O Filho Eterno, por Duda Martins

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Foto: Dalton Valério

 

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Por Duda Martins

Ao contrário da maioria das pessoas, eu sempre achei os monólogos muito instigantes. Como atriz, tendo a olhar sempre primeiro para a interpretação. Num monólogo, o exercício de atuação é sempre mais desafiador. Pelo óbvio. Você está sozinho em cena, e assim mesmo, sem a ajuda de ninguém, se vê obrigado a carregar uma peça de 1 ou 2 horas nas costas. No olho. No corpo. Fantástico.  

As referências de O Filho Eterno, da Cia Atores de Laura (RJ), sempre foram ótimas. Vários prêmios na bagagem, incluindo o Shell, o maior do Brasil na categoria artes cênicas. Entrego logo o jogo e digo que este espetáculo mereceu todos os louros. As estátuas que ganhou e que deixou de ganhar. Charles Fricks é um atorzaço. Daqueles caras que pintam a cena inteira na nossa mente com a sua desenvoltura, a despeito de contar apenas com uma cadeira em cena.

Mas graças a ele, eu imaginei tudo. Hospital, quarto, sucesso, fracasso logo em seguida, pessoas, olhares, toques, caneta, vidros, angústia, tudo. Ele conseguiu materializar o invisível e sei que essa percepção não foi só minha, mas de todos que foram assistir a peça nestes dois dias de Janeiro de Grandes Espetáculos. 

E aí os aplausos seguem de pé para Daniel Herz, que mostrou em cena a sua competência e criatividade a cada segundo da peça. Diretor e ator juntos, mostrando verdade. Eu adoro ver verdade no teatro. 

A história da relação conflituosa entre pai e filho ( e o pai e ele mesmo), foi bem contada por Cristóvão Tezza, que emprestou a sua história de vida para um livro. Pudera, só mesmo quem viveu aquelas coisas pode colocar em palavras, com tanta propriedade, todos aqueles sentimentos, sensações.

“Vergonha, grande controlador social”

“Torna a mesma ansiedade de sempre, insolúvel”.  

A narrativa originalmente posta no livro, ganhou a grande sacada, acredito que de Bruno Lara Resende, de trazer à tona o Romance-em-Cena, de Aderbal Freire Filho, recurso cênico que vi encenado pela primeira vez numa montagem da peça O Púcaro Búlgaro (2006). Maravilhosa.  Aderbal define o seu próprio estilo assim: “o jogo da ilusão do teatro levada ao paroxismo: o discurso em terceira pessoa e a ação em primeira. O passado e o presente se confundem. A adaptação é ‘apenas’ cênica, não se transforma o texto narrativo em texto dramático.”

Li certa vez que o romance-em cena é uma forma de tornar o ator potente. Esta máxima se fez real na montagem de O Filho Eterno. Ah, quero aplaudir também o plano de luz, simples e forte. Só não acertou muito bem os tempos do ator no dia em que fui assistir. Espero que no outro tenha ido bem.

No mais, deixo os meus sinceros parabéns a todos. Saí do teatro emocionada e feliz. 

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2 comentários em “O Filho Eterno, por Duda Martins

  1. Christiane Campelo disse:

    Quinta feira (10/01), fui assistir no Teatro Apolo “O Filho Eterno” da Cia. Atores de Laura – RJ, peça já premiada com um texto de Bruno Lara Resende (adaptação do livro homônimo de Cristovão Tezza). No palco, Charles FricKs, o intérprete de um monólogo, que, durante 1h30′, não nos deixa piscar. A narrativa se dá sobre um tema sempre atual, qual seja,a discriminação dos portadores da Síndrome de Down, conhecida nos anos 80 como Mongolismo.
    O texto é bom, ágil e retrata o cotidiano das pessoas despreparadas (inclusive o próprio pai), no lidar com as diferenças. Mas o ator é melhor. A sua performance em cena chega a ser quase perfeita, não fosse o titubear de duas palavras. Seu movimento no palco, onde não havia cenário, senão um fundo branco e uma cadeira,crescia a cada fala. Perfeitas as expressões faciais e gestuais. Nos fez rir e emocionou em diversos momentos. Nos agradecimentos fez graça ao dizer que não iria agradecer nominalmente por receio de esquecer alguém. Superou as expectativas.

  2. Lívia disse:

    Só posso dizer que foi uma das melhores. Atuação, direção e texto…impecáveis. Foi com lágrimas nos olhos (não choro em peças) que aplaudi um dos maiores atores que já vi na vida. No olhar, no falar…Daniel Herz foi surpreendente. Tantos em apenas um. Revelou partes de mim sem nem saber. Parabéns a todos que de alguma maneira estiveram envolvidos nesse drama contemporâneo.

    p.s: Duda, excelente crítica 😉

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