Las Tribulaciones de Virginia, por Marcondes Lima

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Foto: Divulgação

 

Marcondes Lima por Duda Martins: Marcondes é um ser à parte, né? Admiro todos os seus braços. Como ator, diretor, bonequeiro, cenógrafo, figurinista e por aí vai…criador. Esse cara é um tremendo criador. E hoje,treinou o ofício de Mero Espectador, criticando a peça Las Tribulaciones de Virginia, dos talentosos irmãos Oligor, apresentada no 19º Janeiro de Grandes Espetáculos.

Ficha Técnica:

Ator e diretor: Jomi Oligor.

Apresentador e técnico: Pepe Oligor.

Produção: Lucia Erceg.

Fotografia de Joaquim Gomez Sastre.

marcondes

Marcondes é professor do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da UFPE, onde dá aulas sobre Elementos Visuais do Espetáculo. Integrante do Mão Molenga Teatro de Bonecos e do Coletivo Angu de Teatro, também atua como encenador e diretor de arte, ator e bonequeiro, em criações para teatro, dança, ópera, cinema e vídeo.

Por Marcondes LimaCriar intimidade é simples, mas dá trabalho. Pra ser verdadeira ela exige identificação mútua. É coisa de quem tem muita coragem e não tem vergonha do ridículo. As “tribulações” são muitas e fico aqui só com dois sinônimos dessa palavra: aperto e apuro. Penso que muitos carecem de paciência para entrar nesse jogo. Mas quando isso é feito com amabilidade e delicadeza, toca fundo na alma e quebra barreiras de tudo quanto é tipo. É isso que se vê e se vive durante o espetáculo Las Tribulaciones de Virginia, que também poderia ter sido batizado de “Torturas de um Coração Valentim”.

Brincar com nossas intimidades e as dos outros é coisa séria. Brincar, todos deviam saber, é coisa seríssima. E amar, como me falou uma amiga ao sair do espetáculo, é uma “brincadeira”. Porém, quando nos esquecemos disso (não adianta muito elencar motivos), o que é lúdico e prazeroso pode se transformar em nó cego; ou macramê, para os mais caprichosos. Quando um laço de afeto se desfaz as reações são as mais adversas e diversas: há quem corra atrás do prejuízo, há quem deseje vingança por ser abandonado, há quem procure a “ajuda” de alguém para dar conta da demanda e há outros que se enrodilham num canto e trabalham sobre a dor.  A música, o teatro e o cinema se refestelam com esse “cacoete” humano.

A artista francesa Sophie Calle recorreu a mais de 100 mulheres para entender e responder à altura a carta “pé-na-bunda”, enviada, por e-mail, pelo seu ex-namorado Grégoire Bouillier. O resultado foi uma memorável instalação intitulada Cuide de Você. Os Oligor, que assinam Las Tribulaciones, seguiram por outro caminho para desatarraxar suas dores: se enfurnaram num porão valenciano e de lá saíram com um belo poema cênico-visual. Estendo essa ponte entre as duas obras ao lembrar que os citados artistas espanhóis também passaram por escola de Belas Artes antes de se empenharem na construção da experiência cênica apresentada no 19o Festival Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco. E o espetáculo fica exatamente nesse meio caminho entre o teatro e as artes visuais; algo que, diretamente, remonta aos antecedentes do teatro de formas animadas: experimentos feitos por dadaístas, futuristas, surrealistas e outros representantes das vanguardas modernistas do século XX.

O espaço onde ocorre a representação é intimista. Talvez, para alguns mais “expansivos”, seja até claustrofóbico. Bem apropriado para a revelação de memórias mantidas longe da luz da racionalidade cotidiana – aquela que teima em engolir a poesia oferecida pela vida a cada instante. Sendo impelida a falar, uma espectadora adulta até se referiu a ele como uma caverna. Para minha filha Muriel, de nove anos, pareceu um “cirquinho apertado”. Para mim ele se impôs como uma jaula de zoológico ocupada pela atração e pelos espectadores, desconfortavelmente confinados, escondidos no aparente conforto da escuridão. Provavelmente a imagem daquelas empanadas improvisadas com móveis e lençóis, bem recorrentes nos jogos de faz-de-conta infantis, deve ter sido evocada por alguém. Mas a atmosfera que a todos envolvia, apesar de lúdica, era meio pesada, fantasmagórica, lúgubre; de lugar onde vão parar coisas descartadas.

