Desconstruir para reconstruir ou Duas Mulheres em Preto e Branco, por Breno Fittipaldi

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Duas Mulheres em Preto e Branco, pelas lentes de Breno Fittipaldi

Breno Fittipaldi por Duda Martins: Uma aula de teatro já foi o suficiente para olhar para Breno com respeito. Na época, ele substituia minha professora no Sesc Casa Amarela e foi logo avisando: “olha, não quero conversas paralelas e nem brincadeirinhas fora de hora”. Eu gostei. Gosto de professores com pulso firme. A aula foi uma das melhores que já tive e em pouco tempo me senti evoluindo como atriz. Depois conheci Breno como diretor, com O Fio Invisível da Minha Cabeça (2010), um monólogo forte do qual me lembro até hoje. Além de muitas virtudes como pessoa e profissional, Breno entende de interpretação. E talvez tenha sido a pessoa certa para falar de Mulheres em Preto e Branco, uma produção que desafia o trabalho de duas potentes atrizes. Aqui, ele foi Mero Espectador com texto e foto.

Breno Fittipaldi

Breno Fittipaldi é encenador, ator, dramaturgo, fotógrafo, arte-educador e Supervisor de Cultura do Sesc Casa Amarela. Foto: Túlio

Duas Mulheres em Preto e Branco – Desconstruir para reconstruir

Por Breno Fittipaldi

Vários motivos me levam ao teatro, primeiro porque gosto, é obvio, depois porque faço, mas principalmente pela magia e mistério que ele contém. Num espetáculo de teatro cabem inúmeros universos, mundos a serem desvendados, olhares que vão muito além do que se enxerga e um sem fim de sentidos, leituras e intenções. É sempre plural, de significados múltiplos, tocando de diferentes maneiras quem assiste independente de permitir envolver-se ou não. Há também vários motivos para ver Duas Mulheres em Preto e Branco, espetáculo bem cuidado em todos os detalhes que tem produção da Remo Produções Artísticas (Besame Mucho, Arlequim, Abelardo e Heloisa), direção de Moacir Chaves (Bugiaria, Utopia, Por Um Fio), autoria de Ronaldo Corrêa de Brito (Faca, Livro dos Homens, Galiléia), no elenco Sandra Possani (Aquelas Duas, O Acidente) e Paula de Renor (Salto Alto, Fernando e Isaura, Carícias) e vasta ficha técnica de renomados profissionais.

As mulheres em questão são Sandra e Letícia, personagens do conto que dá nome ao espetáculo, do livro Retratos Imorais. Encenado absolutamente na íntegra, narra a história de duas amigas que fizeram medicina durante o período da ditadura militar, aparentemente engajadas nas lutas da época e envolvidas no contexto em questão. Muitos anos se passaram, as duas casaram, a primeira com Paulo a segunda com Miguel, construíram uma vida estável, cercada por conforto e as ideologias foram se perdendo ao longo do tempo. A ação acontece como um ajuste de contas, num quarto/casa aparentemente destruído aonde lembranças, verdades, revelações vem à tona.

A principio dá-se a ideia de que a ira de Letícia, que já bateu muito em Sandra e que ainda a ameaça de morte tem como motivo a traição da amiga que é amante de seu marido há muitos anos, porém, ao final do desfecho descobre-se que as duas foram namoradas desde sempre. Letícia se sente triplamente traída, primeiro porque Sandra casou com um homem o que a obrigou a casar também, depois por ela arranjar um amante e por esse amante ser exatamente o seu marido. Desnorteada tenta por fim em situação tão constrangedora e humilhante, porém é vencida por um amor maior do que o ódio que sente, termina se rendendo ao poder de sedução de Sandra e sela essa trajetória de vida com um longo e apaixonante beijo, como se a história delas se resumisse em desejo e perdão.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

Lembrei- me do texto de August Strindberg, A Mais Forte, onde também há um confronto entre duas mulheres, só que a disputa ali é pelo amor de um homem, porém não fica claro quem vence, quem é a mais forte. No texto de Ronaldo, a impressão que tenho é que Sandra sempre vence, ela sim é a mais forte. Letícia termina sempre cedendo, se rendendo em nome do amor. Fica a questão, quem ama se submete a tudo? O amor oprime? Há ainda algo que me incomoda no texto, a excessiva citação de referências cinematográficas e a ironia que o autor trata outros autores, parecendo desdenhar, por exemplo, de Machado de Assis, transparecendo um intelectualismo desnecessário e uma pretensão sem fundamento.

