A Gaivota (em fragmentos) ou A Poesia da Gaivota, por Marcia Cruz

Foto: Adalberto Lima

Foto: Adalberto Lima

Marcia Cruz é atriz, contadora de histórias, curiosa da palhaçaria feminina e professora de teatro para crianças bem pequenas

Marcia Cruz é atriz, contadora de histórias, curiosa da palhaçaria feminina e professora de teatro para crianças bem pequenas

A Poesia da Gaivota

por Marcia Cruz

 

Recife, 05 de abril de 2014

Querido/a Espectador/a,

Recebi o convite do blog MeroEspectador para assistir e comentar o espetáculo A Gaivota (alguns fragmentos) do Grupo Piollin. Mas, é a você, Espectador/a, a quem me dirijo. Como não sou jornalista, muito menos crítica teatral, gostaria de pedir licença para lhe escrever nesse formato de carta que me dá a ilusão de uma conversa menos técnica, mais acessível a qualquer ser humano, ainda mais que, humanidade é bem a tônica da dramaturgia de Tchekhov.

 

 

 

Foto: Adalberto Lima

Foto: Adalberto Lima

Ao entrar na sala do teatro Hermilo Borba Filho, a cena já estava instalada. Os atores perambulavam de um lado para o outro dando a mim a impressão de que o jogo já havia começado, mas era uma impressão apenas. O espaço da cena desenha a amplidão e, ao longo do espetáculo, todas as possibilidades de espaços se revelam possíveis ali. Os figurinos dos atores, em tons claros reforçam em mim a amplidão proposta no espaço e me passa uma sensação de uniformidade. Com o signo do vôo de um saco plástico eu (re)significo o vôo de uma gaivota e, finalmente, o espetáculo sai do preâmbulo e o teatro começa.

Os atores em cena vão pouco a pouco revelando suas personagens recriadas a partir da dramaturgia de Anton Tchekhov. Autor genial. Digo isso porque me encanto a cada vez que releio e percebo como aquele homem conhece a fundo a matéria com que se propôs a trabalhar, o ser humano. Tchekhov não é – sim no presente – sisudo como muitos querem desenhar, não para mim. Ele brinca com o público criando situações que dão cores diferentes aos mesmos personagens, esse colorido dá um ritmo que é o pulso natural da cena no teatro e permite ao leitor/a ou a você, querido/a espectador/a, se perceber dentro do jogo.

Foto: Adalberto Lima

Foto: Adalberto Lima

Na proposta de fragmentação do grupo Piollin, sobre o texto A Gaivota, lá e cá entram alguns depoimentos da vida pessoal dos atores.  A priori, a idéia de fragmentar Tchekhov e costurar sua dramaturgia com a vida dos atores me parece uma excelente proposta, porque dialoga com o que Tchekhov propõe: apresentar personagens humanas, cheias de conflitos, de oscilações. E, porque dialoga com a contemporaneidade no teatro, dialoga com o Grupo Piollin que existe há trinta anos e naturalmente, quem resiste por trinta anos no teatro o faz por persistir em descobrir novos caminhos.

 

No entanto, a execução da proposta, a meu ver, deixa a desejar. Mas calma espectador/a, não desista assim tão fácil. Existe mérito na proposta do grupo e sugiro que siga mais o exemplo do grupo que minhas palavras. O grupo Piollin se moveu para propor algo novo. Eles saíram de suas casas, se reuniram, discutiram, trabalharam com esmero na busca de um novo olhar, uma nova encenação. Esse movimento tem muito mérito. Vale a pena querido/a espectador/ a repetir a ação do grupo, sair da mesmice, se arriscar no novo. Vale a pena ir ao teatro assistir o Grupo Piollin. Minha apreciação é apenas um olhar que analisa um fragmento de Piollin, mas tem muito a ser visto.

Foto: Alberto Lima

Foto: Alberto Lima

Vou voltar rapidamente as minhas divagações sobre o espetáculo e depois lhe deixo, prometo. Tchekhov escreveu uma comédia em quatro atos, A Gaivota. Para que a comédia se revele é preciso estar disponível para o jogo proposto pelo autor. Numa mesma personagem ele propõe diferentes nuances e esse contraponto é que dá o ritmo, a loucura, a humanidade de cada um deles. Claro que se a proposta do Piollin é fragmentar, não vejo problema algum em descartar isto ou aquilo, mas o ritmo no teatro é essencial.  Ao que me parece, a encenação não considerou essa dinâmica nas suas personagens. Seus coloridos e ritmos ficaram na superfície, nos seus traços mais gerais. Na A Gaivota- alguns rascunhos, não há conflito em Nina, não há conflito em Arcádia, os personagens se apresentam de forma linear e reforçam aquilo já está posto na cena, a uniformidade. Essa escolha dá uma densidade a cena que, a meu ver, fecha os espaços de interação do público com o espetáculo.

Foto: Bertrand Lira

Foto: Bertrand Lira

No entanto, a poesia sim está instalada. O espetáculo é indiscutivelmente belo, harmônico nas suas imagens. A entrega dos atores a cena, sua disponibilidade e inteireza para o que a encenação propõe também é algo que vale a pena ser compartilhado. Não sei bem o que te move querido/a espectador/a, mas te digo há muito mais a ser visto neste espetáculo que apenas sua proposta.  Confesso que fiquei tocada em ver na cena atores que eu não via há muitos anos. Eles estão de cabelos brancos. Tomara que eu consiga chegar lá. Tomara que eu esteja também com o mesmo fôlego, com a mesma coragem de me renovar e dar a cara a tapa como muito dignamente o faz o Grupo Piollin.

 

Se anime querido/a espectador/a. Saia deste computador, se movimente, se renove, se arrisque. A vida é risco, o teatro também. Vá ao teatro! Vá assistir o Grupo Piollin!

 

Forte abraço,

Márcia Cruz

Como a Lua, por Duda Martins

 

 

 

Foto: Taveira Júnior

Foto: Taveira Junior

 

 

Jornalista por formação, blogueira por opção e atriz de corpo e alma. Idealizadora do blog Meros Espectadores.

Jornalista por formação, blogueira por opção e atriz de corpo e alma. Idealizadora do blog Meros Espectadores.

 

Como a Lua

Por Duda Martins

Começo meu texto saudando os grupos de teatro que se aventuram a montar musicais. Numa cidade rica de ritmos como a nossa, além de inúmeros talentos que temos, o teatro e a música deveriam andar sempre juntos, de mãos dadas.  Por isso fiquei feliz de ver a iniciativa de José Manoel Sobrinho, de costurar o espetáculo com uma grande diversidade de sons e melodias.