Diante de uma obra de arte, as imagens que se formam no íntimo do espectador se equiparam aos mistérios que tornam cada pessoa um ser único. Os Oligor são hábeis em criar essas sugestões e deixá-las em aberto para que os olhos do outro a completem, transformando quem vê num criador; em poeta entregue ao jogo da fabulação que se constrói dentro e em torno de si.

Timidamente, num sussurrar muitas vezes inaudível, oscilando entre o desagradável e o encantatório,  Jomi/Valentim, o ator-personagem, foi guiando aquele pequeno grupo de pessoas a um encontro com infâncias  e amores  perdidos em algum ponto de suas histórias. Não por outro motivo eu presenciei duas senhoras confrontando suas “crianças interiores” e seus “fantasmas da adultice”: uma comentava, perguntava, completava a cena com sua interpretação, enquanto a outra a recriminava. Carla Denise, minha companheira de vida e de Mão Molenga Teatro de Bonecos, depois do espetáculo, comentou que a platéia recifense é sempre muito “participativa”. Concordo com ela: não é preciso muita corda para que a caçamba comece a ficar cheia… Às vezes passando dos limites. Beirou isso naquela noite.  De qualquer forma, quem disse que intimidade e liberdade de expressão são coisas fáceis?

Recriminações à licença poética do vizinho de ombro foram recorrentes e me fizeram lembrar que a tal liberdade e a danada da intimidade exigem seu preço e realmente não são pra todo mundo… Mas isso é tema para tese e não para se desenvolver aqui. O fato é que os pouco mais de cinqüenta espectadores entraram mesmo no universo paralelo em que os Oligor passaram quase quatro anos a criar autômatos, traquitanas, bonecos e objetos mecanizados. Embarcaram junto com eles numa jornada através de memórias doloridas e mútuas. O tom confessional se mostrou tão contagiante que lá para as tantas alguém da platéia tomou coragem de desfiar parcialmente suas intimidades afetivas em público.

As “senhas”, bastante claras, foram dadas aos espectadores logo na entrada: não se tratará de uma experiência teatral com narrativa convencional. E regras do jogo são lembradas e relembradas lá dentro pelo performer. Uso esse termo porque Jomi Oligor, o que dá a cara à tapa na cena, não se considera nem ator nem bonequeiro. Mas também podemos chamá-lo apropriadamente de brincante, de poeta ou simplesmente de artista. A realidade e a ficção são ali embaralhadas de forma que todos se sentem envolvidos e atuantes. A história a ser contada é de todos nós; ela pode ter contornos diferentes, mas o conteúdo é desconcertantemente familiar. Prova disso explode na conclusão “apoteótica”, que leva a platéia a viver o utópico e redentor “final feliz” para Valentim e para todos.  Mesmo sabendo que a fantasia dos “fogos de artifícios” é coisa fugaz…

Como vocês podem deduzir, a narrativa se constrói sobre um fiapo de enredo pra lá de batido: o descompasso amoroso entre Virgínia e Valentim; dois seres, com alma de artista, que se encontram e se desencontram. No jogo de cena eles são apenas mostrados e não incorporados. Não existe efetivamente animação de formas, como vemos convencionalmente no teatro de bonecos. Quem “desenha” e re-vive o drama é o contador da história do casal. Ali reside a exibição da fragilidade humana, feita de forma simples, desconcertante e verdadeira. Nesse ir e vir a dramaturgia se torna densa; de construção a um só tempo delicada e complexa. É um bom exemplo de obra teatral pós-dramática: onde o texto dramático é quase totalmente reduzido a pó para deixar ainda mais potente o texto cênico. A forma como isso é feito em Las Tribulaciones de Virginia exige um olhar carinhoso e cúmplice por parte do espectador. Me pergunto até agora: Quantos “corações Oligor”, como aquele que foi oferecido a uma moça que estava sentada na primeira fila, estão espalhados  pelo mundo? Quantos “corações Valentim” Jomi já viu parar? Quantas vezes deixamos de “dar corda” nos nossos?

