Vestígios ou Vestígios de um gozo proibido, por Igor de Almeida

vestigios

Vestígios, pela lente de Américo Nunes

Igor de Almeida por Duda Martins: O meu registro documental sobre a Companhia Teatro de Seraphim me rendeu boas amizades. Uma delas foi Igor. Rapaz novo, mas ousado. Admiro muito quem não apenas diz ser amante do teatro, mas se jogar com tudo para estudá-lo, digeri-lo e tentar entendê-lo (talvez nunca consigamos). Igor é um estudioso. Foi atrás da sua grande paixão e hoje é professor. Pode ensinar e falar com muita propriedade. Desta vez, ele se dispôs a ser um mero espectador e escrever sobre Vestígios, um texto de Aimar Labaki, sob a montagem de Antônio Cadengue,  a quem nossa cena deve muito. A peça, que trata entre outras coisas sobre opressão, (tema que nunca saiu de pauta), esteve em cartaz por duas vezes no Recife, e este ano viaja em turnê pelo Brasil. Veja Vestígios sob o olhar de Igor:

igor

Professor, pesquisador, ator e ensaísta. Atualmente, cursa o doutorado em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo, com orientação de Ingrid Dormien Koudela. Morando entre São Paulo e Recife, prepara-se para um estágio de doutoramento na Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3, sob orientação de Josette Féral, a partir de março de 2013. Tem como objeto de estudo a Companhia Teatro de Seraphim.

Vestígios de um gozo proibido

Por Igor de Almeida da Silva

Em reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo sobre a recente constituição da Comissão da Verdade no Brasil, designada a investigar casos de violação aos direitos humanos em nosso país entre 1946 e 1988 (compreendendo nesse período duas ditaduras), a psicanalista Maria Rita Kehl, uma das integrantes da comissão, questiona o porquê do incômodo de altas patentes militares, envolvidas em casos de tortura, com o esclarecimento e divulgação desses acontecimentos se a ação desta comissão não tem caráter punitivo. Ela apresenta duas hipóteses: “A otimista seria a de que têm vergonha do que fizeram. Mas a pessimista, ou realista, é: existe um gozo na teoria psicanalítica, que é o gozo proibido. Tão sem freios que no limite é mortífero” (Apud KACHANI, 2012). Segundo a psicanalista, “A pessoa que está diante do corpo inofensivo dispondo dele a seu bel-prazer, está gozando. Então me parece que o grande vexame, e não a culpa ou o medo, é o sentimento que pode predominar entre aqueles que terão seus nomes citados eventualmente. Como se fossem devassados no seu sentimento mais íntimo” (Apud KACHANI, 2012).

Este “gozo proibido”, da ordem do inconsciente, que impulsiona os atos de tortura e opressão no lugar de motivações exclusivamente ideológicas, parece ser o leitmotiv do espetáculo Vestígios, texto de Aimar Labaki e encenação de Antonio Cadengue, que cumpriu temporada de agosto a novembro de 2012, no Recife. Trata-se de um espetáculo que discute a tortura, ou melhor, seus vestígios. Na trama, dois investigadores, Cardoso e Marcos, torturam um jovem professor universitário, Marcelo, acusado de assassinar uma moça desaparecida há mais de dez anos. Como vestígio dessa desaparição, resta apenas uma cabeça, da própria moça, que surge inesperadamente na cama de Marcelo. O rapaz abandona essa cabeça sem corpo na frente do Instituto Médico Legal. Em seguida, é preso e torturado afim de que confesse o suposto crime e revele a localização do corpo. No entanto, a trama se complica, tornando-se cada vez mais insólita. Marcelo vê-se então sob a suspeita de envolvimento com organizações internacionais ligadas a Cuba e a antiga União Soviética, que atuaram no Brasil ainda nos anos 1980, no final da Ditadura Militar. Os investigadores buscam a verdade obsessivamente, mas, sobretudo, nomes. A verdade sempre possui um nome. É o que acreditam. É preciso nomear, dizer quem é, o que se é.

Porém, esta interpelação constante dos investigadores disfarça uma dicotomia presente na peça e que é metaforizada por essa cabeça apartada de seu corpo. Em outras palavras: razão e instinto, consciente e inconsciente. Antes de se iniciar uma sessão de tortura, na qual Marcos irá estuprar Marcelo, os torturadores confessam:

“CARDOSO – Eu não vou ver. Eu não gosto de ver. Eu não me importo de fazer. Mas fazer é o corpo. E o corpo esquece. A cabeça, esta não esquece.

MARCOS – Comigo sempre foi o contrário. Meu cérebro não retém nada. Mas meu corpo se lembra de cada movimento, cada carícia, cada dor”. (LABAKI, 2010)

Ambos concebem corpo e mente de modos diferentes. Isto é claro. Porém, o que se evidencia é que ambos recusam o ato de ver. Negam-se ou simplesmente não podem. São incapazes de enxergar. A valorização do corpo para ambos talvez seja um modo de permanecerem ao nível dos instintos, do inconsciente, daquilo que não nomeiam. Não ousam. Contradição, pois buscar nomes, ou verdades, é sua principal função.