Como a Lua fala dos ritos de passagem da vida. Aborda nascimento, vida e morte. Pode parecer pesado para crianças, mas a mensagem não toma contornos densos. O universo indígena de Paya e Calon, um casal de indios é um bom aliado para tratar a temática. O dualismo apresentado por um deus malvado e um deus do bem revelam um pouco mais da cultura indígena, o que se torna muito curioso às crianças. Desnecessário, no entanto, fazer a troca de figurino no palco e “desnudar” a indiazinha. O figurino mostrava que estava nua embaixo do colar e passei a peça inteira torcendo que o acessório não saísse do lugar, do contrário as crianças veriam o que não precisavam ver.

 

 

Foto: Taveira Junior

Foto: Taveira Junior

Personagens contemporâneos traçam um paralelo com o que acontece na realidade dos índigenas. Se o Paya gosta de brincar, fazer piruetas, brincar com os animais (interpretados pelos próprios atores) os meninos da cidade brincam de tirar fotos no celular, beijam na boca, e são mais erotizados.  A história, por vezes, de tão fragmentada, fica confusa. Não é claro, por exemplo, como o Paya chega até os meninos da cidade.

Foto: Taveira Junior

Foto: Taveira Junior

O espetáculo se desenrola com muita música, o que ajuda muito a manter a energia da peça. A impressão que dá é que quando a música  para, o ritmo cai um pouco. Mas é muito legal ver o talento dos artistas em cena, se revezando em vários instrumentos, às vezes numa mesma música. Samuel Lira se saiu bem em compor melodias diferenciadas, ousar com novos instrumentos. Mas, o tom tirado em algumas canções é baixo demais, o que faz as vozes dos atores sumir em alguns momentos. Destaque ainda para o cenário, luz, figurinos e adereços, que deixam o espetáculo esteticamente muito rico.

 

 

 

Avental sujo de ovo, por Tiago Gondim

Foto: Alex Hermes

Foto: Alex Hermes

Avental sujo de Ovo

Tiago Gondim é estudante do Curso Produção de eventos. Ator há 10 anos. Formado pelo Sesc. Com cursos por todo Brasil e fora do Brasil. Tem como foco de pesquisa a comédia, especificamente o estudo da improvisação (método de Keith Jonhstone) e do Clown. Professor de Improvisação. Ator, Diretor e Produtor do Grupo de Humor e Improviso Os Embromation, que existe há 5 anos. Participou de mais de 15 espetáculos em todo o Brasil. Atualmente está no elenco da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, do espetáculo O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, e do espetáculo infantil Como a Lua.

Tiago Gondim é ator há 10 anos. Formado pelo Sesc. Com cursos por todo Brasil e fora do Brasil. Tem como foco de pesquisa a comédia, especificamente o estudo da improvisação (método de Keith Jonhstone) e do Clown. Professor de Improvisação. Ator, Diretor e Produtor do Grupo de Humor e Improviso Os Embromation, que existe há 5 anos. Participou de mais de 15 espetáculos em todo o Brasil. Atualmente está no elenco da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, do espetáculo O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, e do espetáculo infantil Como a Lua.


Por Tiago Gondim

Simplesmente um lindo espetáculo, fui remetido às lembranças da minha avó e minha mãe, exemplos de amor. E é sobre este sentimento que o espetáculo fala: o Amor. Amor pela família, de pais pelos seus filhos, de filhos pelos seus pais, o não correspondido, e a falta dele nas pessoas, no mundo, traduzida pelas formas de preconceito, discriminação, etc.Uma história simples, mas que trata com delicadeza de um assunto tão polêmico: a homossexualidade. Apesar de vermos este assunto sendo tratado com mais frequência, ali ele toma um caráter especial por estar inserido num cenário tradicional da família do interior nordestino que tem uma maneira toda particular de ser. Se diferenciando dos demais “modelos” visto no nosso país. Naquela situação vimos que o amor por um filho faz com que a interpretação da realidade seja menos pesada, tudo isso para que ele fique e a saudade se vá.

Ver em cena interpretações simples, carregadas e convincentes, onde o tempo todo as personagens chamam a plateia a viver com elas aquele momento, verem ali no palco suas mães e avós, e mais que isso, nos sentimos quase como amigos da família. Os atores trabalham com focos onde não precisam diálogos, olhar nos olhos do outro ator pra dizer.

Avental-todo-sujo-de-ovo

 

O que fica claro que eles nunca estão sós em cena e sim com a plateia também. Buscam outros olhares, os da sociedade. Um trabalho de ator bastante físico e ao mesmo tempo pobre, mas no sentido simples de dizer. Cenário, figurino, interpretação simples, porém muito fortes na emissão da mensagem e suas intenções. Todas as cores do espetáculo trabalhado nos tons e sobre tons da cor da gema do ovo, o que me traz várias analogias da vida com signos e símbolos apresentados.

Era uma vez…Grimm, por Lívia Lins

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Lívia Lins é jornalista e se dedica ao teatro há quase 15 anos como atriz

Lívia Lins é jornalista e atriz.

Era uma vez…Grimm

por Lívia Lins

Começo dizendo que meu desejo maior no final daquela noite era voltar a ser criança, não porque como adulta não pude apreciar a obra, mas tenho certeza que como criança, teria mais sensibilidade para receber aquele presente. Mas enfim, já passei da infância há muito tempo, e cá estou para dar as minhas impressões do espetáculo. Ah sim, assisti a montagem para adultos.

Música erudita e contos de fadas, já temos uma novidade! Pelo menos para mim, esta foi a primeira coisa que me chamou atenção, e graças a Deus não me decepcionei, o casamento foi lindo. Uma mini orquestra recifense, impecável, fez a cama para as quatro vozes em cena, uma dádiva para meus ouvidos.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Mas a beleza não para por aí, os meus olhos também apreciaram a sombra de um lobo, o sangue projetado nas páginas de um livro gigante, um figurino que correspondia a minha imaginação, um cenário lindo, feito com muita delicadeza, que surgia e sumia, mas que infelizmente na apresentação que assisti, houveram algumas falhas consideráveis na execução. Vazava em cima, emperrava embaixo, mas não me foi tão penoso. A luz também não favoreceu algumas cenas, porque não pude ver o rosto dos personagens.

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Destaco a narrativa feita pelos próprios autores dos contos. Uma aula de história entre as estórias, não é a toa que o nome do espetáculo leva o nome deles. Não conhecia o conto de Junípero, e acho que fui apresentada a ele de uma maneira encantadora, apesar da tragédia. Mas confesso que gostaria de ter assistido “Chapeuzinho Vermelho” na íntegra #ficaadica!

Foto: Alex Ribeiro - Cria S/A

Foto: Alex Ribeiro – Cria S/A

Sobre as atuações, não gostei de todas, uma delas, por sinal, me incomodou de verdade. As “irmãs” de Cinderela. Tudo bem que eram homens imitando meninas, mas não precisava das caras e bocas próprias de personagens afeminados da dramaturgia. Humor forçado. Clichê.

A peça termina com os irmãos em cena, gratos porque ainda vivem atráves da suas obras. “Os contos ainda reúnem as pessoas em volta do fogo…e eles continuaram vivos enquanto ainda se acreditar na fantasia.”