Metáforas sobre metáforas se amontoam ao longo do espetáculo. Até mesmo aquilo que pode ser considerado como deficiência técnica (vocal, de iluminação), bastante acentuada em alguns momentos daquele jogo cênico, pode ser tomada como significativa. Quantas coisas deixamos de enxergar, de dizer e de escutar, quando o assunto é amor? Eu só consegui enxergar os detalhes das minúsculas figuras através das fotos de divulgação. Objetivamente isso se deveu mais a pouca luminosidade do que à distância entre os objetos e os meus olhos. No entanto isso não me impediu de ver as minúcias daquela fábula sobre o amor e o amar, frágil e delicada (em múltiplos sentidos) como a sensibilidade das crianças e daqueles que fazem da vida uma poesia.

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5 comentários em “Las Tribulaciones de Virginia, por Marcondes Lima

  1. mestreseo disse:

    i think this blog is very informative though. mestreseo mestreseo mestreseo mestreseo mestreseo

  2. Gostaria de compactuar com a sua fala, meu querido Marcondes, mas não posso. Há tantas sensibilidades quantos pontos de vista possam existir. Claro que encontraremos teorias para explicar o inexplicável (e as que não puderem ser encontradas, podem ser fabricadas, aqui e ali); claro que podemos achar as justificativas todas para esclarecer o insolúvel, mesmo sabendo que as brechas são muitas, as lacunas sempre solicitam preenchimentos e a louca da casa (a imaginação) está sempre predisposta a ocupar os espaços escuros e vazios. E claro que o meu olhar romântico sobre as coisas pode servir de justificativa para não ter gostado do espetáculo espanhol. Mas nada disso me alenta. É como sinto. Não nego que os autômatos, a iluminação mínima, o cenário apertado nos sobrepujam, acionam a nossa vontade de sonhar, nos encantam. Mas para mim (e não só para mim, acredite) a mágica parou por ai. Nada mais houve a não ser uma hora e meia que de tão entediantes pareceram durar mais que uma semana de fome.
    Claro que um artista deve extrapolar o lugar-comum das coisas reconhecíveis. Não estou reivindicando que esteja à serviço do “palatável”. Muito pelo contrário. Acho sensacional quando as barreiras são derrubadas e vemos o que não vemos no dia-a-dia, o lado de dentro talvez, o reverso da face clara da lua. Daí a minha sincera admiração por Kandisnky, Van Gogh, Tarkoviski, Mizogushi, Jean-Claude Lauzón, Jean Rouch, Louis Aragon, William Burroughs, Allan Poe, Mutarelli. Quanto mais estranha a obra, quanto mais fugir dos espaços domesticados, mais fascinantes me parecem ser. A estranheza é fonte de fascínio como o tédio é de um espetáculo que tinha tudo para nos sobrepujar e apenas ficou ali, numa historinha anódina, com um cara para lá de apagado a falar coisas que não me diziam respeito e nem me deixaram interessado em saber mais.
    Fico feliz de você ter gostado. E de outras tantas pessoas terem achado o máximo. Mas estou longe de concordar de que é uma maravilha o que vi (e, claro, não vimos a mesma récita, o que me faz pensar que talvez estejamos falando de dua obras distintas, embora com no mesmo título e grupo). Seria uma deficiência de minha parte? Não creio. São apenas percepções distintas e se escrevo essa discordância, tornando-a pública, é apenas para entabular diálogos, espaços para as trocas de ideias nos possíveis espaços vazios da internet.

    É isso. Abraço grande,

    Quiercles Santana

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