Para dar vida a essas duas mulheres, outras duas grandes mulheres, as atrizes Paula de Renor e Sandra Possani. Se o espetáculo é o que é, muito se deve a elas. A nossa Paula vem em constante evolução como atriz, amadurecendo a cada trabalho, investindo e tendo coragem de mergulhar em personagens e projetos cada vez mais desafiadores, permitindo-se a sair da zona de conforto e lançando-se a voos cada vez mais altos. É inquieta, curiosa, deliciosamente linda em cena, busca um vigor que ainda precisa de ajustes, mas está inteira, acreditando no que faz, surpreendendo a cada gesto, a cada fala, a cada intenção. A composição que fez para Letícia é aparentemente forte, mas há no subtexto uma fragilidade que tenta sempre ocultar, isso é muito difícil, mas consegue tirar de letra. Bom demais vê-la em cena, seja falando de cinema, dançando, rindo, ironizando, desfrutando tudo que o personagem permite, sendo bela e sendo fera, ou melhor, sendo feroz.

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Foto: Breno Fittipaldi

A gaúcha (nem por isso menos nossa) Sandra Possani está no patamar das grandes atrizes, daquelas que podem fazer tudo que quiseram. É madura, intensa, vigorosa, domina as ações físicas, a partitura gestual, as variações psicológicas exigidas pelo personagem, o tempo rítmico e as pausas. Consegue aliar num limiar preciso técnica e emoção. Segura o personagem o tempo inteiro, tendo no olhar a arma fatal para que o jogo cênico se estabeleça. Nesse jogo/ duelo não precisa ter vencedores e sim troca e sintonia o que acontece com naturalidade, muito devido à generosidade de Sandra, que estabelece com Paula uma parceria, elas não se abandonam nunca, pelo contrario, estão sempre unidas em prol da cena.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

A direção do Moacir Chaves nos revela um grande desafio, transpor para a cena um texto não dramatúrgico, sem adaptações (ainda bem por se tratar de um conto), que exige um desdobramento visual onde a imagem passa a ser a linguagem dessa transposição. Homem de teatro experiente que é, consegue através da desconstrução solucionar as dificuldades que o texto impõe, reconstruindo a cada segundo uma identidade visual que resulta numa assepsia que poderia incomodar, porém, como maestro da cena, atinge essa limpeza concatenada com a trajetória das personagens, que se limpam/esvaziam durante o já citado, acerto de contas.

Confesso que em alguns momentos acho mecânico demais algumas ações das atrizes, como procurar em gavetas uma garrafa de uísque, porém, nada que possa comprometer o todo. Em contrapartida destaco a cena em que gravatas são jogadas para o alto, poesia visual que apenas um diretor sensível consegue construir em parceria com elenco que se entrega. Os elementos técnicos são primorosos na encenação, conseguindo unidade entre eles, se integrando em função da cena, proporcionando suporte para que o espetáculo aconteça como um todo, sem destaque específico para um ou outro. A iluminação de Aurélio de Simoni (Galileu Galilei, Sermão da Quarta-feira de Cinzas, Noite de Reis) é precisa, causando atmosfera necessária tanto para momentos mais intimistas como em passagens corriqueiras, cotidianas, um verdadeiro mestre.