FICHA TÉCNICA

Texto e Letras: José Mauro Brant (baseado na obra dos irmãos Grimm)/Música Original e Direção Musical: Tim Rescala/Direção: José Mauro Brant e Sueli Guerra/Supervisão: Miguel Vellinho/Elenco: José Mauro Brant, Wladimir Pinheiro, Janaina Azevedo, Chiara Santoro/Cenografia e figurino: Espetacular! Produções & Artes – Ney Madeira, Dani Vidal & Pati Faedo/Iluminação: Paulo César Medeiros/Desenho de som: Fernando Fortes/Animação gráfica: Renato e Ricardo Vilarouca/Ilustrações: Rui de Oliveira/Projeto Gráfico: Maurício Grecco e Úrsula de Mello

Mariano, irmão meu ou Peça transborda poesia em cena, por Vinicius Vieira

Mariano (01)

Foto: Divulgação

Vinicius Vieira (PE) é ator, maquiador e estudante de jornalismo. É formado pela Escola SESC de Teatro e desde 2009 integra a Cênicas Companhia de Repertório. Participou de diversos espetáculos, entre eles: Escola de Meninas (2007), De uma Noite de Festa (2009), Pinóquio e suas Desventuras (2009) e Senhora dos Afogados (2010). Em 2011, participou do Seminário Internacional de Crítica Teatral na função jovem crítico. Também ministrou aulas de teatro na Escola de Artes Hipérion e no Espaço Cênicas.

Vinicius Vieira (PE) é ator, maquiador e estudante de jornalismo. É formado pela Escola SESC de Teatro e desde 2009 integra a Cênicas Companhia de Repertório. Participou de diversos espetáculos, entre eles: Escola de Meninas (2007), De uma Noite de Festa (2009), Pinóquio e suas Desventuras (2009) e Senhora dos Afogados (2010). Em 2011, participou do Seminário Internacional de Crítica Teatral na função jovem crítico. Também ministrou aulas de teatro na Escola de Artes Hipérion e no Espaço Cênicas.

Peça transborda poesia em cena
por Vinicius Vieira

É no encontro com as múltiplas faces da ausência que surgem as histórias fantasiosas, mas, também, a busca pela verdade. Em Mariano, irmão meu, espetáculo do grupo Engenho de Teatro (PE) os personagens vivem este tipo de realidade.  O contexto repleto de dificuldades (a pobreza que limita, a insanidade que amedronta e o abandono consumidor) dá margem ao sonho e às ações de afeto, mesmo quando a expressão de cuidado parece duvidosa. É nessa miscelânea de sentimentos conflitantes que a dramaturgia é transformada em poesia da cena.

A direção de Eron Villar, que também assina a iluminação do espetáculo, opta pela simplicidade que permeia tanto os elementos cenográficos quanto a linha de interpretação dos atores, com economia nas movimentações e na gestualidade. As personagens são apresentadas em contornos psicológicos bem delineados e se entrelaçam a soluções que exploram a teatralidade como: a manipulação de uma boneca, o teatro de sombras e o diálogo, em momentos pontuais, com a plateia, quebrando a quarta parede em pequenos círculos de luz e isolamento.

O texto, ora falado, ora cantado, é dito com bastante propriedade pelos atores. É também no silêncio que acessamos uma infinidade de sensações e visualizações, resultado de um elenco afinado. Talvez, poderia haver um cuidado maior nas palavras ditas pela personagem Augusta, interpretada pela atriz Ana Cláudia Wanguestel. Na maioria das vezes, ela se mantém em um mesmo registro, o que impossibilita o jogo de inflexões e entonações que revelariam mais sobre esta mulher, aparentemente guiada pela razão.

Em cena, os atores Ana Claudia, Tatto Medinni e Alexsandro Souto vivem núcleo familiar desestabilizado

Foto: Divulgação

A dramaturgia de Alexandro Souto Maior, também ator na montagem, é sensível e inteligente. O autor utiliza-se da narratividade para entrecortar a história de Mariano com recursos metafóricos. Este mecanismo é utilizado para refletir, poeticamente, sobre as ações das personagens, enquanto alguns ajustes de cena acontecem.

Ao interpretar o protagonista que dá nome à obra, Tatto Medinni mostra-se um ator habilidoso. Consciente do risco de cair no histriônico, ele nos proporciona uma interpretação sensível ao desvelar os anseios e os temores de Mariano, uma pessoa com problemas mentais que sonha em se encontrar com a mãe viajando além-mar. Sua instabilidade, insegurança e, às vezes, paranoia, nos aproxima desse ser extremamente humano.

Os figurinos, adereços e o cenário foram criados pelas mãos talentosas de Java Araújo. A cenografia é funcional e traz soluções criativas. Três “blocos de madeira” distribuídos um ao lado do outro no fundo do palco, transformam-se em símbolos que auxiliam na construção dos ambientes. Tudo com alterações sugestivas complementadas pela imaginação da plateia.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O espetáculo explora questões universais, caras ao ser humano, como: a solidão, a liberdade, a rejeição, a busca pelo sonho e a frustração de não alcançá-lo. Sem ser panfletária, a peça problematiza ainda a loucura, o uso banalizado de calmantes e as políticas de saúde pública que não amparam, como deveriam, a população.

Entre a palavra e o silêncio das relações em cena, ficam as respirações profundas, a mente que vagueia enquanto acessamos, em uníssono, sentimentos análogos aos que surgem no palco. E no vazio de situações sem respostas, tocamos a nossa essência e nos perguntamos, assim como Damião questiona a sua tia: “o que somos?”.

 Assista ao vídeo do espetáculo

 http://www.youtube.com/watch?v=YF-PWID2RC4

Saiba mais

 Em setembro deste ano, o grupo pernambucano Engenho de Teatro comemora 15 anos de atuação. No repertório da companhia estão os espetáculos: O terceiro dia (2002), Nero (2004), Luzia no caminho das águas (2006) e Meninas de engenho (2009). Em 2011, o texto, Mariano, irmão meu, inspirado na estética de Guimarães Rosa, conquistou os Prêmios Literários da Cidade de Manaus.

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’, por Luciana Lyra

Foto: Marcio RM

Foto: Marcio RM

 

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas, do Departamento de Artes Cênicas, Educação e Fundamentos da Comunicação em Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), é pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN)  É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Luciana Lyra é atriz, performer, encenadora, diretora e dramaturga. Professora de Artes Cênicas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e pós doutoranda em Artes Cênicas (UFRN). É integrante da companhia de teatro OS FOFOS ENCENAM-SP e fundadora de seu estúdio de investigação, UNA(L)UNA – PESQUISA E CRIAÇÃO EM ARTE, em São Paulo.

