Viúva porém Honesta ou A farsa mais que irresponsável do Magiluth, por Lúcia Machado

Foto: Divulgação

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Lúcia Machado por Duda Martins: Tive a oportunidade de dirigir Lúcia no documentário que fiz sobre a Cia Teatro de Seraphim. Quer dizer, dirigir, dirigir não é bem a palavra. Como bem lembro ela dizer durante o doc, ela sempre foi “das letrinhas”, quando fazia questão de escolher o texto para as montagens desta memorável companhia teatral em Pernambuco. Mas quando se fala em interpretação, cá entre nós, acho que nunca precisou de direção. Quando Lúcia interpreta, ela se transforma. Quando pega um texto de teatro, não tem pra ninguém. Digo isso porque tive a chance de vê-la em cena em alguns vídeos e mesmo interpretando trechos de peças na minha frente, ao vivo e à cores. Que privilégio. De personalidade mais que forte,  e responsável pela projeção do nosso teatro em vários sentidos, fiz questão de saber qual a impressão que ela tinha sobre a montagem do Magiluth para Nelson Rodrigues. Ei-la!! Se deliciem com esse texto, assim como eu. 

lucia

Atriz e produtora da Cia. Teatro de Seraphim/PE. No XV FRTN, organizou a publicação Festival Recife do Teatro Nacional – 15 anos de cena. Recife: FCCR, 2012. (lançada no Festival, em novembro/2012). Atualmente, dá continuidade à sua pesquisa sobre o teatro de Aristóteles Soares e ensaia a peça As Confrarias, de Jorge Andrade, com direção de Antonio Cadengue.

A farsa, mais que irresponsável, do Magiluth

Por Lúcia Machado

Teatro… Me parece que es teatro…

Viúva, porém honesta, denominada pelo próprio autor, Nelson Rodrigues, como uma “farsa irresponsável”, foi escrita em dois meses e duas semanas – escrita, ensaiada, produzida e estreada, em 13 de setembro de 1957, no Teatro São Jorge, Rio de Janeiro – logo após encerradas as apresentações de Perdoa-me por me traíres, em 29 de junho do mesmo ano.

Segundo alguns estudiosos, a nova peça seria um revide, resposta ou “vingança” de Nelson às duras críticas que merecera Perdoa-me…, embora algumas vozes o tivessem aplaudido. No entanto, o que mais se ouviu na estreia, da crítica, do público, dos desafetos, foi uma uníssona vaia, xingamentos, a que o autor-ator [interpretava Tio Raul] também exaltado e aos berros, respondeu: “Burros! Zebus!”[1] [Mais tarde, refletindo sobre os incidentes da tumultuada estreia, Nelson escreve: “Quem não gosta, simplesmente não gosta, vai para casa mais cedo, sai no primeiro intervalo. Perdoa-me por me traíres forçara na plateia um pavoroso fluxo de consciência. E eu posso dizer, sem nenhuma pose, que, para a minha sensibilidade autoral, a verdadeira apoteose é a vaia.” [2]]

Uma farsa, e como tal, transitando pelo terreno do riso, do deboche, do cômico grosseiro e bufão, da forte empatia popular; é na farsa que o público vive momentos de relaxamento, de entretenimento, de diversão, afastando-se qualquer sentido de verossimilhança. [À veracidade de fatos em suas peças, Nelson contrapunha: “A História que vá para o diabo que a carregue…”[3]] Para “apimentar” a sua farsa, o autor acrescenta-lhe o atributo “irresponsável”, o que enfatiza o sentido libertador do próprio riso diante de uma sociedade hipócrita, opressora, corrupta, corrompida por falsos moralismos e tabus. No caso de Nelson, e desta peça, em especial, o tabu do sexo, numa sociedade falsamente moralista; tanto que o novo crítico “contratado” é logo avisado de que o jornal A Marreta é contra sexo.

O Magiluth “apimenta” mais com seu jogo de cena.