O inconsciente, portanto, mostra-se como força propulsora dos personagens e da própria ação dramática do texto. Aqui, há apenas pulsões. Nesse sentido, a encenação imprime uma atmosfera de pesadelo e obsessão ao espetáculo. Tudo se passa numa sala de tortura recortada por biombos de vidro suspensos, de formas geométricas irregulares, como estilhaços em grandes proporções. Por trás desses biombos, encontra-se a sala dos investigadores que monitoram todos os movimentos e reações de Marcelo. É uma outra câmara que se revela ao espectador a depender dos efeitos da luz, ora expondo o que há por trás dessas cortinas de vidro, ora rebatendo o reflexo do interior da sala onde se encontra Marcelo. Porém, essas imagens refletidas são distorcidas. Não se oferecem reproduções de uma realidade, mas reflexos de um espelho cindido que questiona o real no lugar de reproduzi-lo. As imagens geradas por esses falsos espelhos produzem fantasmagorias que duplicam as cenas de tortura da peça. A iluminação e a trilha sonora reforçam e ampliam esse efeito.

A encenação enceta um mecanismo de repetição e automatismo. Com cenas de torturas que se repetem sem que o espectador tenha certeza se se trata de um delírio de Marcelo, já debilitado psicológica e fisicamente, ou de algo imposto pelos investigadores, como acontece quando Cardoso pede, por duas vezes, que Marcelo (professor de história) descreva procedimentos de tortura. Na primeira vez, o professor está apenas de calça; na segunda, nu e visivelmente insano. Assim como o torturado, o espectador parece ser também envolvido neste clima de pesadelo, perdendo-se nessa profusão de fantasmagorias e cenas de suplício.

De certa forma, os torturadores são autômatos, pois seus gestos são irrefletidos. Nos intervalos das sessões de tortura, reiteradas vezes, ilumina-se a câmara dos investigadores onde eles, num mesmo movimento, bebem água, como se fossem duplos um do outro, num gesto obsessivo, como se por meio da água buscassem a purificação de seus atos. Mas, ao mesmo tempo, esse signo remete a própria obsessão dos militares de controle e higienização de tudo o que eles consideravam subversivo ao país. Esse gestus é ao mesmo tempo síntese e vestígio dessa obsessão.

No piso, uma imagem abstrata vermelha pulula do cenário negro. Ela sugere uma grande poça de sangue, mas também uma espécie de redemoinho que vai tragando os personagens na medida em que a peça avança. Todos são atraídos por esse redemoinho, torturadores e torturado, mestres e escravo, pois, por intermédio do sofrimento impingido a Marcelo, os investigadores confessam suas obsessões e conflitos interiores.

Devido ao ofício, ambos levam uma vida dupla. Contudo, essa partição permite o exercício de outros aspectos de suas personalidades. Marcos fala claramente de uma moral na casa e outra na rua. Uma moral para seu “trabalho” de torturador e outra para sua família:

“No fundo, o que a gente é? Um tipo de polícia mesmo. Não é só isso, o que eu faço, que eu deixo pra fora quando entro em casa. Deixo também uma parte enorme da minha vida pessoal. O que eu gosto, o que eu não gosto, o que eu faço no escuro do meu desejo. Por que o meu desejo sempre foi na rua, mas fora do sol. A família é o lugar do dever. Não o lugar do prazer. Família, com prazer, vira baderna. Mas eu tô sempre ligado, por que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Se eu vacilo, meu trabalho, meu desejo, aparecem. Como se tivesse umas migalhas escondidas na camisa, e quando eu fosse tirar, caíssem no chão, me entregando. Migalhas de prazer, migalhas desse meu dever. Que eu escondo para não perder as migalhas que eu tenho lá dentro de casa, dentro de mim. Eu escondo as minhas migalhas, pra poder escolher entre as migalhas que a vida me oferece. É sempre melhor poder escolher”. (LABAKI, 2010)

Chega-se ao gozo proibido do opressor, seu desejo inconfesso, que o personagem refere-se de modo indistinto como prazer e dever. Escondendo essas “migalhas”, ele pode exercer seu domínio.

Vestígios se passa em meados dos anos 1990, após o processo de redemocratização do país, mas o que o espetáculo evidencia é a latência desse gozo proibido, talvez o lado inconsciente da verdade a qual a Comissão composta em maio de 2012 deve trazer ao conhecimento público. O espetáculo demonstra que como vestígio esse gozo de que fala Kehl permanece potente. Sua permanência na obscuridade, a despeito do fim de período ditatorial, não pressupõe sua supressão. Pelo contrário, seu retorno é uma ameaça constante. Enquanto “migalha” imperceptível, ele pode “escolher”. Talvez seja esta uma das principais funções da Comissão da Verdade, que se pode perceber por meio desse espetáculo: impedir a possibilidade de escolha do gozo proibido, ao trazê-lo à claridade, varrendo, dessa forma, seus últimos vestígios, suas migalhas.

Referências Bibliográficas

KEHL, Maria Rita. Apud: KACHANI, Morris. Integrante associa tortura a ‘gozo proibido’. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 de maio 2012.

LABAKI, Aimar. O teatro de Aimar Labaki. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.

Ficha Técnica do espetáculo Vestígios

Texto: Aimar Labaki

Encenação: Antonio Cadengue

Elenco: Carlos Lira (Cardoso), Marcelino Dias (Marcos) e Roberto Brandão (Marcelo)

Trilha sonora original: Eli-Eri Moura

Cenografia: Doris Rollemberg

Figurinos: Anibal Santiago

Iluminação: Saulo Uchôa

Assistente de direção: Rudimar Constâncio

Assistente de produção: Elias Vilar


[i] Igor de Almeida Silva é doutorando em Artes Cênicas pela ECA-USP e mestre em Letras pela UFPE. Autor do livro Réquiem à infância (Recife: Bagaço, 2009), em que estuda as peças Um sábado em 30 e Viva o cordão encarnado, de Luiz Marinho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s