Camille Claudel ou Carta a uma ‘cadela ainda sem tetas’

por Luciana Lyra

Querida Ceronha,

No último verão europeu estive em Paris sentindo o calor a penetrar ideias tantas. Em caminhadas cheias de suor e deslumbramento, deparei-me com o casarão preservado, charmoso e imponente na Rua Varenne, o antigo Hôtel Biron, que hoje sedia o Museu Rodin, com um acervo imenso e publicamente reconhecido de 300 obras. No seu interior, esculturas, jardins,  restaurante e uma pequena sala dedicada à Camille Claudel, dita, ‘aprendiz’ e ‘amante’ do grande escultor.

Depois de vagar pelo museu e tomada por torções e expressões de corpos de pedra antes posados em carne para os artistas, saí novamente às ruas em pensamentos acerca da diferença: Por que um museu inteiro é construído em torno de um ‘falo’, e apenas uma recôndita sala traz à tona poucos trabalhos de uma artista ‘envaginada’? Por que continuamos a desvelar privilégios de uma sociedade patriarcal, calando vozes femininas por séculos?

E os questionamentos insistiam em mim: mulher, artista, pensadora… Assim, fazendo perguntas, desci escadas e como pílula para angústia, tomei o metrô, fui aos subterrâneos da cidade luz, que obscurece muitas de suas mulheres. Chegando num ponto em Montparnasse Bienvenüe, subi escadas outras e surpresa, deparei-me com uma pequena praça, quase sem vida, uma ‘praça-passagem’ de transeuntes e vendedores de cerejas. Seu nome: Camille Claudel. Poderia ser motivo de regozijo ver uma praça com seu nome numa rua de Paris, mas como não lembrar de todo um museu dedicado ao seu ‘mestre’? Parecia realmente um prêmio de consolação o nome estampado em pequena praça pública, consolação para aquela que morreu na loucura e no esquecimento. A mesma canonização que sofreu Joana d’Arc, hoje padroeira da França, após anos na fogueira armada por seus próprios conterrâneos.

É deste lugar, o da indignação com a diferença, que quero começar a falar a respeito do espetáculo Camille Claudel, de sua autoria, Mm. Ceronha Pontes…

Na última quarta-feira, cheguei ao Teatro Arraial, em Recife, às 20:50h, recebendo, de pronto, a responsabilidade inferida pela produção de seu espetáculo em interferir na sua cena quando solicitada a te oferecer cigarros. Não fumo, mas o jogo me pareceu um jeito de chegar junto de sua ação, de me friccionar ao seu mundo, um mundo também de Camille. Dentro do teatro intimista, fui invadida por uma música e uma gravação, que não condiziam com as sombras dos móveis claros, da escada branca e da forte silhueta ao fundo. A música e a gravação ‘historicizada’ não acolhiam como mãe, como barro, mas desde já dominavam como violentos falos. A música escolhida e a gravação não me pareceram bons recursos para iniciar um trabalho daquela natureza. No entanto, concentrei-me na silhueta em movimento e foi assim que comecei a ser instada no universo de sua Camille. Um movimento sinuoso e feminino quebrando-se na penumbra do ar.

Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

No espetáculo, com bons cenário e figurino, uma iluminação dialógica e conduzido pela engenhosa atriz que é, somos convidados a imaginar Villeneuve, onde Camille fez-se menina, somos apresentados a Paul Claudel, seu irmão mais novo e ao seu mestre e amor Auguste Rodin. Somos especialmente tocados com a pulsão desta mulher pelo ato e pela arte de esculpir, pela busca de sua autonomia, na tentativa de romper com as diferenças e os privilégios da sociedade francesa falocêntrica.

O espetáculo nos dá pistas da vida da artista, por meio da loucura, da paranóia, do estado de solidão, de abandono e ingratidão representados no palco. Lá, vemos uma Camille potente, mas em desespero, estranha e obsessiva, querendo a morte de Rodin. Uma Camille que passa a delirar sobre seu passado, sobre a sua mãe a impedindo de ser uma artista e sobre as lembranças ruins decorrentes da ausência de reconhecimento a sufocar.

Foto: Rogério Alves

Foto: Rogério Alves

Não há dúvidas, que a cena de Camille Claudel é meritória. E o maior valor é justamente dar voz ao abandono e à diferença. Sua Camille Claudel, Mm. Pontes,  faz-nos ver, em praça pública, a mulher que de gênio, transformou-se em paranóica, esquizofrênica, louca, abatendo-se física e psicologicamente. Vemos a Camille que não mais se alimenta e desconfia de todas as pessoas, achando que todos a matarão, e a culminância de sua internação em manicômio a sublinhar a discriminação. A contundência e a grandiosidade do talento de Camille estavam sim, entre a figura legendária de Rodin e a de seu irmão, que se tornou um dos maiores expoentes da literatura de sua geração. À ela, o lugar menor, a loucura e o esquecimento, que a sua cena traz à representação.

Foto: Camila Sérgio

Foto: Camila Sérgio

No entanto, apesar do grande mérito de retrospecção da genial artista, pela competência de uma atriz e de seus pares, o espetáculo encontra sua fragilidade, a meu ver, exatamente na fundamental relação entre atriz e personagem. Percebo que Camille Claudel, o espetáculo, poderá encontrar mais potência, se desvelar não só as suas habilidades de representação da escultora, Mm. Pontes, mas as suas camadas pessoais e primevas que impulsionam a sua identificação com a dita personagem. Pode haver uma poderosa convulsão, quando a personagem Camille tornar-se persona de Ceronha, tornar-se uma máscara ritual de você mesma, o que ainda não acontece.

Em Camille Claudel, a personagem ainda se revela num estado e num tom de representação e não de experiência de estados, o que se faz sentir num registro didático e histórico que, por vezes, adentra à atuação e também à dramaturgia. Apesar de sua mãe ser motivo de dedicação de sua cena, fato que poderia vazar enquanto potência e impulso do seu eu artista, prevalece o teor representativo da cena. Penso que a dissolução do espaço à italiana, tão expositivo das formas, pode ser salutar numa revisão de seu espetáculo, Mm. Pontes, compartilhando mais de frente com o espectador, tomado como cúmplice presente do abandono. Talvez a música e o canto próprios possam também revelar o gênio criativo de uma atriz sob à máscara, mais do que uma gravação datando fatos ou uma música de época definida.