A trama gira em torno de uma viúva, Ivonete, de 15 anos, que, após a morte do marido, Dorothy Dalton, não mais quer sentar-se. Está posto o problema que o pai, Dr. J. B. de Albuquerque Guimarães, diretor do jornal A Marreta, influente periódico do país, precisa resolver para que sua filha volte a casar-se. Para tanto, contrata três especialistas, chalatões (uma ex-prostituta, um psicanalista e um otorrinolaringologista), e se vale também das peripécias do Diabo, Dr. Diabo da Fonseca que, ao final, resolve o impasse: ressuscita o marido morto [homossexual, ex-fugitivo da Febem, alçado à condição de crítico teatral do jornal, atropelado por uma carrocinha de picolé “Chicabom”] e conquista as graças da viúva. Das suas artimanhas, resulta a traição de Ivonete, frente a um Dorothy indiferente, a ler um gibi [“Minha vingança é que ela vai-te trair, direitinho.”[4]] A viúva, não mais honesta, está livre para casar-se com o Dr. Diabo da Fonseca. Um beijo sela a união dos dois. Ivonete está, enfim, livre para sentar-se. [A esse respeito, Marcelo Coelho faz uma interessante leitura: “Não se sentar significa não assistir ao espetáculo; não se sentar, sair no meio da peça, significa recusar-se a ver aquilo que o autor está mostrando, isto é, a verdade sexual de cada espectador. (…) Se Ivonete não se senta, Dorothy Dalton encarna uma outra proibição, que perpassa a peça. É a proibição de falar. (…) Falar e fazer sexo, abrir a boca e transar, são analogias tão presentes na peça quanto a de sentar-se e “fazer alguma indecência”. Mas quem fala é o ator, quem se senta é o público…[5]] Observe-se também o jogo sutil do autor quando faz o Dr. J. B. dizer que Dorothy Dalton sentou-se na sua alma [grifo nosso], e o uso nada sutil da referência pelo Magiluth, colocando o crítico no colo de Dr. J. B.; e brincando, de forma hilariante, com o jogo de “senta/levanta” em outras passagens.

A farsa, mais que irresponsável do Magiluth, apropria-se do tom característico do gênero, com naturalidade e propriedade, lançando mão do deboche escancarado, máscaras corporais, faciais, situações e gestos cômicos, a estes acrescentando criações originais, como é o caso das batatas atiradas em cena. A montagem ressalta, ainda, outros aspectos importantes do gênero: a teatralidade, o jogo cênico, a elaborada técnica corporal do ator.

Com efeito, o que vemos em cena são intérpretes talentosos, plenamente disponíveis e entregues ao jogo da farsa, explorando ao máximo suas qualidades expressivas. Estão à vontade e felizes de estarem num espaço que eles dominam, o palco, e fazem disso uma festa. Festa que se estende à plateia, cúmplice e partícipe da celebração. O certo é que, em termos de sintonia, o espetáculo “pegou” o espectador, que aplaude, entusiasticamente, várias vezes, em cena aberta. E o Magiluth “pegou”, melhor seria dizer consolidou, o “seu” público, a “moçada”, principalmente nessa montagem. É como se o texto de Nelson e a performance do Magiluth oferecessem a esse público a oportunidade de ir à forra contra as opressões da realidade e da razão.

Com o palco praticamente desnudo, cerca de 15 cadeiras dispostas em U, figurinos,  adereços e mesa de sonoplastia à vista, o público é recebido com rosas vermelhas, artificiais, entregues por alguns atores enquanto outros se aquecem no palco, coreograficamente; ao fundo, a voz enrolada e pastosa de Nelson… até que uma voz linda de mulher canta um bolero dolente: teatro… me parece que es teatro… simulacro…teatro… Está posto. Estabelecem-se as conexões – palco-plateia. Diz-se a que se veio.

