo claro é o clássico “Olinda Olanda, Olindamente Linda”, de 1988, que utilizava técnicas diferentes de manipulação de bonecos que unindo o teatro negro, bonecos de mesa, luva, vara e até boneco gigante, desconstruiu todo o paradigma de um teatro chapado, ingênuo, frontal. Era como uma grande Ópera dentro da tradição do teatro de bonecos, agregando novos valores a esse tipo de espetáculo em Pernambuco e no Brasil como um todo. Assim, aplico cada palavra escrita acima sobre o “Só- Riso” à Companhia Mão Molenga Teatro de Bonecos. Assistir as montagens da Companhia nos leva ao inusitado, a um campo imagético/transgressor, pois nos apontam tantos caminhos ricos explorados na linguagem dos bonecos, atrelando a eles a reflexão do fazer teatral mamulengueiro, reflexão do mundo e da sociedade numa força poética que passa desde os traços delicados, rústicos da figura de madeira até às histórias onde eles são inseridos e como  são postos nas montagens da Cia Mão Molenga.

Babau
A peça é baseada na vida e obra de mestres bonequeiros que primavam pelo virtuosismo na linguagem do teatro de bonecos, tipo “um faz tudo”, aquele que opera o som, manipula um, dois ou mais mamulengos, toca um instrumento, canta, tudo isso na base do improviso e que tem como pesquisa referencial as conversas com os mestres Zé Lopes e Zé Divina. O elo que encadeia a história desses mamulengueiros é uma figura chamada Babau, um boneco que passa de mão em mão acompanhando várias gerações no transcorrer da história e da vida desses artistas. Esse personagem funde-se com a própria expressão do Mamulengo, pois em alguns estados Babau é o próprio mamulengo. Ele é um tipo anti-herói que consegue enganar a morte, numa situação contrária à de seus manipuladores e criadores, quando mitos e muitos morrem esquecidos e miseráveis.

Crédito: Mão Molenga / Divulgação

Crédito: Mão Molenga / Divulgação

Na abertura da peça já vemos um cenário conceitual, com empanadas e cortinas que lembram aquelas cortininhas ou cortinados que enfeitam os caixões dos passantes e as próprias madeiras do cenário lembram um ataúde. Fora desse cenário, um boneco (o mestre) descansado no seu leito ou já quase no estágio de morte, entra em seguida, um cortejo de humanos simbolizando as carpideiras ou visitantes que vieram ver o morto ou o quase morto. Rezas e lágrimas são ouvidas, e a voz dos outros personagens que promulgam ao público quem é aquele personagem. O mestre já em delírio, fala, agoniza e tosse em uma cena dramática e forte. Quando todos se vão, o mestre sozinho na sua cama recebe a visita última da morte, que em uma cena onírica, carrega o mestre para o “céu de mulungus”. Morre o mestre, consequentemente sua arte, sua tradição.

Na cena seguinte o cenário é bem realista: uma pequena casa simples, com portas, janelas, fogão e mobília humilde. A casa é mostrada no abrir de uma cortina, pela viúva do mestre. Sem pressa, mas com muita precisão por parte dos bonequeiros manipuladores. É louvável diferir que há dois tempos e espaços na montagem: as casas dos mestres que recebem um tratamento realístico e preciso e o espaço e o tempo dos bonecos do mamulengo, onde tudo é suspenso no espaço, sem localizar muito os personagens. Onde tudo pode acontecer naquele campo! No primeiro, os bonecos são articulados, as mãos pegam nos objetos como fosse mãos humanas, bocas articulam junto com a fala dita, os bonecos movem-se num compasso lento, gracioso, sem exageros, sem virtuosismo, quase um reflexo da realidade humana. No espaço próprio do boneco de luva, o mamulengo, os bonecos tomam o inverso, um caminho do movimento da palavra, da fala no tom farsesco, da ação exagerada, não possuem articulações, são genuinamente toscos e grosseiros. São dois estilos de manipulação e interpretação comungando em uma mesma história, em uma metalinguagem necessária à obra

O boneco que representa o humano, no caso o mestre,  manipula outro boneco, fruto da sua criação e  ambos são manipulados por um humano. Essa visibilidade seletiva impressa tanto no cenário como nas formas de interpretação e manipulação dos bonecos, nos apresenta as potencialidades construtivas e/ou de construção de uma obra de arte que tinha tudo para primar por uma única perspectiva mas sugere outras.

Foto: Divulgação

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Seguindo: o aluno do mestre falecido pede a viúva os bonecos do mestre para ele e  não os queimem como ela quer, por entender que a profissão do marido o levou a ruína e a morte, por não ser valorizada nem o mamulengo nem o artista. Mensagem oportuna não só aos bonequeiros. De tanto o insistir a viúva acaba dando apenas um boneco e pede que escolha, o aluno escolhe… Babau! Assim há a continuidade do mestre bonequeiro através do aluno que vira mestre, levando as encenações de Babau para as praças e mercados. O bonequeiro mestre vai envelhecendo e talvez morra a tradição, só que surge João, personagem que quer aprender com o mestre a fazer bonecos e que ele de primeira nega, pois o menino quer aprender a fazer boneco para dar de presente para sua irmã brincar de “boneco”, mas o mestre indignado diz que “boneco é coisa séria” e o expulsa, mas João de imediato retorna com uma garrafa de cachaça e oferece ao bonequeiro.