Foto: Marcio Resende

Foto: Marcio Resende

Sim, quando cheguei ao Teatro Arraial e fui convocada a te oferecer cigarros, quis ver uma relação umbilical de uma atriz com sua personagem, mas isso ainda não se estabeleceu. O que vejo ainda é o ‘disfarce’, a ‘cadela sem tetas’ da escultura, uma boa atriz sob uma máscara da ficção. Sim, como atriz que também sou, sinto que já freqüentei o ‘inferno’ e falo deste lugar para você. Se o Deus, macho que é, voou! Fumemos juntas à revolução das deusas. Revolução esta que pode começar na fri(c)ção entre atriz e personagem, não na representação ficcional desta, mas na construção de uma persona. Talvez seja a hora de abdicar da máscara de ‘atriz’, para assumir as tetas de uma ‘pessoa’, uma perfomer na leitura da alteridade, um jogo de espelhamento onde não se sabe em que lugar começa a atriz e a personagem termina. Que Camille encarne sua Fortaleza e sua Fortaleza seja a carne de Camille. Assim pode tecer uma renda mais firme, uma trança que liga a genial escultora francesa à talentosa atriz cearense, acolhida pelas terras pernambucanas. Penso que na força desta trama, reafirmamos que nós mulheres não somos habitantes dos museus, gritamos nuas nas grandes praças públicas, vagamos em florestas sujas do barro primeiro, somos cadelas selvagens com tetas expostas e orgulhosas de nossa arte. Por fim, assumimos todas as artes de ser mulher.

Com imenso carinho e

reconhecimento sincero de sua ousadia,

Mm. Luciana Lyra

Dzi Croquettes, por Duda Martins

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

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Jornalista por formação, blogueira por opção e atriz de corpo e alma. Idealizadora do blog Meros Espectadores. https://merosespectadores.wordpress.com/quemsomos/

 Dzi Croquettes

por Duda Martins

Cubro o Janeiro de Grandes Espetáculos há cinco anos, dos 20 que o festival está comemorando. Até agora, a melhor abertura por mim já presenciada foi nesta edição. A ousadia de trazer o Dzi Croquettes ao Santa Isabel foi uma decisão acertada dos coordenadores. Aquele templo semissacro do teatro pernambucano quase caiu abaixo na última quarta-feira.

Vamos tentar chegar ao final do texto sem usar a palavra “irreverência”, ok? Inspirado no conjunto norte-americano The Coquettes e no movimento gay atuante na off-Broadway surgia, há 40 anos, o Dzi Croquettes (década de 70). Um grupo que levantava algumas bandeiras – principalmente a favor da liberdade sexual e contra qualquer tipo de repressão – e fazia, sim, um teatro ideológico, que tinha algo a dizer a sociedade. Esta prática, de usar o teatro ideologicamente, hoje é abolida por muitos, não sei porque. Agora é arte pela arte: ficamos cheios de estética (?) e vazios de conteúdo.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Voltando. À sua época, o Dzi teve enorme importância. Guerreou com as armas cênicas contra uma cultura vigente opressora e, por que não, burra. Fez revolução nos palcos brasileiros e lá fora. Hoje, podemos dizer que venceu. Venceu e o Brasil não é mais o mesmo, e nem mesmo o teatro brasileiro. Taí o porque de o espetáculo “Dzi Croquettes – Em Bandália” ter um quê de datado. O discurso não é mais revolucionário, nem ousado. Travesti no palco, escracho, desbunde, já vimos bastante. Tanto o Dzi quanto o Oficina, o Vivencial e até, tomadas as devidas proporções, a Trupe do Barulho já trabalharam bem esse estilo.

Definitivamente não é texto o que impressiona nesse novo Dzi. Isso, na verdade, é bem cansativo. Mais do mesmo. O que não nos deixa piscar nas quase duas horas de peça é a forma. Não apenas as dos garotos em cena, que diga-se de passagem, é maravilhosa, mas do espetáculo que causam com a sua presença. Aliás, presença de palco não falta àqueles cariocas. O espetáculo é grandioso e luxuoso: figurino, luz, trilha muito bons. Os artistas em cena arrebentam no fôlego, coreografia e talento. Em particular o Ciro Barcelos, remanescente do grupo e agora diretor da nova formação, que nos deixa boquiabertos com a sua performance.

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

Foto: Alex Ribeiro/Cria SA

O musical cumpre bem sua função. Atores afinados, excelentes em movimento de corpo, atrevidos. Imagina, ficaram de pé nas cadeiras do Santa Isabel, brincaram com o público, subverteram o sistema. O Ciro Barcelos faz bem em não comparar o Dzi de antes com o de hoje. Este último veio para prestar uma homenagem. Homenagem bonita, cheia de qualidade artística, feita com coração, nostalgia e, claro, muita purpurina.

Ficha Técnica
Concepção, texto e direção geral: Ciro Barcellos/Assistência de direção e roteiro: Radha Barcellos/Direção musical: Demétrio Gil/Coreografias: Ciro Barcellos e Lennie Dale/Direção técnica: Ronaldo Tasso/Iluminação: Aurélio de Simoni/Trilha sonora: Demétrio Gil e Flaviola/Figurinos e adereços: Cláudio Tovar/Cenário: Pedro Valério/Supervisão artística: Thina Ferreira/Direção de produção: Robson Agra/Produção executiva: Anna Ladeira/Elenco: Ciro Barcellos, Demétrio Gil, Udilê Procópio, Leandro Melo, Thadeu Torres, Franco Kuster, Pedro Valério, Ricardo Burgos, Sonny Duque e Robson Torinni, com participação especial de Bayard Tonelli.

Carnaval Dell’Arte, por Nathália Sena

Foto Divulgação

Foto Divulgação

Nathália Sena é formada em Design pela UFPE, bailarina amadora desde dos cinco anos de idade, filha de Isabel Melo Coreógrafa Profissional a mais de 30 anos. Atualmente trabalha com Produção, Construção e Montagens de grandes espetáculos de Teatro e Dança para escolas particulares em Recife, através da "Senario Produtivo".

Nathália Sena é formada em Design pela UFPE, foi bailarina durante 14 anos, e hoje trabalha na “Senario Produtivo”, com produção e montagens de grandes espetáculos de Teatro e Dança para escolas particulares em Recife, junto com sua mãe, Isabel Melo, coreógrafa profissional há mais de 30 anos.

Carnaval Dell’Arte

Por Nathália Sena

Na última quinta-feira (14),  tive a oportunidade de assistir o espetáculo “Carnaval Dell’Arte”, apresentado pela CIA Pernambucana de Ballet. Um espetáculo que  propõe  através da dança, contar a antiga e clássica história do carnaval de Veneza, desembarcando na irreverência do carnaval de Pernambuco.

A peça mostra um pouco da história de amor no carnaval  Veneziano, com os personagens da Comédia Dell’Art,  Arlequim, Pierrot e Colombina. O Arlequim conquista e coração da Colombina, eles se casam e viajam de lua de mel para o o carnaval de Pernambuco, onde são contagiados pelo frevo, maracaru e bonecos gigantes de Olinda.
A produção visual estava muito bem elaborada. O cenário com painéis pintados a mão, mostrava fachadas de construções antigas. Os figurinos muito ricos em detalhes e brilhos, estavam impecáveis.