Fiel ao texto (embora, vez por outra, brinque com algumas referências não textuais, ao sabor da farsa – Carrapeta/Vampeta; Sedex/Sedex 10 – ), o Grupo optou por trabalhar somente com atores, revezando-se em todos os papéis (os femininos, inclusive: Ivonete, Madame Cricri, Tia Assembleia, Tia Solteirona), utilizando apenas alguns adereços marcantes para cada um deles, a exemplo das longas tranças louras de Ivonete; do chapéu de Madame Cricri; do charuto de Dr. J. B.; da peruca loura e écharpe de Dorothy. No mais, as caracterizações ganham força e identidade próprias por meio da equilibrada interpretação dos atores; corpo, voz, gestual, movimentação, plenamente harmonizados, e harmonizados em conjunto. E isto pressupõe pesquisa, trabalho, técnica, exercício, experimentação e… suor. E eles suam, literalmente, no palco (o revezamento dos papéis, a movimentação, o ritmo, às vezes alucinante, a exigir um preparo físico à altura da empreitada…) numa entrega prazerosa de se ver, e que chega à plateia. É, portanto, no jogo dos atores, que a farsa melhor se realiza.

A direção acertou no ponto; direção, que também assina a iluminação e a sonoplastia, esta última contribuindo para realçar ainda mais a proposta do grupo (destaque para as interseções de diversos ritmos ou gêneros musicais: o frevo, a ciranda, o rock, o pop, a ópera, a quadrilha matuta – o diretor que também é marcador/ padre do casamento. Confronte-se que, na peça, o Dr. J. B. funciona como um diretor de teatro, em algumas cenas, por meio de flashback – a encenação do casamento de Ivonete com Dorothy Dalton, distribuindo os chapéus, por exemplo.

Direção, direção de arte, atores, técnicos, num trabalho conjunto, tudo confluindo para um resultado cênico de qualidade, inteligente e responsável. Atributos que vêm caracterizando a trajetória do Grupo, através do qual o teatro pernambucano tem repercutido em outros centros culturais. E isso é muito bom.

Lúcia Machado


[1] CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Cia. das Letras. 1992, p. 274.

[2] Idem, p. 276.

[3] Idem, p. 245.

[4] RODRIGUES, Nelson, 1912-1980. Teatro completo: volume único. Org. e prefácio Sábato Magaldi. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993, p. 469.

[5] COELHO, Marcelo. Viúva, porém honesta e a crítica teatral, in A esfinge investigada – seminário Recife Nelson Rodrigues 2006. Org. Aimar Labaki/ Antonio Edson Cadengue. Recife: FCCR, 2007, p. 176.

Ficha Técnica

Texto: Nelson Rodrigues. Direção, iluminação e sonoplastia: Pedro Vilela. Direção de arte: Simone Mina (SP). Montagem técnica: Thiago Liberdade. Produção executiva: Mariana Rusu. Elenco: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Pedro Wagner e Mário Sérgio Cabral. Fotografia de Victor Juca.

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3 comentários em “Viúva porém Honesta ou A farsa mais que irresponsável do Magiluth, por Lúcia Machado

  1. Amedar disse:

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    “Magiluth oferecessem a esse público a oportunidade de ir à forra contra as opressões da realidade e da razão”.

    Que pena! Mas não vejo vantagem alguma em sairmos da razão e mergulharmos na irreverência, na imoralidade, ou coisa que valha, com a desculpa de irmos contra as opressões da sociedade e etc etc. Mas antes que me condenem, não sou moralistas, puritana nem nada disso, e tem mais, adoro o grupo e vejo nele grandes talentos, admiro demais o amor que eles tem pelo trabalho, vejo muita dedicação e paixão, mas felizmente tenho direito de expressar a minha opinião, e dizer que a peça me incomoda, sobretudo quando o diabo parece ser ovacionado como um deus, aí você pode dizer “ah, mas o diabo é uma figura patética, não existe, é um personagem do imaginário popular”, espero que você não esbarre com ele…repetindo, gosto muito do Magiluth, mas a mensagem por trás, pela frente, por todos os lados do texto, em nada me fazem bem…em nada me transforma em alguém melhor. Saiu do teatro encantada com a criatividade e pesarosa com a escolha do texto.Os amantes de Nelson Rodrigues que me perdoem.

  3. Bela disse:

    É vergonhoso para a classe teatral e muito mais para a dramaturgia de Nelson Rodrigues tão profunda e contundente assim como a vida que se vive, é totalmente desprezível e desqualificada tem apenas o mesmo título que a original….VERGONHA!!!! Não percam seus preciosos tempos e $ conhecedores e fãs de Nelson sintam-se desrespeitados com essa cia. de quinta categoria !

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