O mestre seduzido pelo presente resolve ensinar o menino, que ele o alcunha de “João Redondo”, a fazer bonecos e depois a manipular os bonecos. O mestre vai envelhecendo e ficando mal de saúde, o menino João Redondo já adulto tem ambição: quer manipular o boneco Babau, o mestre entende que o jovem representa a continuidade do brinquedo e já pressentindo a morte entrega o boneco para João. Logo em seguida o mestre recebe a visita da morte e do seu mestre que em uma cena bem rápida (pode ser mais demorada) de rito de passagem se abraçam. Poesia e emoção trafegam nessa cena.

Sem saber João ajuda o chaveiro do céu, São Pedro, e pede para  Babau fazer quatro pedidos. Babau vai pedindo as coisas mais estapafúrdias, desde uma mangueira que nasça manga à ser invencível no jogo do baralho e um banco de madeira. São Pedro pergunta por que ele não pediu salvação, vida eterna, e Babau responde que só quer “viver bem”. Outra mensagem oportuna aos artistas mamulengueiro .

Foto: Divulgação

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Assim (do nada) Babau recebe a visita de “Dona Morte”, mas ele a engana e pede para ele subir na mangueira, quando ela sobe não pode mais descer, pois só Babau tem poder de decisão, então ele faz  um trato com Dona Morte e se salva. Logo em seguida recebe a visita do Capeta que quer leva-lo para o inferno, Babau também o engana pedindo para o sanguinolento sentar no banco e jogar um baralhinho antes de ser levado pelo capeta. O capeta senta no banquinho e não consegue levantar-se. Assim Babau faz trato com “o coisa ruim” e também se salva da morte.

Babau chega a morrer mas não é aceito nem no céu , nem inferno e resolve retorna a terra. Enquanto Babau tem o poder de enganar a morte, o seu mestre não, e João vai envelhecendo e conseguintemente será outro mestre do boneco Babau que morrerá. E quem agora dará continuidade ao Babau, ao Mamulengo? Cito como referências três: Mamusebá do mestre Sebá de Caruaru, que construiu na garagem de sua casa um teatro de mamulengo digno e merecedor de honrarias pela iniciativa e continuidade dessa expressão, o Mamulengo Só- Riso e O Mão Molenga dos mestres Fábio Caio, Marcondes Lima, Carla Denise, Fátima Caio. Claro que todos anônimos ainda mantêm a chama acessa por esse Nordeste, esse Brasil de Mulungus!

Nota 1
Há uma discussão sobre o espetáculo Babau ser uma peça para crianças ou uma peça adulta. Na minha avaliação ele não é essencialmente para crianças ou adultos. Trafega nas duas esferas, contém elementos de identificação na sua encenação que contempla tanto o público infantil quanto o adulto, sendo uma linha tênue não no seu conjunto enquanto obra, mas especificamente em uma única cena, que é justamente própria do teatro de mamulengo, que é o duplo sentido, a malícia, sendo este momento representado pela Costureira e o Mateus. Senti uma pequena tensão, um silêncio na plateia com a cena. Mas a cena não tá ali gratuitamente, ela é coerente dentro do universo do brinquedo e claro é uma cena que afeta os adultos, pois eles estão com seus filhos e os diverte porque é próprio do seu universo.

Nota 2
A manipulação/ interpretação dos atores/ bonequeiros é precisa, e como propositalmente a encenação ora esconde, ora os mostra em cena, vemos a real dimensão do que é a arte do ator, servindo como aula, como exemplo para os jovens atores, pois revela a essência do fazer teatral no ofício do ator; o de se anular para acentuar o outro, no caso o personagem, mas tendo controle, sendo o manipulador, o regente que coordena as ações, os gestos e as emoções. Assim parabenizo todo o elenco formado por Carla Denise, Marcondes Lima, Fabio Caio, Fatima Caio e Andreza Alves.

Nota 3

A primeira manifestação teatral que assisti foi o teatro de bonecos – o Mamulengo. Devia ter uns sete ou nove anos. O local? Parque 13 de maio. Lembro que o mamulengueiro colocava sua empanada amarrada numa árvore e a outra no parque, e sentados, nós crianças, no chão nos divertíamos com aqueles movimentos, aquelas vozes e as porradas . As porradas dadas no quengo do mamulengo é a porrada mais engraçada que considero . Tudo era muito simples. Mas por que falo do meu início, da gênesis como espectador nesse depoimento critico? Culpa do fantástico Babau ! Ou melhor – DO GRUPO MÃO MOLENGA que me fez retornar junto com minha filha num tempo e espaço tão rico para minha construção como artista.
Babau para você!

Ficha técnica: Texto: Carla Denise. Argumento: O grupo. Elenco: Andrezza Alves, Carla Denise, Marcondes Lima, Fátima Caio e Fábio Caio.
Criação e direção musical: André Freitas. Direção cênica e direção de arte: Marcondes Lima. Criação e confecção de bonecos e figurinos: Fábio Caio, Marcondes Lima e Oficina do Mestre Zé Lopes. Técnica Utilizada: Bonecos de luva e vara. Criação e operação de luz: Sávio Uchoa.

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