Foto Divulgação

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Entre saltos e piruetas, o  ballet clássico é o grande astro da noite . Alguns números mostraram um pouco de ballet moderno e até contemporâneo, mas em sua maioria o estilo Clássico foi o mais utilizado, com toda sua técnica e elegância. Acredito que a intenção do espetáculo tenha sido exaltar esse estilo da dança, que sobrevive em meio a um cenário influenciado pela modernidade, e que vem trazendo novos olhares, novas formas e possibilidades de se expressar com o corpo.
Sem dúvida um dos pontos altos do espetáculo é a técnica e habilidade do elenco de bailarinos principais, que nos apresentaram movimentos de extrema dificuldade com toda elegância e beleza da dança. As coreografias muito bem ensaiadas e sincronizadas, em alguns momentos se tornaram um pouco longas em relação a outras, deixando pouco tempo para outros temas serem mais trabalhados.

Foto Divulgação

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Nas últimas coreografias do espetáculo, é apresentado um pouco da influência moderna, com a chegada dos personagens a Pernambuco, finalizando com uma grande troça carnavalesca . Acredito que a cultura pernambucana é muito rica e poderia ter sido melhor apresentada durante o espetáculo, até mesmo através do ballet clássico, tendo em vista que foi mostrado apenas em três coreografias em um total de dezesseis.
Contudo, o espetáculo valoriza a dança, apresentando um pouco de cultura e arte para o público de várias idades e classes do Recife. Espero que sirva de influencia para que novos espetáculos sujam, e para que a arte do Teatro e da Dança sejam mais valorizados em nosso Estado.

Foto Divulgaçã

Foto Divulgação

Passando o texto: com grupo Ponto de Partida

O elenco na peça Drummond

O elenco da peça Drummond

Todo mundo sabe que gravação de espetáculo não é, nem de perto, igual assistir qualquer montagem ao vivo. O Ponto de Partida é tão bom que o primeiro espetáculo que vi deles, há dois anos, era gravado (Pra – Nhá- Terra – 2007) e foi, disparado, o musical mais bonito que vi na vida (empata com The Phantom of the Opera, do West End, que assisti ao vivo, e sim, eu gosto dos musicais estrangeiros). O fato é que o grupo mineiro de Barbacena é um fenômeno. Há 32 anos desenvolve uma pesquisa aprofundada sobre a cultura brasileira e sabe misturar teatro e música como poucos no País. Para começar, eles são originais.

Depois, fazem serviço completo com um super trabalho de formação de artistas e um lindo e espontâneo trabalho de formação de público. É responsável pela formação sistemática das crianças do coro Meninos de Araçuaí (com 40 crianças do Vale do Jequitinhonha e que já foi a Paris no ano do Brasil na França), dos alunos da Bituca: Universidade de Música Popular (escola livre, gratuita, em caráter profissionalizante para centenas de alunos de diversas cidades mineiras e cujo nome é o apelido do parceiro Milton Nascimento)”.

Essa galera, cujo elenco fixo tem mais de 20 integrantes, está no Recife de passagem, para duas apresentações (17 e 18 de agosto), no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, com o espetáculo Travessia. E eu tive o prazer de gastar uns dedos de prosa sobre essa linda história com alguns integrantes Ponto de Partida.

Da esq. para a dir. os atores Ronaldo Pereira, Érica Elke, Dani Costa e Daniela Damasceno. Foto: Lívia Lins

Da esq. para a dir. os atores Ronaldo Pereira, Érica Elke, Dani Costa e Carolina Damasceno. Foto: Lívia Lins

MEROS ESPECADORES – 32 anos, 32 montagens. Vocês não cansam não?

PONTO DE PARTIDA – (Rsrsrsrs) A gente queria ter tempo para fazer mais. Vivemos do Ponto de Partida e Para o Ponto de Partida. Estamos expandindo o Corredor Cultural (complexo cultural), que já contava com a Bituca, o teatro, e agora teremos a Casa da Palavra, que será um espaço para a literatura e também gastronomia. Além disso, o trabalho com os Meninos de Araçuaí também toma bastante o nosso tempo. Agora mesmo estamos lançando 4 CDs de um projeto chamado Presente de Vô, que inicialmente seria apenas um disco e acabou se tornando 4. Isso só mostra que a gente sempre quer mais.

ME – No Brasil, vocês são únicos no que fazem. Falo sobre a pesquisa em uma dramaturgia musicada com essência, corpo e alma brasileiros. Tudo já começou com essa ideia há 32 anos? Qual foi o ponto de partida?

PP – A geração que fundou o grupo pensou muito nisso. Era um movimento cultural. Na época eles sentiram muito essa necessidade de falar sobre o Brasil, Minas Gerais, a língua brasileira, porque desde lá se copiava muita coisa de fora. E descobriram que a música ligava tudo isso. Então quando foram atrás da cultura brasileira, descobriu-se que havia uma pesquisa imensa que poderia ser feita e até hoje a gente está nela. Nosso foco é o teatro, a música e literatura brasileira. Não é que não gostamos de Shaskespeare, mas preferimos montar Guimarães Rosa (Rsrsrsrs).

Travessia

Travessia

ME – Mas não existem, na pesquisa de vocês, referências de fora?

PP – Na verdade, como a gente faz muito musical, claro que a gente assiste. Mas a gente vê, curte, assimila e transforma. A linguagem deles é bem diferente da nossa. As maiores influências, atualmente, vêm dos próprios integrantes do grupo. Cada um traz a sua bagagem e a mistura delas interfere no fazer musical.

ME- Hoje há pouca pesquisa desta linguagem no Brasil, mas o que ou quais grupos daqui inspiram vocês?

PP – A gente viaja bastante e vê muita coisa boa. Os Fofos Encenam têm uma linha muito bacana (citaram Memórias da Cana/Newton Moreno), o Galpão. Não que sejam influencias teatrais, porque trabalham um outro tipo de teatro, mas nós admiramos muito. A Regina (Bertola, diretora do grupo) sempre diz que, esteticamente, aprendeu muito com o Álvaro Apocalypse (fundador do Grupo Giramundo) e o Antunes Filho. Quando o Ponto de Partida estava se renovando, a gente escolheu com quem a gente queria se formar. Tivemos a chance de estudar com Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Nelson Xavier, Cacá Carvalho, Jorginho de Carvalho (iluminação). Com estas pessoas aprendemos tudo o que podíamos, mas a gente não se formou pensando em ser como alguém.

Ronaldo Pereira. Foto: Lívia Lins

Ronaldo Pereira. Foto: Lívia Lins

ME – Porque o ator deve ser múltiplo? Vocês já chegaram ao grupo sabendo interpretar, cantar, dançar?

PP – Sobre ser múltiplo, nós acreditamos que para você fazer uma coisa de qualidade, tem que entender de tudo. Além de ser uma condição interessante para a sobrevivência do artista. Quem estiver mais preparado vai sobreviver melhor. No grupo, cada um entende pelo menos um pouco de cada coisa, por conta das necessidades que foram surgindo. Há pouquíssimos serviços terceirizados. Técnica, divulgação, mobilização, produção, tudo é feito por nós mesmos. Esse é um dos segredos da longevidade do grupo.