Foto: Breno Fittipaldi

Foto: Breno Fittipaldi

Também contribuem para que essa atmosfera seja atingida a trilha sonora de Tomás Brandão e Miguel Mendes, que navegam com firmeza nesse universo, produzindo momentos ora de risos e leves e outros de tensão e suspense. A cenografia é de outro mestre, Fernando Mello da Costa (Orlando, Cartas Portuguesas, Melodrama), conterrâneo de Possani, ele é fundamental para a construção conceitual do espetáculo, enchendo e esvaziando o palco, causando no espectador sensações variadas, seja de caos, desorientação, esvaziamento, leveza e sublimação. Os figurinos de Walther Holmes talvez seja o que destoa dessa unidade, pelo menos alguns deles, me parecendo em alguns momentos exagerados demais para duas mulheres de certa sofisticação, porém, é apenas um detalhe a ser questionado.

Vi o espetáculo duas vezes, uma no fim da temporada que fizeram no Teatro Apolo e a outra no Janeiro de Grandes Espetáculos. Houve muitas diferenças entre elas, somente o teatro tem esse poder transformador a cada apresentação, a cada noite. Na primeira tudo funcionou, havia intensidade, consistência, verdade. A segunda me pareceu mais frágil, arrastada, como se precisasse de mais ensaio. Porém, Duas Mulheres em Preto e Branco é um espetáculo que precisa ser visto, pelo simples motivo de ser verdadeiramente teatro.

Ficha técnica: Texto: Ronaldo Correia de Brito. Direção: Moacir Chaves. Assistente de direção: Miriã Possani. Trilha Sonora e operação de som: Tomás Brandão e Miguel Mendes. Figurino: Walther Holmes. Cenário: Fernando Mello da Costa. Iluminação: Aurélio de Simoni.Operação de luz: Beto Trindade. Preparação corporal e coreografias: Rogério Alves. Preparação vocal: Flávia Layme e Rosemary Oliveira. Assistente de produção: Elias Villar. Produção executiva: Keila Vieira. Produção geral e administração: Paula de Renor. Elenco: Paula de Renor e Sandra Possani. Fotografia de Sobrado 423/Rogério Alves/Camila Sérgio.

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9 comentários em “Desconstruir para reconstruir ou Duas Mulheres em Preto e Branco, por Breno Fittipaldi

  1. silvia cavalcanti disse:

    Breno VC É GENIAL!!!!!!! Bjuuuuu…..

  2. Álvaro Lucard disse:

    Vi apenas uma vez o espetáculo, e algumas de suas sensações foram minhas na época. Quero muito ter a oportunidade de rever e perceber quais as sensações que me causará.

  3. Fátima Braga disse:

    Vi o espetáculo duas vezes e adorei.

  4. Paula de Renor disse:

    Breno, muito boa sua análise. Não pelos elogios ( que claro, adorei!), mas pela forma competente de escrita e linha de percepção! Concordo plenamente: faltou ensaio na apresentação do Janeiro! Bj

  5. Alberto Saulo disse:

    Que bela interpretação, Breno! Legal um olhar assim, além do “gosto-não-gosto”!

  6. Ana Paula Sá disse:

    Concordo com muita coisa, mas tive a sensação inversa em relação a duas apresentações que vi. A primeira no último dia da temporada – me pareceu muito difícil, porque o texto me incomodou demais pela assepsia e pedantismo, pelo intelectualismo comentado por Breno, mas nem pelas referências, muito mais pela forma como é escrito/dito, causando uma rejeição quase completa. Tenho dúvidas se a desconstrução ameniza ou acentua isso. A segunda, no JGE – me pareceu outra coisa, as duas mais tranquilas para fazer a coisa toda acontecer, o espetáculo me pareceu mais leve, mais fluido, e o texto (que surpresa) nem me incomodou tanto desta vez. Incrível, porque na saída comentava com outras pessoas que também estavam vendo pela segunda vez e tinham sensação semelhante, não sei se influenciados por todas as outras montagens em cartaz, mas compartilhamos a sensação que o espetáculo tinha crescido muito e as más lembranças pareciam não mais fazer sentido. Não à tôa recebeu alguns prêmios, não é? Parabéns a Paula, a Sandra e a toda a equipe. Sucesso para Duas Mulheres. Parabéns Breno pela crítica isenta.

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