Auto do Salão do Automóvel, por Mateus Araújo

autodosalao6-foto

Foto: Divulgação

Mateus Araújo, por Duda Martins: Conheci Mateus, creio, no ano passado. Ele não sabe, mas o considero meu sucessor no Caderno C. E tenho muito orgulho disso. Ele é novinho, pequeno, mas danado.  Faz um monte de coisas ao mesmo tempo e bem feitas. Mateus também é louco por teatro e fã confesso do Magiluth (todos somos). Dizem que ele tem a cultura popular correndo nas veias e isso também é bom ao meu ver. Ontem, fomos assistir Auto do Salão do Atomóvel, por Kléber Lourenço, dentro do 19º Janeiro de Grandes Espetáculos. Vejam, que legal, o olhar de Mateus sobre esta montagem.

mateus2

Mateus Araújo é repórter do Caderno C, a editoria de cultura do Jornal do Commercio. Já fez teatro, se divide entre as faculdades de Jornalismo e Cinema, e hoje topou ser um Mero Espectador.

Por Mateus Araújo

Um Osman Lins atemporal. Auto do salão do automóvel, espetáculo dirigido por Kléber Lourenço e apresentado no Janeiro de Grandes Espetáculos na última segunda-feira (21), ergue-se numa dramaturgia experimental e metafórica para falar do caos urbano chamado trânsito, que aos poucos vai engolindo a grande metrópole e robotizando a sociedade. O roteiro, que ainda embora pareça contemporâneo, foi escrito em 1969. Sendo assim, com um ar quase profético.

Auto… compõem uma trilogia (junto com Mistério das figuras de barro e Romance dos dois soldados de Herodes) de peças escritas pelo dramaturgo pernambucano entre 1969 e 1970, quando então morava em São Paulo. São textos que discutem a vida nas grandes cidades.

O roteiro é fragmentado, dividido em cinco blocos e fala de um cotidiano guiado e regulado pelas ordens dos guardas, que refletem no distanciamento das pessoas, mecanizadas e embebedadas por um vocabulário cinza de marcas, peças e jargões automobilísticos. Em contraponto, mostra o desejo de liberdade daqueles que “teimam” em ir de contramão às regras, que vai gerar uma revolução dos pedestres. É um texto claramente difícil de ser montado, pelo jogo de palavras e de ideias usadas por Osman. Chega a ser cansativo.

Essa mesma peça foi montada há 42 anos pelo Teatro Popular do Nordeste (TPN), com direção de José Pimentel. Até hoje não se tinha um registro de outra encenação do texto. A ideia de retomá-lo foi do projeto Transgressão em três atos, dos jornalistas Alexandre Figuerôa, Claudio Bezerra e Stella Maris Saldanha, que pesquisam o teatro pernambucano a partir dos já extintos grupos THBF, Teatro Popular do Nordeste e Vivencial.

Na nova montagem, em cena, além da própria Stella Maris, estão os atores Zé Ramos, Evandro Lira, Alexandre Guimarães e Roger Bravo. Eles se dividem entre os papeis de guardas e pedestres, sobretudo. Zé Ramos também é bom, mas parece preso, não tem seu potencial tão explorado. Evandro Lira tem uma interpretação convincente quando preza pelo texto mais sério, mas peca nos trejeitos quando vive o papel cômico, o mesmo que acontece com Roger. Alexandre usa um tom de voz que não favorece muito sua interpretação, falta uma impostação melhor.

Stella segue uma linha de interpretação que preza pela dicção paulatina, como quem vê e sente cada palavras que diz, o que muitas vezes facilita o entendimento do espectador –lembrando aqui da complexidade das metáforas do texto, que poderiam ter sido melhor digeridas pela direção. Stella tem como ápice da sua encenação o quadro Cruzamento, quando fala, entre outras coisas, da solidão. É uma cena forte, mas que não tira a atriz de uma zona de conforto em que fica durante o restante do espetáculo. Faltou a Stella d’Os fuzis da senhora Carrar, que ela viveu em 2010, na primeira parte do projeto Transgressão.

A maquiagem assinada por Marcondes Lima é boa. Ela dá aos personagens um olhar de desespero, loucura e mecanização a que estão involuntariamente submissos. O cenário, também de Marcondes, é maravilhoso: separa os personagens em postos e usa sucatas e carcaças de carros. A iluminação, assinada por Jathyles Miranda, também é boa, assim como a trilha sonora de Missionário José.

Para fazer a transição dos quadros foi usado acertadamente o recurso de projeção de imagens. Os vídeos feitos por Orlando Nascimento e Rafael Coelho exploram o cotidiano do Recife moderno, hoje tão parecido com a São Paulo de Osman de 1969.

Ficha Técnica: Texto: Osman Lins. Direção: Kléber Lourenço. Consultor Dramatúrgico: Luís Reis. Direção de arte: Marcondes Lima. Assistente de direção de arte: Guryva Portela. Cenotécnicos: Adejair Pereira da Silva, Maíra Lisbôa e Cajú. Costureira: Maria Lima. Iluminação: Játhyles Miranda. Operador de luz: João Paulo. Videomaker: Orlando Nascimento. Montagem e finalização de vídeo: Rafael Coelho. Trilha Sonora: Missionário José. Operação Multimídia: Veejay Mozart. Assistência de produção: Antônio Nogueira e Aymara Almeida. Produção executiva: Claudia Moraes. Elenco: Stella Maris Saldanha, Zé Ramos, Roger Bravo, Alexandre Guima e Evandro Lira. Fotografia de Claudia Moraes.

Anúncios

5 comentários em “Auto do Salão do Automóvel, por Mateus Araújo

  1. Leidson Ferraz disse:

    Uma correção histórica: Inicialmente, o texto foi montado pelo Teatro Popular do Nordeste (TPN), com direção de José Pimentel, e não o Teatro Hermilo Borba Filho (THBF), que era dirigido por Marcus Siqueira.

    • Stella Maris Saldanha disse:

      Um lapso, Leidson, pois Mateus fez matéria para o JC sobre o espetáculo e lá a informação estava correta: o Auto do Salão do Automóvel foi montado pelo Teatro Popular do Nordeste, TPN, em 1970.

  2. Mateus Araújo disse:

    Leidson, errei a informação. Mandei uma mensagem agorinha para Duda corrigir. Como disse Stella, foi um lapso. Desculpa, gente. E brigado pela correção :)))

  3. Conheci o site agorinha mesmo! Parabéns, Duda!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s