Há 10 anos o Ponto de Partida decidiu formar uma nova geração. Inaugurou a Casa de Arte-Ofício e abriu inscrições para 100 pessoas. Dessas, 30 restaram para um novo período de seleção. Restaram 15 que passaram 3 anos em treinamento . Havia uma tutoria: o aprendiz segue o mestre. Um veterano adotava um novato por um mês e no outro mês trocava-se de tutor. Dessa forma, nós passávamos por todas as áreas. No final da experiência sobraram  5 pessoas, que foram incorporados ao grupo.

Dani Costa. Foto: Lívia Lins

Dani Costa. Foto: Lívia Lins

ME – O que mais admiro em vocês é a capacidade de conquistar um público tão abrangente, heterogêneo  Vocês fazem espetáculos para a família brasileira e não para um público restrito, o que acredito ser um trabalho de formação de público que poucos grupos alcançam. Vocês pensam neste assunto quando estão no processo de criação?

PP – O tempo inteiro pensamos em formação de público. Quando a gente pensa no espetáculo, a gente pensa, em primeiro lugar, no público que pode se emocionar. Quando a gente pensa em levar a cultura brasileira para o palco, a gente quer tocar nas famílias. Assim, formamos um público muito abrangente. Montar um espetáculo exige uma responsabilidade muito grande. Mais de mil pessoas que saíram de casa para nos assistir. Alguns artistas têm o seguinte pensamento: eu quero falar sobre isso e que se dane o público. A gente tem muita preocupação em pensar em quem vai nos ver e levar um produto de qualidade. Fazer teatro no Ponto de Partida é mudar a vida das pessoas de alguma forma.  A música é determinante nesse processo. É o que liga tudo.

Daniela Damasceno. Foto: Lívia Lins

Carolina Damasceno. Foto: Lívia Lins

ME – O que vem primeiro: texto ou música?

PP – Depende do espetáculo. Se a gente se apaixonar por um autor, parte do texto. Se a gente pensar em montar um espetáculo somente musical, vamos estudar algum compositor. Mas a gente sempre trabalha com duas linguagens. O nosso último trabalho (PAR)  é um musical. Já Presente de Vô é mais texto, apesar de serem CDs.

ME – Existe algum espetáculo que vocês consideram “a cara” do Ponto de Partida?

PP – Cada um vai dizer um (Rsrsrsrs). O Beco foi um divisor de águas para o grupo.  Travessia, Viva o Povo Brasileiro, Ciganos… Qualquer um que você assistir, vai identificar que é do ponto de partida.

Érica Elke. Foto: Lívia Lins

Érica Elke. Foto: Lívia Lins

ME – A área formativa é uma característica forte do grupo. O que A Bituca e Os Meninos de Araçuaí representam para vocês?

PP – Isso é o resultado de uma utopia. Quando o grupo começou, essa formação do artista que a gente buscava, que sempre falava no final dos espetáculos, começou a se concretizar. A Bituca partiu de uma demanda dos próprios músicos. Nós pesquisávamos o que faltava e tentávamos investir nisso. A maioria formada na Bituca já está inserida no mercado de trabalho.  Os Meninos eram pobres estruturalmente, mas muito ricos em talento. Hoje eles têm 15 anos de carreira, já são conhecidos em vários lugares do mundo, em alguns até mais do que nós.

Pra-Nhá-Terra

Pra-Nhá-Terra

Meninos de Araçuaí no Pra-Nhá-Terr. Foto: Rodrigo Dai

Meninos de Araçuaí no Pra-Nhá-Terra. Foto: Rodrigo Dai

ME – De dois a três anos, o Brasil passou pelo famoso “boom” de musicais, principalmente entre o eixo RJ-SP. Infelizmente, muito do que se produz é adaptação ou até reprodução dos grandes musicais de fora. O que está faltando para investir na cultura brasileira?

PP – Eles dão o que a massa pede. Por esses dias, está acontecendo a premiação Bibi Ferreira, que é só de musicais. Se você pegar a lista de indicados você vê que a maioria é franquia. E o termo é este mesmo. Eles importam não só os textos, mas os artistas, atores, bailarinos, e fazem tudo com lei de incentivo. É mais fácil pegar uma fórmula pronta. Mas, olhando por um lado bom, pelo menos estão começando a valorizar os musicais de origem brasileira, como, por exemplo, Gonzagão – A Lenda (João Falcão), o Tim Maia (Nelson Motta).

PAR

PAR

Um olhar sobre “Círculos que não se fecham… Experimento n.1″, por Galiana Brasil

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

círculos

Galiana Brasil é atriz, graduada em artes cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco. Atua como gestora cultural no Sesc, onde desenvolve ações de coordenação pedagógica, há dez anos compõe o grupo de curadores nacionais do projeto Palco Giratório.

Um olhar sobre “Círculos
que não se fecham… Experimento n. 1”

Por Galiana Brasil

Qualquer passagem minha pela terreira da “Escola Pernambucana de Circo – EPC” sempre me deixa algo de especial, marcante. Porque o lugar é bonito, agradável; as pessoas são receptivas, calorosas e sempre há algo surpreendente acontecendo. Foi assim em todas as vezes que assisti a espetáculos, fui a festas, ou simplesmente cheguei para uma reunião administrativa (daí saía da sala para um xixi ou um café e me perdia no tempo observando o trabalho dos educadores com as crianças da comunidade). Porque em qualquer momento ali, há vida. Há “processo”. A EPC é um espaço permanente de transformação, de criação artística independentemente de editais, escancarando a ausência de política pública – aliás, assustadoramente há anos sem apoio nem financiamento contínuo de nenhuma ordem.

Se em tempos de desordem sangrenta, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, brechtianamente falando, há algo de revolucionário nesse espaço permanentemente aberto: chamando as pessoas à reflexão, promovendo debates, mantendo a plenária acesa acerca, principalmente, das questões relacionadas à juventude marginalizada e, como se não bastasse, promovendo o contato com a arte através de uma linguagem que, dentre aquelas que compõem as artes cênicas, também corre à margem – o circo. Basta procurar, dentro dos parcos programas existentes, as linhas de financiamento a ele destinadas, basta um olhar atento para as ações culturais promovidas na cidade, no estado, para entender porque não é arbitrário falar de uma hierarquização, de um tratamento desarmônico que tanto atrapalham o crescimento e a difusão dessa arte. Não que haja um cenário forte para o teatro ou a dança – muito longe disso! Mas que, dentre essas, o circo é o mais desprestigiado, isto é notório.

Foto: Marcelo Lyra

E é nesse contexto que sobrevive a EPC, donde nasceu a Trupe Circus que já acumula diversos trabalhos na bagagem, da qual se origina o experimento batizado “Círculos que não se fecham”. Construído em forma de processo colaborativo, é visível a autoria dos intérpretes que participam ativamente da criação, afinal, como bem explicitado no programa, assinado por Fátima (Fatinha) Pontes – que também assina o roteiro e a encenação -, são as suas experiências de vida, seus olhares, suas inquietações que dão o mote do jogo. Além disso, faz parte da forma de trabalho da Escola a divisão de tarefas, a opção pelo coletivo. Junto com Fátima assinam a direção do trabalho Maria Luiza Lopes e Anne Gomes. Impossível não destacar artistas como Allison Santana e Hosani Gomes, ingressos na EPC ainda adolescentes, hoje artistas reconhecidos, formadores da equipe docente, assim como Blau Lima, coordenador pedagógico que, neste Círculos…, executa a sonoplastia, grande parceiro de Fatinha na longa jornada de concepção e manutenção dessa escola.

O espetáculo que assisti na noite do último sábado, na sede da EPC, se distanciou da primeira montagem que guardava desperta na memória. Houve mudanças, e essas são um movimento natural, ainda mais num processo de jovens artistas, estimulados pela própria EPC que tantas oportunidades lhes proporciona – uns saem, outros chegam, é a punção da vida, mais um círculo que não se fecha. Comprometedoras, a meu ver, foram algumas escolhas que vão tecer a poética da cena, recursos visuais, sonoridades. Discursos ativos pungentes. Adentro com cuidado nesse terreno, mas sinto que preciso fazê-lo, porque acredito que a indiscutível ação social da EPC não pode ser reverenciada em detrimento de sua atuação artística. A trupe Circus é o braço artístico desse tronco – essa é a sua origem, é o que tem sido visto em suas produções, e é assim que me relaciono com ela.

A opção da montagem em falar de um roteiro no lugar de texto é bem ajustada à proposta que se apresenta, porém, paradoxalmente, a trilha sonora surge como dramaturgia, tal o espaço a ela garantido. Muitas vezes, os artistas parecem apenas ilustrar o que é dito nas letras, tamanho o poder que é oferecido a essas. Aí se perde uma oportunidade grande de problematizar, ultrapassar a seara do que já está dito, e o espetáculo acaba reforçando uma indústria massificadora, quando não oferece espaço para o subjetivo, para o não-dito. De fato, num trabalho em que a música se faz fio condutor a esse nível, a atuação de um profissional da área contribuiria bastante.

 Não se trata aqui de desconsiderar os referenciais trazidos pelos jovens – ao contrário. Eles existem, são fortes e é deles que se vai partir, porém, também faz parte dos processos artísticos desestabilizar o que está posto, desconfiar do que nos é apresentado como única opção, revirar, brincar com isso, para que as pessoas, os públicos possam também fazer outras leituras, obter novos significados, e não continuar se relacionando da mesma forma. Ouvir a mesma coisa de uma forma diferente para ampliar seu nível de percepção, ainda que isso aconteça pela via do estranhamento.

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

Uma cena que perdeu muito de sua poesia e carga dramática foi a tão reverenciada cena do triângulo amoroso no trapézio. Há um descompasso na composição dos personagens, há um estranhamento indisfarçável causado pelo figurino dos meninos, e, sem dúvidas, pela opção da versão dada à música do Legião Urbana.

A cena cresce em apuro cênico na sequência do uso das drogas. A utilização dos recursos técnicos (malabares, diabolô, cores, luzes distorcidas para um efeito psicodélico que faz referência aos estados de alteração da consciência) deixa margem para outras interpretações, espaço mais que bem vindo para as contribuições de quem vê, para que possamos fazer nossas leituras.

A potência do trabalho está no ato coletivo. Emblemado pela pirâmide humana, esta é a marca maior deste trabalho, a cada nova formação, a cada base humana, vemos a força do ensemble. A cada grito de impulsão, a cada gesto de confiança no outro, vemos que esses não são apenas desenhos de cena. Esta é a prática discursiva deste grupo, seu modo de funcionar. Sua força vem da ação conjunta: isso está implícito na cena, e trata-se de um valor muito caro às artes cênicas.

Foto: Marcelo Lyra

Foto: Marcelo Lyra

A decência e a obstinação de Fátima Pontes à frente dessa empreitada não é de hoje que me co-movem. E assim, estou com eles numa torcida cúmplice, ainda que silenciosa, ainda que de longe, mas movo-me com eles, na direção aonde esse trabalho aponte; caminho junto, porque acredito e penso, sinceramente, que é essa força, essa rede do bem que pode mudar o mundo, a começar por mudar os indivíduos: eles mesmos, os seus, o entorno, os que chegam pra aprender, pra conhecer e ali vão ficando, se descobrindo, se tornando. É tão bonito ver o movimento de meninos e meninas que ali entram e dali saem para tantos cantos. Os que começam aprendizes e com o tempo ali estão trabalhando na formação de novos… Agora dei pra ficar olhando as crianças na plateia (completamente vidradas nos artistas) e adivinhando quem daquelas daqui a pouco estará do outro lado…

Como todo ponto de vista é sempre a vista de um ponto, este é apenas um depoimento em primeira pessoa, acerca de minha relação com a obra, uma tentativa de captar o efêmero experimentado naquela noite. Minha fala é carregada de minhas referências, do meu modo de enxergar e da forma que acredito que posso provocar o outro. Traz, ainda, a carga de afeto que me liga ao grupo, não poderia ser diferente. Espero, com tudo isso, contribuir com o crescimento do trabalho, nem que seja pela tentativa de manter aceso o pensamento crítico que tanto caracteriza esse coletivo. E de acordo com o subtítulo da peça, este é o primeiro experimento, então, que venham outros. Oxalá!

FICHA TÉCNICA:

Roteiro e encenação: Fátima Pontes

Direção: Fátima Pontes, Maria Luiza Lopes e Anne Gomes

Coreografias: Patrícia Costa

Projeto de Iluminação: Sávio Uchôa

Execução de iluminação: Savio Uchôa

Execução de sonoplastia: Blau Lima

Seleção de sonoplastia: Fátima Pontes

Arranjo musical: Orquestra Perfil (Aguinaldo Menezes, Lyzia Rocha,

Heber Melo, Elton Assunção, Rosael Pimenta, Cleiton Eleno e Dinho)

Gravação da seleção musical: Estúdio Tropical Tec (Jorge Banana)

Produção executiva: Fátima Pontes e Alexandre Menezes

Assistente de produção: Maria Luiza Lopes

Programação visual: Cláudio Lira

Assessoria de comunicação: Julia Fontes

Figurino: Júlia Fontes

Cenário: Fátima Pontes e Maria Luiza Lopes

Elenco/Trupe Circus: Allison Santana, Anne Gomes, Bruno

Fernando, Célio Santos, César Gomes, Hammai de Assis Vieira,

Hosani Gomes, Ítalo Feitosa, Marcela D´Ângelo, Michael Francisco

Torres, Ítala Rodrigues, Pablo Carlos, Thiago Oliveira.

Contra-regra: Fábio Cavalcanti